domingo, 11 de abril de 2021
NOITE, DIA E TANGO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - XI
quinta-feira, 8 de abril de 2021
A DESEMPREGADA
Meu desejo
sempre foi viver um momento feliz. Por isso frequentemente saiu pela noite em
busca de alguém que possa me proporcionar um tiquinho de felicidade.
Naquela
sexta-feira vesti o melhor que eu tinha para um solteirão de vinte e sete anos,
entrei no meu carro razoavelmente confortável e resolvi entrar em um bar
desconhecido. Para isso tive que ir a outro bairro nobre da cidade. Estacionei
meu carro, encerado impecavelmente, e me dirigi para dentro do recinto, antes
deixei a chave com o manobrista. Para minha surpresa, era uma manobrista.
Era a primeira
vez que vejo essa atividade sendo praticada por uma mulher. Não quero fazer
juízo de valor. Para mim, um técnico em informática que trabalha no maior
hospital da cidade mediana, não cabe a mim julgar qual profissão é para homem e
qual é para mulher. Apenas constatei o fato.
Entrei e me
sentei em uma das banquetas, confortáveis por sinal, que faz parte de um dos
três balcões do bar. Foi um amigo e colega de trabalho, enfermeiro, que me indicou
esse lugar. Segundo ele mulheres bonitas e solitárias são frequentes. Ele me
contou que só este ano já pegou três. Todas valeram muito a pena. Falou de uma
morena de olhos verdes que ele não consegue esquecer. A loira de lábios
vermelhos, a última que ele paquerou, está nesse momento internada no hospital em que trabalhamos.
Eu queria que
ele estivesse comigo, mas hoje é o seu plantão e eu teria que aguardar mais
duas semanas para desfrutar da companhia dele. Arrisquei vir sozinho.
Pedi o
primeiro drink depois de olhar no menu o preço de cada tipo de bebida
identificando aquela que caberia no meu bolso. Lembro que não posso exagerar
nos gastos. Mês passado tive dificuldades e acabei fechando no vermelho.
Cheguei a pensar em vender meu carro. Não ouso chama-lo de carango. Ele não é.
A princípio me
decepcionei. O bar estava vazio e nada de mulher bonita. De cinco em cinco
minutos eu fazia uma vistoria com meus olhos incomodados. Apenas seis mulheres,
quatro acompanhadas e duas que não compensavam a investida, a não ser depois das
três da manhã.
Entendi com o
passar das horas que cheguei cedo demais. Onze horas da noite o recinto já
estava lotado. Realmente haviam mulheres interessantes sentadas juntas, olhando
para os lados. Caçadoras de homens como complemento para aquela noite. Eu
estava lá, uma caça disponível.
Não demorou
muito, uma delas sentou-se perto de mim, puxou assunto e eu fui dando corda. O
primeiro beijo aconteceu ali no balcão. Mas assim que detectamos uma mesa
desocupada em um canto mais reservado, ocupamos rapidamente. Enquanto a noite
avançava, era cada vez menos conversa e cada vez mais carinhos, ou amassos como
dizem por aí.
A partir das
três e meia o bar começava a se esvaziar. E nós dois já estávamos começando a
cansar de beijos, bebidas e conversas vazias. Ela fez menção de ir embora. Eu
pedi para que ela ficasse um pouco mais. Ela ficou. Arrependi. No fundo eu
queria ir embora com ela para algum lugar. Ter uma relação íntima com a mulher
que estava bebendo por minha conta em troca de beijos e uma ou outra carícia
mais ousada. Mas nos últimos minutos ela estava esfriando, me rejeitando.
Quatro e
quinze e só restavam nós dois no bar. Os garçons olhavam para nós com
reprovação e dizendo sem palavras para irmos embora, estavam cansados.
Levantamos,
quando eu tomei a direção do caixa para pagar a conta ela fez menção de ir
embora. Segurei-a pelo braço. Eu merecia uma despedida. Ela compreendeu e não
forçou uma fuga.
No
estacionamento restavam poucos carros. Quando a manobrista nos avistou dirigiu-se
à mulher que me fazia companhia.
— Vou trazer o
carro da senhora primeiro.
— Você está de
carro?
— Sim, estou
no meu carro. Por que a surpresa?
— Surpresa?
Não estou surpreso. Eu só pensei que terminaríamos a noite juntos.
— E
terminamos. A noite para mim já acabou. Foi bom ter ficado com você.
— Mas assim?
