domingo, 11 de abril de 2021

NOITE, DIA E TANGO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - XI

 

    Faz de conta que ainda é cedo
    Tudo vai ficar por conta da emoção
    Faz de conta que ainda é cedo
    E deixar falar a voz do coração
    (Um dia de domingo – Gal Costa e Tim Maia)
 
    Quando se deixa falar a voz do coração pode-se ouvir uma voz suave, romântica, falando do encontro, ou uma voz lacrimejante, falando dos desencontros. Um poema nasce assim, desta voz que vem de dentro, mas todo poeta precisa estar atento aos sinais dos tempos.
            Na realidade nem tudo que um poeta escreve vem de dentro de si, mas de dentro de alguém. Como somos seres diversos, temos vários universos. A dor presente no poema pode ser a dor de alguém que o poeta sequer conhece. Mas ele sabe, ouvindo a voz do seu coração, que aquela dor é humanamente possível, ou desastrosamente uma consequência do desamor que nos impingimos sempre.
            Neste domingo, onze de abril, trago três poetrix intercalados por dois indrisos.  Vamos aos poemas (pétalas).
 
 *****

PÉTALA I
NA TELA DO COMPUTADOR
 
Teu NOME em caixa alta
Como extensão de mim
O meu teclado te exalta

    O nome da pessoa amada é exaltada até pelos equipamentos de trabalhos, e na pandemia, em home office, o teclado passou a ser extensão do nosso próprio corpo.
 

PÉTALA II
NOITES LONGAS E DIAS CURTOS
 
Em um lugar de noites longas e sol raro
Perco-me na selva silenciosa e sombria
Eu rastejo sem teu abraço, meu amparo
 
Em tempos de dias curtos e lua opaca
Afundo-me na areia movediça da agonia
Eu não sei se sou o caçador ou a caça
 
Um medo uiva dentro de mim e me acua
 
Eu te amo na cama que a mente insinua

    Em um ambiente que se aproxima do gótico, onde a natureza em nada favorece o homem preso na lembrança de um amor, a insanidade começa a beliscar suas certezas. 

 *****

PÉTALA III
RESSONAR DE UM MOMENTO
 
Ouço roncar em mim
A voracidade do verme
Ela disse que era amor
 
    A solidão rói por dentro como um verme depois de uma desilusão amorosa.

 *****

PÉTALA IV
O DIA QUE EU POSSO TER
 
Com meu corpo sovado por pesadelos
Eu abro meus braços para acolher o sol
A magia da manhã cura minhas feridas
 
Enquanto busco uma fenda qualquer
Na muralha que encastela meu viver
Eu arranho as lembranças pungentes
 
Sei que o dia tem pouco a me oferecer
 
Mas hoje este é o dia que eu posso ter

    Viver cada dia como se fosse o único. Uma pétala de alento em meio a outras que sangram com os espinhos da vida.
 
 

PÉTALA V
COM(PASSOS)
 
Enquanto eu sangro
A Minha vida segue
No ritmo de um tango

    A vida precisa seguir ainda que seja em ritmo de tragédia, típica de um tango invisível nos conduzindo pelo destino.
*****
Leia indrisos de minha autoria em

ENTRE EM CONTATO COM O AUTOR
O HOMEM & SUAS PERDAS



OUTRAS PÉTALAS SEMANAIS



*****

POR VOCÊ TER LIDO





quinta-feira, 8 de abril de 2021

A DESEMPREGADA

 


Meu desejo sempre foi viver um momento feliz. Por isso frequentemente saiu pela noite em busca de alguém que possa me proporcionar um tiquinho de felicidade.

Naquela sexta-feira vesti o melhor que eu tinha para um solteirão de vinte e sete anos, entrei no meu carro razoavelmente confortável e resolvi entrar em um bar desconhecido. Para isso tive que ir a outro bairro nobre da cidade. Estacionei meu carro, encerado impecavelmente, e me dirigi para dentro do recinto, antes deixei a chave com o manobrista. Para minha surpresa, era uma manobrista.

