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domingo, 5 de dezembro de 2021

SETE FACES DOS POEMAS em A HUMANIDADE PÓS PANDEMIA

SETE FACES DOS POEMAS em 

A HUMANIDADE PÓS PANDEMIA:

TODA LONGA HISTÓRIA EXIGE UM LONGO RECOMEÇO


COLETÂNEA DE POEMAS, CONTOS E CRÔNICAS
PROJETO APPARERE
EDITORA: PerSe
ANO: 2020

A Coletânea de poemas, contos e crônicas conta com 133 contos selecionados. Com a temática focada na realidade vindoura pós pandemia, sugestão de C. Jos Bravo, a 33ª obra do projeto Apparere tem a capa produzida por Marcelo Tau.

Considerando nosso objetivo de analisar poemas que apresentam ligações com as sete estrofes que compõe o Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade, procuramos nos textos em versos trechos que nos fazem lembrar desta pérola poética do “homem de Itabira”.

A maioria dos textos traz um tom otimista, ressaltando a descoberta de que a solidariedade se faz necessária, contrapondo ao tom pessimista e intimista de Drummond. Ainda assim há aquelas e aqueles que verão na nova humanidade velhas atitudes.

Como de praxe não analisei o poema de minha autoria, Reencontros, que também está na coletânea e que serviu de posfácio em Versos Infectantes: (Mó)mentos de uma pandemia.

O desafio será buscar nas reflexões dos colegas da coletânea conexões com a concisão de Drummond. Espero que eu possa contribuir com minhas singularidade na expansão dos objetivos de cada autor(a) mencionado(a).

 

FACE I

 

Nossa íntima natureza nos revela:

que a essência é selvagem,

de instintos primitivos.”

Alberto Dos Anjos Costa // Íntima Natureza.

O poeta nos revela que podemos ter instintos primitivos como uma predestinação, que ao mesmo somos também o cultivar do amor sublime. Esta é os dois lados da moeda que trazemos. Qual anjo ouvimos?


Me apresso em tatear o meu sentir,

esmoreço

pois, percebo que não guardo esperanças em meu coração.”

Illana Mascarenhas // 2021 d.C.

O gauche, como metáfora do estranho, assume aqui toda sua agonia a sentir-se esmorecendo diante do futuro nebuloso, visto nos olhares humanos. Impressões parecidas com a do poeta itabirano ao observar a cidade.

 

E com cada destroço, iremos reconstruindo um novo mundo.”

MARCELO CANTO // Quando Tudo Passar

As notícias desanimadoras faz com que não o poeta, mas o mundo seja o gauche da história. Cabe ao poeta ver a possibilidade de um mundo novo a partir dos destroços.

 

Sou gerúndio da casualidade

Bicho do mundo mudado

Andarilho sem estrada

Intrépido assustado

MARCUS DEMINCO // Bicho do Mundo Mudado

A relação é o cunho autobiográfico de um eu-lírico. Ser gauche na vida é como andar sem estrada, vivendo de casualidades.

 

Nasci pobre

Desprovido de ouro

Um fato de nascença

Uma longa história

NATÂNI DA SILVA // Berço?

Aqui o eu-lírico começa se apresentando o seu eu desde o nascimento como em Sete Faces. Qual a diferença entre nascer pobre e ouvir um anjo que vive nas sombras? Os dois fatos marcam uma longa história para ambos.

 



FACE II

 

Quando tudo isso acabar,

Vou fazer um jantar pra nós dois

Vou te esperar para jantar

E fazer amor depois

ALINE ÁGUIDA LIMA // Meu Bem Querer

A busca pelo amor presente a esperança de poder reencontrar o amado após a pandemia. É o desejo presente, o mesmo dos homens que correm atrás das mulheres.

 

A mulher em casa encara

O poço

Dos olhos do marido

Em água viva

JULIANA FALCÃO // Água

O ambiente nesta estrofe sai da rua e vem para dentro da casa. A mulher assume o papel de observadora do marido. A observação das buscas e o papel feminino nesta relação ganha neste poema um contexto mais atual que em Sete Faces.

 

Hoje, sei que não posso

Ter o teu abraço

Mas para mim, és a essência

Que deixastes laços

ROBERTO PAIXÃO // Poema Pandêmico

A busca aqui não é a corrida atrás das mulheres, mas espera pelo tempo pós pandêmico para reencontrá-la. Quem sabe para um jantar a dois, conectando com o poema acima de Aline Águida Lima e uma música do Kid Abelha, Por que não eu?

 

 

FACE III

 

Seremos quem sabe mais digitais,

Nem por isso mais presentes.”

CAMILA DE ARAUJO CABRAL // Reflexões Sobre O “Novo Mundo”

As reflexões sobre o novo mundo de Camila de Araujo Cabral vai de encontro ao sentimento expressado por Drummond quando se sente desconfortável com tantas pessoas e sua solidão. O alerta da poeta aqui está ligado ao sentimento de Carlos na sua condição de gauche.

 

Estamos conectados, mas ainda solitários.

Somos modernos e mal-humorados.”

EDUARDO CALDEIRA // E Se Pudéssemos Voltar No Tempo?