— É assim que
eu termino meus primeiros encontros. Quem sabe depois de algum tempo a gente
termine diferente. Venho aqui um final de semana sim e outro não. É só marcar
no seu calendário.
Ela entrou no
carro e arrancou. Eu a vi partir e notei que a manobrista estava percebendo a
minha desolação.
— Fica assim
não, senhor. Ela sempre faz isso. Não nutra suas esperanças, ela nunca fica
duas vezes com a mesma pessoa. Eu já cansei de ver essa cena.
Minha cabeça
começou a ficar pesada. O rosto da manobrista foi ficando distante. Tudo
rodopiou e eu caí.
Acordei depois
das onze da manhã. O sol entrava pelo meu quarto. Na minha cama havia vestígios
de que outra pessoa estivera ali, deitada ao meu lado. Havia cheiro de relação
íntima no ar. Meu corpo sentia, mas minha mente não se lembrava de nada.
Na cozinha
tinha café pronto e na porta da geladeira um bilhete que dizia: — Foi bom ficar
com você. A manobrista. — e o formato de uma boca em batom vermelho.
A manobrista
trouxe-me para casa e me deu felicidade. Pena que eu não estava sóbrio para
sentir.
Na
quarta-feira eu estava contando para meu amigo enfermeiro minhas aventuras da
noite de sexta quando vejo a mulher que tinha bebido às minhas custas entrar no
refeitório do hospital.
— O que ela
está fazendo aqui?
— Ela quem?
— A mulher que
me deixou no estacionamento. — ele olhou na direção da porta.
— É a nova
enfermeira. Começou a trabalhar hoje.
— Ela podia
ter dito que estava desempregada. Quem sabe da próxima vez ela racha a conta?
*******
PRÓXIMO CONTO
domingo, 4 de abril de 2021
INVEJADA, OCASO E SILÊNCIO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - X
DA SÉRIE: PENTALOGIAS DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS
O silêncio é um amigo que nunca trai.
Retomando minha série de poemas
de minha autoria, Pentalogia das minhas pétalas semanais, trago neste domingo
de páscoa os cincos poemas sem categorização. Ou seja, aqueles que por pressa
ou por achar que não devia, não dei a eles uma categoria no recanto das letras.
Eu os postarei em ordem
decrescente, do 5º mais lido para o 1º. Então vamos aos poemas.
PÉTALA
I
INVEJADA
Invejada
Imponente e maternal
Zelando pelo sono eterno
Dos teus filhos de outrora
Sofrendo com as loucuras
Dos teus filhos de agora!
O poema foi escrito a partir de uma foto tirado do terraço da casa do
meu pai, de onde se vê o cemitério da paz e ao fundo a pedra Invejada.
PÉTALA
II
OCASO
O poema verseja sobre
os ocasos que ocorrem em nossas vidas, uma relação entre o ocaso do sol que
anoitece nossos dias e os fins dos ciclos da nossa existência, que nem sempre
conformamos. O eu-lírico deste poema é um homem que já cruzou seus braços
diante de tantos ocasos já vividos.
PÉTALA III
O SILÊNCIO DAS FLORES
Fazendo parte da minha seleção de Poemas curtos para a obra
Poemas em pó. O silêncio das flores verseja sobre o desencanto com o mundo,
restando ao poeta apenas se encantar com as flores. Mas há um desejo de
encontrar a regeneração desse mundo decadente.
PÉTALA IV
FERMENTAÇÃO
Poema
escrito durante o ano em que eu morei em Manhumirim. Ele retrata uma visão
crítica sobre a cidade, mas que pode ser estendido sobre todo e qualquer
aglomerado urbano.
PÉTALA V
POEMA SEM PALAVRAS
Poema sem palavras está publicado na obra Decalogias
poéticas. Pertence à 1ª decalogia escrita em 26 de dezembro de 1996, inspirada
no termo Poema. Não é necessariamente um metapoema, mas um mergulho em uma
comparação entre o ato de amar e a loucura de poetizar.
Sobre o livro mencionado na Pétala V
Entre em contato com o AUTOR
LEIA OUTRAS PENTALOGIAS
sábado, 3 de abril de 2021
SETE FACES DOS POEMAS DE ANTONIO JADEL em DITO & FEITO: POR ENTRE SONHOS E POESIAS
O livro de poemas de Antonio Jadel chegou até mim através do escambo que sempre
busco encontrando companheiros de loucuras literárias no Recanto das Letras.