Era a primeira vez que vejo essa atividade sendo praticada por uma mulher. Não quero fazer juízo de valor. Para mim, um técnico em informática que trabalha no maior hospital da cidade mediana, não cabe a mim julgar qual profissão é para homem e qual é para mulher. Apenas constatei o fato.

Entrei e me sentei em uma das banquetas, confortáveis por sinal, que faz parte de um dos três balcões do bar. Foi um amigo e colega de trabalho, enfermeiro, que me indicou esse lugar. Segundo ele mulheres bonitas e solitárias são frequentes. Ele me contou que só este ano já pegou três. Todas valeram muito a pena. Falou de uma morena de olhos verdes que ele não consegue esquecer. A loira de lábios vermelhos, a última que ele paquerou, está nesse momento internada no hospital em que trabalhamos.

Eu queria que ele estivesse comigo, mas hoje é o seu plantão e eu teria que aguardar mais duas semanas para desfrutar da companhia dele. Arrisquei vir sozinho.

Pedi o primeiro drink depois de olhar no menu o preço de cada tipo de bebida identificando aquela que caberia no meu bolso. Lembro que não posso exagerar nos gastos. Mês passado tive dificuldades e acabei fechando no vermelho. Cheguei a pensar em vender meu carro. Não ouso chama-lo de carango. Ele não é.

A princípio me decepcionei. O bar estava vazio e nada de mulher bonita. De cinco em cinco minutos eu fazia uma vistoria com meus olhos incomodados. Apenas seis mulheres, quatro acompanhadas e duas que não compensavam a investida, a não ser depois das três da manhã.

Entendi com o passar das horas que cheguei cedo demais. Onze horas da noite o recinto já estava lotado. Realmente haviam mulheres interessantes sentadas juntas, olhando para os lados. Caçadoras de homens como complemento para aquela noite. Eu estava lá, uma caça disponível.

Não demorou muito, uma delas sentou-se perto de mim, puxou assunto e eu fui dando corda. O primeiro beijo aconteceu ali no balcão. Mas assim que detectamos uma mesa desocupada em um canto mais reservado, ocupamos rapidamente. Enquanto a noite avançava, era cada vez menos conversa e cada vez mais carinhos, ou amassos como dizem por aí.

A partir das três e meia o bar começava a se esvaziar. E nós dois já estávamos começando a cansar de beijos, bebidas e conversas vazias. Ela fez menção de ir embora. Eu pedi para que ela ficasse um pouco mais. Ela ficou. Arrependi. No fundo eu queria ir embora com ela para algum lugar. Ter uma relação íntima com a mulher que estava bebendo por minha conta em troca de beijos e uma ou outra carícia mais ousada. Mas nos últimos minutos ela estava esfriando, me rejeitando.

Quatro e quinze e só restavam nós dois no bar. Os garçons olhavam para nós com reprovação e dizendo sem palavras para irmos embora, estavam cansados.

Levantamos, quando eu tomei a direção do caixa para pagar a conta ela fez menção de ir embora. Segurei-a pelo braço. Eu merecia uma despedida. Ela compreendeu e não forçou uma fuga.

No estacionamento restavam poucos carros. Quando a manobrista nos avistou dirigiu-se à mulher que me fazia companhia.

— Vou trazer o carro da senhora primeiro.

— Você está de carro?

— Sim, estou no meu carro. Por que a surpresa?

— Surpresa? Não estou surpreso. Eu só pensei que terminaríamos a noite juntos.

— E terminamos. A noite para mim já acabou. Foi bom ter ficado com você.

— Mas assim?

— É assim que eu termino meus primeiros encontros. Quem sabe depois de algum tempo a gente termine diferente. Venho aqui um final de semana sim e outro não. É só marcar no seu calendário.

Ela entrou no carro e arrancou. Eu a vi partir e notei que a manobrista estava percebendo a minha desolação.