O livro é repleto de poemas bem cadenciados e traz uma visão
singular e moderna diante do amor, da natureza, dos sonhos, das necessidades
fisiológicas, do tempo e das dúvidas. Como diz em seu primeiro poema, é Deus
que escreve em linhas tortas.
FACE I
Hoje eu quero ter a
vontade única de ser uma “Tarde”,
apenas,
e passar o dia sem
olhar no relógio,
No poema Eu tarde,
o autor quer fugir da sua agenda, não olhar o relógio. Ele retoma este
tema em Relógio cuco.
Enquanto isso, ao
relento, criança relembro:
Na sala da minha tia,
Às 12 horas da meia
noite, piava em arte a opção...
Aparece aqui e ali, em sua poesia, um eu-lírico incomodado com
o tempo.
Tempo, sem tempo por
perda de tempo n’agenda
FACE II
De cara o poeta se refere ao amor:
Amor, decidido num
tribunal ‘multiportas’...
A palavra amor aparece pouco em sua poesia, mas este
sentimento está intrínseco em vários poemas quando o poema mergulha em
sentimentos como a saudade.
Há saudade,
sempre onde a saudade
se-lhe cabe.
Neste mesmo poema, Saudade,
o poema lança mão do concretismo e nos faz ver uma saudade escoando como areia
de uma ampulheta e formando novamente saudade no fundo. Esse movimento da saudade
que nos leva a saudar um certo momento.
FACE III
Segui na contramão do
recomendado
perfilhando meus passos
– sentido inverso
ao risco do que seria
sábio.
O poema Contramão
é como se fosse o eu-lírico de Drummond vivendo o jeito gauche de ser. Mas o poeta segue firme na contramão. Não se sente
perdido e nem encontrado. Ainda que não saiba para onde ir. Tudo é contramão,
afirma. Pois ele sabe fazer o contorno mesmo na estrada sem retorno.
Talvez o poeta queira aí nos ensinar a arte de viver.
FACE IV
Sou eu dentro de mim.
Não estabeleço
conexão.
Em sua série de Poema subsequente-subliminar espalhada ao longo da obra, em um deles o poema se revela fechado ao mundo. O eu-lírico se acha ajustado para si e desajustado para o mundo. Um ser não viável, já que o viável é imperfeito. Um eu que se acomoda dentro de sim.
Vento, assoprado por
dentro
FACE V
escute-me, ó Deus
inda que nada eu te
peça
em preces,
Enquanto Drummond se sente abandonado por Deus, o poeta aqui
roga a Deus que lhe escute, ainda que ele não peça nada. Somos teístas porque
precisamos de algo anterior, exterior e superior a nós para justificar nossas
finitudes. Há uso no mesmo poema Escuta-me da metáfora o joio e o trigo,
segundo o poeta, espalhados no mesmo lugar. Refere-se à guerra, em bélica
plantação. Ele indiretamente pede paz.
FACE VI
—sem nenhum ditado—
—regras sem regras—
— rebelde ao mandado–
— oponente ao Estado—
— discorde de tudo—
Em Filosofia o poeta, conhecedor do direito por formação, entende que diante de gente sem eira nem beira, é preciso ser insurgente. O seu credo é assim, o seu amém é sincero. É como se o poeta estivesse dizendo implicitamente que muito mais vasto que o mundo, é o seu coração.
FACE VII
A carapuça é vestida
de negro véu
belo(a)
que s’esconde na
espreita da sombra
à meia-noite
de um dia que passou
florido & risonho.
Em Isolo-me, como
um poema despedida do leitor, último na obra, o poeta depara com a noite. Sim,
todos nós deparamos com a noite quando se devia calar, mas a “lua deixa a gente
comovido como o diabo”. O poeta luta contra seus desejos. Lembra-se do dia
florido e risonho e chora por agora mergulhar nos desvarios da alma.
DA MESMA SÉRIE: MÁRCIO MUNIZ
À SOMBRA DO IMBONDEIRO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA (PARTE II)
DA SÉRIE: À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI
LINK PARA A PARTE I
TÍTULO: À SOMBRA DO IMBONDEIRO
SUBTÍTULO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA
AUTOR: ANTÓNIO MARCELO
EDITORA: E-COLOR
GÊNERO: BIOGRAFIA
AS CAMPINAS DE UM INCANSÁVEL RETIRANTE
— E agora, o que faço?
— Foge, José. Se te encontra, o homem te mata.