— Fica assim não, senhor. Ela sempre faz isso. Não nutra suas esperanças, ela nunca fica duas vezes com a mesma pessoa. Eu já cansei de ver essa cena.

Minha cabeça começou a ficar pesada. O rosto da manobrista foi ficando distante. Tudo rodopiou e eu caí.

Acordei depois das onze da manhã. O sol entrava pelo meu quarto. Na minha cama havia vestígios de que outra pessoa estivera ali, deitada ao meu lado. Havia cheiro de relação íntima no ar. Meu corpo sentia, mas minha mente não se lembrava de nada.

Na cozinha tinha café pronto e na porta da geladeira um bilhete que dizia: — Foi bom ficar com você. A manobrista. — e o formato de uma boca em batom vermelho.

A manobrista trouxe-me para casa e me deu felicidade. Pena que eu não estava sóbrio para sentir.

Na quarta-feira eu estava contando para meu amigo enfermeiro minhas aventuras da noite de sexta quando vejo a mulher que tinha bebido às minhas custas entrar no refeitório do hospital.

— O que ela está fazendo aqui?

— Ela quem?

— A mulher que me deixou no estacionamento. — ele olhou na direção da porta.

— É a nova enfermeira. Começou a trabalhar hoje.

— Ela podia ter dito que estava desempregada. Quem sabe da próxima vez ela racha a conta?


*******

PRÓXIMO CONTO

A BARGANHA


domingo, 4 de abril de 2021

INVEJADA, OCASO E SILÊNCIO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - X

 DA SÉRIE: PENTALOGIAS DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS


O silêncio é um amigo que nunca trai.

Confúcio


Retomando minha série de poemas de minha autoria, Pentalogia das minhas pétalas semanais, trago neste domingo de páscoa os cincos poemas sem categorização. Ou seja, aqueles que por pressa ou por achar que não devia, não dei a eles uma categoria no recanto das letras.

Eu os postarei em ordem decrescente, do 5º mais lido para o 1º. Então vamos aos poemas.

 

PÉTALA I


INVEJADA

Invejada

Imponente e maternal

Zelando pelo sono eterno

Dos teus filhos de outrora

Sofrendo com as loucuras

Dos teus filhos de agora!

 

O poema foi escrito a partir de uma foto tirado do terraço da casa do meu pai, de onde se vê o cemitério da paz e ao fundo a pedra Invejada.

 

PÉTALA II

OCASO

Cada caso
De amor na cidade
Seja por acaso
Seja por necessidade
Faz a história
Que passa ligeira
Que fica na memória
 
Cada atraso
Que adia por instantes
O calor do abraço
De corpos distantes
Na história interfere
Como mão que afaga
Como mão que fere
 
Cada dia um ocaso
Do sol reluzente
Como fim do prazo
De cada ser vivente
Os braços eu cruzo
Como menosprezo
Por tudo que uso
 
E assim chego ao fim...

 

    O poema verseja sobre os ocasos que ocorrem em nossas vidas, uma relação entre o ocaso do sol que anoitece nossos dias e os fins dos ciclos da nossa existência, que nem sempre conformamos. O eu-lírico deste poema é um homem que já cruzou seus braços diante de tantos ocasos já vividos.

 

PÉTALA III


O SILÊNCIO DAS FLORES

Eu escuto o silêncio das flores
Encanto-me
É o que ainda me resta
Sob o vento de fim de festa
 
Sorrisos estão emoldurados
Nas paredes pálidas das lembranças
As palavras estão magérrimas
Definham-se perante cada mentira
 
Quero abrir um túnel sob os declínios
E encontrar a luz da regeneração

    Fazendo parte da minha seleção de Poemas curtos para a obra Poemas em pó. O silêncio das flores verseja sobre o desencanto com o mundo, restando ao poeta apenas se encantar com as flores. Mas há um desejo de encontrar a regeneração desse mundo decadente.

 

PÉTALA IV

FERMENTAÇÃO

a cidade perante
ao teu olhar brilhante
vai crescendo
massa com fermento
 
a cidade perante
ao canto dos motores
permanece incauta
nem sente minha falta
se morro ou saio
 
mas o teu canto
no meu canto
não é espanto
é nada além
do que me encanta
 
a cidade perante
ao nosso flagrante
vai se corroendo
cancros no cimento
 
a cidade perante
aos gemidos de amores
permanece inocente
nem sente minhas dores
se corro ou desmaio
 
mas o teu gemido
no meu ouvido
não é um grito
é nada além
da própria vida

    Poema escrito durante o ano em que eu morei em Manhumirim. Ele retrata uma visão crítica sobre a cidade, mas que pode ser estendido sobre todo e qualquer aglomerado urbano.

 

PÉTALA V


POEMA SEM PALAVRAS

Quem diria
Que meu poema
Um dia
Fosse além
Do que eu queria
 
Eu queria teus seios
E ele foi ao coração
Despertar anseios
Com recheio de paixão
E então
Descobri-me tão poeta
Que te fiz outro poema
Sem rima
Sem figura de construção
Na verdade
Era um poema sem palavras
Era um poema-sedução

    Poema sem palavras está publicado na obra Decalogias poéticas. Pertence à 1ª decalogia escrita em 26 de dezembro de 1996, inspirada no termo Poema. Não é necessariamente um metapoema, mas um mergulho em uma comparação entre o ato de amar e a loucura de poetizar.

Sobre o livro mencionado na Pétala V


Entre em contato com o AUTOR

LEIA OUTRAS PENTALOGIAS

PENTALOGIA I

PENTALOGIA IX



sábado, 3 de abril de 2021

SETE FACES DOS POEMAS DE ANTONIO JADEL em DITO & FEITO: POR ENTRE SONHOS E POESIAS

O livro de poemas de Antonio Jadel  chegou até mim através do escambo que sempre busco encontrando companheiros de loucuras literárias no Recanto das Letras.

Esta é a segunda postagem da série Sete Faces dos Poemas, como sabido, em referência ao Poema de Sete Faces do nosso mestre Carlos Drummond de Andrade.

O livro é repleto de poemas bem cadenciados e traz uma visão singular e moderna diante do amor, da natureza, dos sonhos, das necessidades fisiológicas, do tempo e das dúvidas. Como diz em seu primeiro poema, é Deus que escreve em linhas tortas. 

 



FACE I

Hoje eu quero ter a vontade única de ser uma “Tarde”,

apenas,

e passar o dia sem olhar no relógio,

 

No poema Eu tarde, o autor quer fugir da sua agenda, não olhar o relógio. Ele retoma este tema em Relógio cuco.

 

Enquanto isso, ao relento, criança relembro:

Na sala da minha tia,

Às 12 horas da meia noite, piava em arte a opção...

 

Aparece aqui e ali, em sua poesia, um eu-lírico incomodado com o tempo.

Tempo, sem tempo por perda de tempo n’agenda

 


FACE II

De cara o poeta se refere ao amor:

Amor, decidido num tribunal ‘multiportas’...

 

A palavra amor aparece pouco em sua poesia, mas este sentimento está intrínseco em vários poemas quando o poema mergulha em sentimentos como a saudade.

Há saudade,

sempre onde a saudade se-lhe cabe.

 

Neste mesmo poema, Saudade, o poema lança mão do concretismo e nos faz ver uma saudade escoando como areia de uma ampulheta e formando novamente saudade no fundo. Esse movimento da saudade que nos leva a saudar um certo momento.




 

FACE III

Segui na contramão do recomendado

perfilhando meus passos – sentido inverso

ao risco do que seria sábio.

 

O poema Contramão é como se fosse o eu-lírico de Drummond vivendo o jeito gauche de ser. Mas o poeta segue firme na contramão. Não se sente perdido e nem encontrado. Ainda que não saiba para onde ir. Tudo é contramão, afirma. Pois ele sabe fazer o contorno mesmo na estrada sem retorno. Talvez o poeta queira aí nos ensinar a arte de viver.