António Marcelo começa sua
biografia com a fuga do seu pai da pequena aldeia. E agora, José, o que vai
fazer? Um pastor de ovelhas não tinha vida fixa no início do que hoje chamamos
de civilização. Seu pai, tempos depois, vai para Angola pastoreando sonhos que
trouxera da sua Sambade e o progresso
financeiro da família. É a partir deste pastoreio do seu pai que António
Marcelo começa sua vida como um se vivesse à sombra do imbondeiro em terras
africanas, grande em extensão e pequena para seu espírito.
Através de sua narrativa que nos
faz pensar se tratar, inicialmente, de uma obra ficcional, de tão bem escrita, o
autor vai colocando-nos a par do ambiente e do tempo de suas vivências. Dois ou três saíram correndo e voltaram com
algumas meias, furtadas de suas mães. Enrolando umas tantas, a bola do Jorge ficou
com consistência suficiente para ser usada. Eis como se jogava futebol. O
futebol que certamente deu frutos como é o futebol angolano hoje, Petro
Atlético, Primeiro de Agosto que o diga.
No Colégio Acadêmico, me tornei amigo do Manicas, mulato safado,
malandro e sem-vergonha, mas amigo leal e verdadeiro. Todos os dias a
palmatória de dona Angélica voava sobre ele, que gritava. Reminiscências
discentes sobre a educação dura, na base da pressão. Tempos que não cabem mais,
mas que fez parte da história e António Marcelo fala dela com certo ar de
nostalgia. Tempo de brincadeiras nas ruas como as que eu vivi na década de 70
aqui no interior de Minas Gerais.
Sambade continuava pobre como dantes... A escalada social e
financeira do pastor que fugira da pequena aldeia foi contrastada neste relato.
Se o pai não tivesse tido motivos para fugir dali, nosso autor talvez nos
trouxesse esses amores, essas guerras e essas aventuras, não seria um homem de
muitas campinas e sua história teria outros fatos para se tornar interessante
uma vez que toda vivência humana neste planetinha tem seu esplendor.
Creio que como todo filho, ainda que tarde reconheça, a maior riqueza que António Marcelo recebeu de seu pai foi a educação, a oportunidade de estudar em Portugal, de se formar em engenheiro mecânico, e de passar pelo serviço militar. De viver os amores oscilando entre intensidade e descompromisso, coisa típica dos jovens. Em diversos momentos de sua vida universitária o autor deixa óbvio como as diferenças sociais influenciam no acesso à educação. E ele próprio passando por alguns perrengues.
DIGNO DE UM ROTEIRO
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Ela era divertida e descontraída, simpática e espontânea. Encantadora.
Linda e elegante. Estes atributos são de Gabriela, um dos amores do nosso
autor. Neste caso o pêndulo dos seus sentimentos estava oscilando para o lado
da intensidade. Arriscou, amou e terminou em uma aventura tempos depois. Esse caso em si é digno de um roteiro de um
longa-metragem.
Além do caso de amor com
Gabriela, vivemos juntos com António Marcelo o repúdio ao salazarismo em
movimentos estudantis. Aí ele vive um sistema educacional controlado, centrado
no nacionalismo e no grande império colonial. António Marcelo, vindo de uma das
colônias, sabia bem o que significava esse império. Pode viver a diferença
entre a metrópole e as terras de onde o país lusitano extraia parte das suas
riquezas. Ele, como diretor da papelaria da associação de estudantes, vive a
primeira experiência de empresário. Talvez ali ele tivesse compreendido como a
vida adulta funciona de fato.
Pela
experiência de António Marcelo concluímos que nem a ditadura de direita
salazarista, e nem a ditadura de esquerda do MPLA de Angola são dignas de
aplausos.
QUANTO DE TUAS LÁGRIMAS SÃO SAL
E assim conhecemos a Guiné Bissau, Cabo Verde
e os Açores. Sua experiência na marinha deu a ele a oportunidade de
conhecer as tantas outras campinas, usada nesta resenha como descrição das
diversas paisagens que ficaram na memória de António Marcelo capturadas pelas
suas retinas.
Voltando para Angola para seguir
no pastoreio dos empreendimentos do seu pai, vemos neste momento o autor nos
narrando de como era a vida nas fazendas de Angola, como se deu a sua atuação
como homem de negócios em uma colônia que transpirava anseio de liberdade. O trabalho exaustivo afetando a sua saúde. A
imersão na bovinocultura, na plantação de girassol e os sustos de estar sempre
a viajar na queda de um avião.