 

FACE IV

Sou eu dentro de mim.

Não estabeleço conexão.

Em sua série de Poema subsequente-subliminar espalhada ao longo da obra, em um deles o poema se revela fechado ao mundo. O eu-lírico se acha ajustado para si e desajustado para o mundo. Um ser não viável, já que o viável é imperfeito. Um eu que se acomoda dentro de sim. 

Vento, assoprado por dentro


 


FACE V

escute-me, ó Deus

inda que nada eu te peça

em preces,

 

Enquanto Drummond se sente abandonado por Deus, o poeta aqui roga a Deus que lhe escute, ainda que ele não peça nada. Somos teístas porque precisamos de algo anterior, exterior e superior a nós para justificar nossas finitudes.  Há uso no mesmo poema Escuta-me da metáfora o joio e o trigo, segundo o poeta, espalhados no mesmo lugar. Refere-se à guerra, em bélica plantação. Ele indiretamente pede paz.

 

FACE VI

—sem nenhum ditado—

—regras sem regras—

— rebelde ao mandado–

— oponente ao Estado—

— discorde de tudo—

 

Em Filosofia o poeta, conhecedor do direito por formação, entende que diante de gente sem eira nem beira, é preciso ser insurgente. O seu credo é assim, o seu amém é sincero. É como se o poeta estivesse dizendo  implicitamente que muito mais vasto que o mundo, é o seu coração.

FACE VII

A carapuça é vestida de negro véu

belo(a)

que s’esconde na espreita da sombra

à meia-noite

de um dia que passou florido & risonho.

 

Em Isolo-me, como um poema despedida do leitor, último na obra, o poeta depara com a noite. Sim, todos nós deparamos com a noite quando se devia calar, mas a “lua deixa a gente comovido como o diabo”. O poeta luta contra seus desejos. Lembra-se do dia florido e risonho e chora por agora mergulhar nos desvarios da alma.


DA MESMA SÉRIE: MÁRCIO MUNIZ


À SOMBRA DO IMBONDEIRO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA (PARTE II)


DA SÉRIE: À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI

LINK PARA A PARTE I

TÍTULO: À SOMBRA DO IMBONDEIRO

SUBTÍTULO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA

AUTOR: ANTÓNIO MARCELO

EDITORA: E-COLOR

GÊNERO: BIOGRAFIA






AS CAMPINAS DE UM INCANSÁVEL RETIRANTE

— E agora, o que faço?

— Foge, José. Se te encontra, o homem te mata.

António Marcelo começa sua biografia com a fuga do seu pai da pequena aldeia. E agora, José, o que vai fazer? Um pastor de ovelhas não tinha vida fixa no início do que hoje chamamos de civilização. Seu pai, tempos depois, vai para Angola pastoreando sonhos que trouxera da sua  Sambade e o progresso financeiro da família. É a partir deste pastoreio do seu pai que António Marcelo começa sua vida como um se vivesse à sombra do imbondeiro em terras africanas, grande em extensão e pequena para seu espírito.

Através de sua narrativa que nos faz pensar se tratar, inicialmente, de uma obra ficcional, de tão bem escrita, o autor vai colocando-nos a par do ambiente e do tempo de suas vivências. Dois ou três saíram correndo e voltaram com algumas meias, furtadas de suas mães. Enrolando umas tantas, a bola do Jorge ficou com consistência suficiente para ser usada. Eis como se jogava futebol. O futebol que certamente deu frutos como é o futebol angolano hoje, Petro Atlético, Primeiro de Agosto que o diga.

No Colégio Acadêmico, me tornei amigo do Manicas, mulato safado, malandro e sem-vergonha, mas amigo leal e verdadeiro. Todos os dias a palmatória de dona Angélica voava sobre ele, que gritava. Reminiscências discentes sobre a educação dura, na base da pressão. Tempos que não cabem mais, mas que fez parte da história e António Marcelo fala dela com certo ar de nostalgia. Tempo de brincadeiras nas ruas como as que eu vivi na década de 70 aqui no interior de Minas Gerais.