Não me movia apenas o dinheiro que nunca coloquei acima de valores mais
pessoais. Sentia um enorme desejo de honrar e sedimentar as iniciativas do meu
pai, valorizando-as.
Entre as (pre)ocupações de A.
Marcelo estava a de manter as relações com suas irmãs e, evidente, da sua
esposa e filhas.
Apesar de roçar com a ilegalidade
dos diamantes, essa empresa não fazia parte da vida do empresário que
administrava seus negócios com ênfase na prosperidade da sua família, das suas
empresas e por consequência da sua terra.
No limiar da libertação de
Angola, a vida de António Marcelo foi ficando intensa. A morte de pessoas
conhecidas foi entrando na sua rotina como as mortes de uma pandemia. Eram empregados, amigos e colaboradores. A
morte que mais lhe chocou foi a de Andrew, exposta pelo autor na primeira parte desta resenha.
Muito antes da saída do homem
António Marcelo de Angola, muito de si já tinha ido. Boa parte de seus
empregados, seus sócios e sua família.
A parte mais tensa desses anos é
o Julgamento Popular no qual o protagonista entra como réu e reverte a situação
com habilidade peculiar de um bom negociante. Mas depois o artifício teve
consequências que influenciaria na sua saída definitiva de Angola.
Angolanos empresários acreditavam
no início do processo que tinham muito a contribuir com uma Angola livre.
Talvez os episódios narrados nesta autobiografia tivessem um final diferente se
não fosse a guerra fria em curso.
Entrando no avião, dormi durante todo o voo. Descontado o tempo de
desembarque e chegada ao Hotel no Rio, dormi 24 horas seguidas. Era o preço da
exaustão total.
António Marcelo se libertara da
Angola afogando-se em sangue. Agora era reconstruir, pastorear nossas situações
no Brasil, país que lhe agradou desde a primeira visita. No Brasil sentiu-se
seguro para recomeçar.
PASTOREIO EM PINDORAMA
Sua estabilidade no Brasil dependeu
de viver outras aventuras em voos, idas à Portugal, reconfiguração da sua
situação familiar. Era como ter que tosquiar as novas ovelhas para que a lã
pudesse lhe proteger das intempéries da vida. Não sabemos se a bela Campinas,
próxima de São Paulo, será a paragem definitiva deste eterno retirante. Só sabemos que Campinas acolheu António
Marcelo como se fosse um filho. E ele é grato pela acolhida de Campinas e do
Brasil.
Te amo porque me acolheste com humildade e ternura
Te amo porque agora és meu!
Obrigado Brasil, por existires!
Estamos no
aguardo do segundo livro contando esta parte aqui no Brasil.
quinta-feira, 1 de abril de 2021
À SOMBRA DO IMBONDEIRO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA (PARTE I)
DA SÉRIE: À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI
TÍTULO: À SOMBRA DO IMBONDEIRO
SUBTÍTULO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA
AUTOR: ANTÓNIO MARCELO
EDITORA: E-COLOR
GÊNERO: BIOGRAFIA
LEITURAS À
SOMBRA DE UM CEDRO
Nos últimos
anos do século XX eu mergulhava cada vez mais fundo na literatura sem saber
nadar. Afoguei-me várias vezes. Ainda não li profundamente Paulo Coelho. Melhor
dizendo, eu ainda não li nada, praticamente nada desse escritor que foi sucesso
de vendas e recebeu críticas por isso. Mas sempre me interessei por títulos de
livros. Na margem do rio Pietra eu sentei e chorei é um título que caiu nas
águas frias da minha mente e virou pedra como a lenda sobre o referido rio. Era
uma constante em minha vida. A petrificação do título virou em mim a ideia de
escrever resenhas sobre romances para no futuro publicá-las sob o título À
SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI. Cedro é o nome do córrego em que eu nasci e
vivi a fase mágica da minha vida. A mesma magia que povoava a mente de uma
criança exploradora das estradas poeirentas no extremo norte de Mutum é sentida
por mim toda vez que estou diante de um livro. Ler é explorar vidas em páginas
de livros.
Julguei ser
necessária a introdução acima para justificar meu interesse pelo livro de
António Marcelo que me trouxe à memória o título pensado há 25 anos para uma
coleção de resenhas e me aninou a retomar a ideia. Talvez eu nunca venha
publicar minhas resenhas em livro. Mas farei registros em neste blog. A
aquisição pela troca de obras que proponho ocasionalmente aos meus colegas de
Recanto das Letras me permitiu ter o livro em mãos.
ANTÓNIO MARCELO: UM HOMEM DE MUITAS CAMPINAS
![]() |
| (Divulgação do filme Forrest Gump - O Contador de História) |
António Marcelo nos deixa um relato de sua vida em três continentes. Nascido em 1939, pareceu-me um Forrest Gump lusófono no jeito de contar sua história, atravessando momentos ímpares de Portugal com o Salazarismo e de Angola no seu processo doloroso de libertação marcado por conflitos fraticidas.
Julguei por bem dividir esta postagem em duas partes. A primeira que trago à luz hoje traz uma entrevista do nosso blog como o autor da obra. António Marcelo vive em campinas, interior de São Paulo. Suas respostas nos levarão para o espírito do seu livro, a lembrança de quem teve amores, guerras e aventuras tecendo um enredo real, desde a ida de seu pai para Angola até a sua estabilidade em paragens brasileiras.
— ENTREVISTA —
Quando e por que você decidiu contar sua história?
Muita omissão e mentira sobre o êxodo de milhões de colonos
brancos (cerca de 600.000) para Portugal
e outras partes do mundo obrigados a largarem todos os seus bens .Também
milhares de negros trabalhando no norte de angola que fugiram a pé para suas
terras no sul para não serem assassinados pelos rebeldes do Norte.
Meu testemunho pode não ser importante para o mundo, mas
para mim foi um grito de libertação dos sentimentos de revolta que mantinha
armazenados dentro de mim. Portugal não pode esquecer.
Sua autobiografia nos presenteia com textos de considerável teor
literário quanto à forma com que você narra fatos da sua vida. Você tem outras
obras publicadas?
Não tenho nada publicado. Apenas alguns versos e contos no
Recanto das Letras.
Dos amores vividos, qual deles você destaca?
Sem dúvida o caso com Gabriela.
Das guerras vividas, bélicas ou não, qual mais te afetou?
Muitos empregados tanto os que vinham do interior como os de
Luanda queriam fugir para Portugal. Os aviões estavam lotados por 6 meses e não
havia como comprar passagens. Depois disso ninguém sabia o que o novo governo
poderia fazer com os brancos. O governo português nada fazia para resolver o
problema. As pessoas dormiam dentro do aeroporto ou até mesmo na rua na
esperança de poderem embarcar. Hotéis e restaurantes lotados. Comida
escasseando. Todo o mundo vendedor do que tinha, mas compradores não os havia.
Todos em fuga.
Um amigo que trabalhava numa companhia aérea jogava com o
overbooking para me conseguir passagens para esses funcionários e respectivas
famílias. Essas pessoas eram um verdadeiro pesadelo para mim. Mais tarde vim a
saber que os colegas que apoiavam a entrega do governo ao MPLA descobriram o
que ele fazia .E isso aconteceu devido à ultima passagem que ele arrumou para
mim. Ele teve que fugir para o Sul. Encontraram-no e mataram-no. Até hoje sofro
com essa lembrança.
Das aventuras que você viveu, qual foi a mais marcante?
Quando recebo a noticia que uma das fazendas tinha sido
ocupada por 30 guerrilheiros. Nessa fazenda trabalhavam 500 pessoas que corriam
o risco de serem mortas. No livro conto como fui de avião para reunir com o
general chefe das forças armadas na região, a reação tempestiva dele e depois
as medidas que tomei para resolver o problema.
Você teve alguma dificuldade de se adaptar ao jeito brasileiro de ser?
Pelo contrário. Brasil se parece muito com Angola e o povo
alegre e comunicativo sempre me havia atraído.
Após dez anos do livro publicado você se lembra de alguma parte da sua
vida que deveria ter nos revelado?
O livro termina praticamente com a chegada ao Brasil. A
minha vida neste País é digna de outro livro.
Atualmente você ainda tem alguma relação com Angola? Se sim, qual?
Absolutamente nenhuma. Uns 3 anos depois de chegar aqui veio
um representante angolano me convidando para recuperar os meus bens produtivos
em Angola. Pode imaginar qual foi a minha reação.
BLOG: Deixamos aqui nosso obrigado ao autor pela pequena entrevista, em breve postaremos a segunda parte comentando nossas sensações sobre o livro.
SEGUNDA PARTE DA RESENHA: PARTE II