Sambade continuava pobre como dantes... A escalada social e financeira do pastor que fugira da pequena aldeia foi contrastada neste relato. Se o pai não tivesse tido motivos para fugir dali, nosso autor talvez nos trouxesse esses amores, essas guerras e essas aventuras, não seria um homem de muitas campinas e sua história teria outros fatos para se tornar interessante uma vez que toda vivência humana neste planetinha tem seu esplendor.

Creio que como todo filho, ainda que tarde reconheça, a maior riqueza que António Marcelo recebeu de seu pai foi a educação, a oportunidade de estudar em Portugal, de se formar em engenheiro mecânico, e de passar pelo serviço militar. De viver os amores oscilando entre intensidade e descompromisso, coisa típica dos jovens. Em diversos momentos de sua vida universitária o autor deixa óbvio como as diferenças sociais influenciam no acesso à educação. E ele próprio passando por alguns perrengues.


DIGNO DE UM ROTEIRO

https://www.pinterest.pt/luisreis1675/linha-cascais/

Ela era divertida e descontraída, simpática e espontânea. Encantadora. Linda e elegante. Estes atributos são de Gabriela, um dos amores do nosso autor. Neste caso o pêndulo dos seus sentimentos estava oscilando para o lado da intensidade. Arriscou, amou e terminou em uma aventura tempos depois.  Esse caso em si é digno de um roteiro de um longa-metragem.

Além do caso de amor com Gabriela, vivemos juntos com António Marcelo o repúdio ao salazarismo em movimentos estudantis. Aí ele vive um sistema educacional controlado, centrado no nacionalismo e no grande império colonial. António Marcelo, vindo de uma das colônias, sabia bem o que significava esse império. Pode viver a diferença entre a metrópole e as terras de onde o país lusitano extraia parte das suas riquezas. Ele, como diretor da papelaria da associação de estudantes, vive a primeira experiência de empresário. Talvez ali ele tivesse compreendido como a vida adulta funciona de fato.

            Pela experiência de António Marcelo concluímos que nem a ditadura de direita salazarista, e nem a ditadura de esquerda do MPLA de Angola são dignas de aplausos.


QUANTO DE TUAS LÁGRIMAS SÃO SAL

            E assim conhecemos a Guiné Bissau, Cabo Verde e os Açores. Sua experiência na marinha deu a ele a oportunidade de conhecer as tantas outras campinas, usada nesta resenha como descrição das diversas paisagens que ficaram na memória de António Marcelo capturadas pelas suas retinas.  

Voltando para Angola para seguir no pastoreio dos empreendimentos do seu pai, vemos neste momento o autor nos narrando de como era a vida nas fazendas de Angola, como se deu a sua atuação como homem de negócios em uma colônia que transpirava anseio de liberdade.  O trabalho exaustivo afetando a sua saúde. A imersão na bovinocultura, na plantação de girassol e os sustos de estar sempre a viajar na queda de um avião.

Não me movia apenas o dinheiro que nunca coloquei acima de valores mais pessoais. Sentia um enorme desejo de honrar e sedimentar as iniciativas do meu pai, valorizando-as.

Entre as (pre)ocupações de A. Marcelo estava a de manter as relações com suas irmãs e, evidente, da sua esposa e filhas.

Apesar de roçar com a ilegalidade dos diamantes, essa empresa não fazia parte da vida do empresário que administrava seus negócios com ênfase na prosperidade da sua família, das suas empresas e por consequência da sua terra.

No limiar da libertação de Angola, a vida de António Marcelo foi ficando intensa. A morte de pessoas conhecidas foi entrando na sua rotina como as mortes de uma pandemia.  Eram empregados, amigos e colaboradores. A morte que mais lhe chocou foi a de Andrew, exposta pelo autor  na primeira parte desta resenha.

Muito antes da saída do homem António Marcelo de Angola, muito de si já tinha ido. Boa parte de seus empregados, seus sócios e sua família.

A parte mais tensa desses anos é o Julgamento Popular no qual o protagonista entra como réu e reverte a situação com habilidade peculiar de um bom negociante. Mas depois o artifício teve consequências que influenciaria na sua saída definitiva de Angola.

Angolanos empresários acreditavam no início do processo que tinham muito a contribuir com uma Angola livre. Talvez os episódios narrados nesta autobiografia tivessem um final diferente se não fosse a guerra fria em curso.

Entrando no avião, dormi durante todo o voo. Descontado o tempo de desembarque e chegada ao Hotel no Rio, dormi 24 horas seguidas. Era o preço da exaustão total.

António Marcelo se libertara da Angola afogando-se em sangue. Agora era reconstruir, pastorear nossas situações no Brasil, país que lhe agradou desde a primeira visita. No Brasil sentiu-se seguro para recomeçar.

PASTOREIO EM PINDORAMA


Sua estabilidade no Brasil dependeu de viver outras aventuras em voos, idas à Portugal, reconfiguração da sua situação familiar. Era como ter que tosquiar as novas ovelhas para que a lã pudesse lhe proteger das intempéries da vida. Não sabemos se a bela Campinas, próxima de São Paulo, será a paragem definitiva deste eterno retirante.  Só sabemos que Campinas acolheu António Marcelo como se fosse um filho. E ele é grato pela acolhida de Campinas e do Brasil.

Te amo porque me acolheste com humildade e ternura

Te amo porque agora és meu!

 

Obrigado Brasil, por existires!

 

            Estamos no aguardo do segundo livro contando esta parte aqui no Brasil.


PARTE I

quinta-feira, 1 de abril de 2021

À SOMBRA DO IMBONDEIRO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA (PARTE I)

  DA SÉRIE: À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI

 


TÍTULO: À SOMBRA DO IMBONDEIRO

SUBTÍTULO: UMA HISTÓRIA DE AMOR, GUERRA E AVENTURA

AUTOR: ANTÓNIO MARCELO

EDITORA: E-COLOR

GÊNERO: BIOGRAFIA

 

LEITURAS À SOMBRA DE UM CEDRO

 


Nos últimos anos do século XX eu mergulhava cada vez mais fundo na literatura sem saber nadar. Afoguei-me várias vezes. Ainda não li profundamente Paulo Coelho. Melhor dizendo, eu ainda não li nada, praticamente nada desse escritor que foi sucesso de vendas e recebeu críticas por isso. Mas sempre me interessei por títulos de livros. Na margem do rio Pietra eu sentei e chorei é um título que caiu nas águas frias da minha mente e virou pedra como a lenda sobre o referido rio. Era uma constante em minha vida. A petrificação do título virou em mim a ideia de escrever resenhas sobre romances para no futuro publicá-las sob o título À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI. Cedro é o nome do córrego em que eu nasci e vivi a fase mágica da minha vida. A mesma magia que povoava a mente de uma criança exploradora das estradas poeirentas no extremo norte de Mutum é sentida por mim toda vez que estou diante de um livro. Ler é explorar vidas em páginas de livros.

Julguei ser necessária a introdução acima para justificar meu interesse pelo livro de António Marcelo que me trouxe à memória o título pensado há 25 anos para uma coleção de resenhas e me aninou a retomar a ideia. Talvez eu nunca venha publicar minhas resenhas em livro. Mas farei registros em neste blog. A aquisição pela troca de obras que proponho ocasionalmente aos meus colegas de Recanto das Letras me permitiu ter o livro em mãos.

 

 

ANTÓNIO MARCELO: UM HOMEM DE MUITAS CAMPINAS

 

(Divulgação do filme Forrest Gump - O Contador de História)

    António Marcelo nos deixa um relato de sua vida em três continentes. Nascido em 1939, pareceu-me um Forrest Gump lusófono no jeito de contar sua história, atravessando momentos ímpares de Portugal com o Salazarismo e de Angola no seu processo doloroso de libertação marcado por conflitos fraticidas.

    Julguei por bem dividir esta postagem em duas partes. A primeira que trago à luz hoje traz uma entrevista do nosso blog como o autor da obra. António Marcelo vive em campinas, interior de São Paulo. Suas respostas nos levarão para o espírito do seu livro, a lembrança de quem teve amores, guerras e aventuras tecendo um enredo real, desde a ida de seu pai para Angola até a sua estabilidade em paragens brasileiras.


— ENTREVISTA — 

Quando e por que você decidiu contar sua história?

Muita omissão e mentira sobre o êxodo de milhões de colonos brancos (cerca de 600.000)  para Portugal e outras partes do mundo obrigados a largarem todos os seus bens .Também milhares de negros trabalhando no norte de angola que fugiram a pé para suas terras no sul para não serem assassinados pelos rebeldes do Norte.

Meu testemunho pode não ser importante para o mundo, mas para mim foi um grito de libertação dos sentimentos de revolta que mantinha armazenados dentro de mim. Portugal não pode esquecer.

 

Sua autobiografia nos presenteia com textos de considerável teor literário quanto à forma com que você narra fatos da sua vida. Você tem outras obras publicadas?

Não tenho nada publicado. Apenas alguns versos e contos no Recanto das Letras.

 

Dos amores vividos, qual deles você destaca?

Sem dúvida o caso com Gabriela.

 

Das guerras vividas, bélicas ou não, qual mais te afetou?

Muitos empregados tanto os que vinham do interior como os de Luanda queriam fugir para Portugal. Os aviões estavam lotados por 6 meses e não havia como comprar passagens. Depois disso ninguém sabia o que o novo governo poderia fazer com os brancos. O governo português nada fazia para resolver o problema. As pessoas dormiam dentro do aeroporto ou até mesmo na rua na esperança de poderem embarcar. Hotéis e restaurantes lotados. Comida escasseando. Todo o mundo vendedor do que tinha, mas compradores não os havia. Todos em fuga.

Um amigo que trabalhava numa companhia aérea jogava com o overbooking para me conseguir passagens para esses funcionários e respectivas famílias. Essas pessoas eram um verdadeiro pesadelo para mim. Mais tarde vim a saber que os colegas que apoiavam a entrega do governo ao MPLA descobriram o que ele fazia .E isso aconteceu devido à ultima passagem que ele arrumou para mim. Ele teve que fugir para o Sul. Encontraram-no e mataram-no. Até hoje sofro com essa lembrança.

 

Das aventuras que você viveu, qual foi a mais marcante?

Quando recebo a noticia que uma das fazendas tinha sido ocupada por 30 guerrilheiros. Nessa fazenda trabalhavam 500 pessoas que corriam o risco de serem mortas. No livro conto como fui de avião para reunir com o general chefe das forças armadas na região, a reação tempestiva dele e depois as medidas que tomei para resolver o problema.

 

Você teve alguma dificuldade de se adaptar ao jeito brasileiro de ser?

Pelo contrário. Brasil se parece muito com Angola e o povo alegre e comunicativo sempre me havia atraído.

 

Após dez anos do livro publicado você se lembra de alguma parte da sua vida que deveria ter nos revelado?

O livro termina praticamente com a chegada ao Brasil. A minha vida neste País é digna de outro livro.

 

Atualmente você ainda tem alguma relação com Angola? Se sim, qual?

Absolutamente nenhuma. Uns 3 anos depois de chegar aqui veio um representante angolano me convidando para recuperar os meus bens produtivos em Angola. Pode imaginar qual foi a minha reação.


BLOG: Deixamos aqui nosso obrigado ao autor pela pequena entrevista, em breve postaremos a segunda parte comentando nossas sensações sobre o livro.


SEGUNDA PARTE DA RESENHA: PARTE II