As pernas no bonde pode aqui ser substituídas pelos rostos na tela em vídeos-conferências tão usuais em tempos de home office. Mas a solidão é a mesma, insubstituível.

 

Cenário difícil, Ambiente poluído, Planeta lotado,

Sociedade desigual.

FÁBIO SANTOS // Antropo Cena

A percepção de Drummond quando pergunta a Deus porque tantas pernas é uma constatação de que o planeta (cidade) está lotado, gente demais que deixa o poeta desconfortável.

 

A engrenagem não pensa nem tem escrúpulos

MAURO EUSTAQUIO PEIXOTO // Literat Alucina

A observação em Sete Faces é de uma engrenagem urbana funcionando. Aqui temos a adjetivação desta engrenagem dando a ela comportamentos humanos, uma vez que são os poderosos que criam tal maquinaria do sistema.

 

Pandemia, anemia da saúde, anemia social!

Social sem sociedade?

Sociedade dispersa!

MICAEL ARAÚJO ANDRADE // Anemia Social

O poeta aqui analisa a sociedade na qual Drummond estava observando em seu poema. É uma dispersão sistêmica que nos leva à conclusão de que o poeta observa separações na multidão.

 

Nunca se olhou tanto para ruas vazias,

Nunca se viu tanto luto na rua.

VERONICA STIVANIM // Ressignificação

Este cenário é o que Drummond teria se estivesse hoje conosco, passando pela singularidade de uma pandemia. Ruas vazias em vez de tantas pernas.

 

 

FACE IV

 

Um Planeta diferente

Bem mais resiliente

ALESSANDRA DE AZEVEDO COSTA CALIXTO // Pós Pandemia

Resiliência é a conexão entre este poema e Drummond com seu homem atrás do bigode, sério. A vida adulta, sem extravagância. Sem poluir e poluir-se e mais cuidadoso com a saúde. Para a poeta nos tornaremos mais adultos a partir da pandemia. Tomara que ela tenha razão.

 

Olho e vejo...

ELIZABETE BASTOS DA SILVA // Olhar – Esperança!

O homem atrás do bigode termina a estrofe também sendo o homem atrás dos óculos que olha a cidade e agora vê com seriedade a cidade assim como a poeta olha e vê o medo, a insegurança, a doença, o caos, a desigualdade. E nas demais estrofes ela vê muito mais. Mas há esperança, talvez com a maturidade do poema anterior poderemos ter esperança.

 

Resiliente é muito mais que

Excelente?!

MÁRCIO ANDRÉ SILVA GARCIA // A Quarentena Ensinou A Amar

É como se o poeta aqui dissesse para o poeta do Poema das Sete Faces que era preciso amar. Ninguém deve ser esquecido. Há também um diálogo com o primeiro poema desta face em que o nosso aprendizado sobre o amor vai fazer o Planeta ser diferente.

 

 


FACE V

 

É isso, só pode ser visto por aqueles que enxergam um novo Éden.

ADRIANO BESEN // Manifesto Da Nova Era

A conexão com Drummond em sua quinta estrofe se dá pela linguagem bíblica. Mas há uma contraposição. Drummond evoca a imagem do Calvário e o poeta aqui evoca um novo Éden a ser visto somente por aqueles que têm fé.

 

A vida não é só um sopro

GIOVANA FERNANDES LEITE // Memórias Futuras

A poeta quer que nós, mesmo nos sentindo abandonados, podemos ser mais, procurar mais e lembrar que viemos do sopro, nós somos mais que sopros, mais que corpos.

 

PÓS PANDEMIA, QUEM SOU?

Quem se permitiu mudou,

Tornou-se um ser humano melhor,

MALU DIONÍSIA // Pós Pandemia, Quem Somos?

Somo fracos, abandonados? Não somos deuses. Mas como humanos podemos mudar, tornar-se melhor. A pandemia nos proporcionou um momento de lamentos. A pergunta quem somos certamente foi feita por todos nós. Uns buscaram crescimento, outros se entregaram.

 

mais bela que a Babilônia!

OTÁVIO BERNARDES // Somos O Farol Do Mundo!!

A Babilônia do cativeiro é a Babilônia que faz lembrar das verdes pastagens. Aqui temos mais que verdes pastagens, temos a Amazônia. Não é preciso ir para Pasárgada. É preciso ficar em lutar pelo nosso país. Esta é a mensagem do poema a partir de uma referência a um lugar em que o povo de Deus foi cativo.

 

Hoje oro pelo futuro que espero

Acreditando que a piedade divina

Ajude-me da vida que quero

SALVADOR ADDAS ZANATA // Gente É Bom

O poeta aqui é um eu-lírico religioso. Mas a piedade de Deus permite que Ele seja louvado e também questionado quando seu filho se sinta uma ovelha perdida.

 

 

FACE VI

 

Sobre o que falar?

Sobre essa situação claustrofóbica?

Sobre o que um vírus pode causar na humanidade?

Sobre soluções de chegada para ver quem pode lucrar?

FABERSON MAMEDE DA SILVA // A Clareza Da Minha Visão. Meu Olhar Dessa Situação.

O poeta aqui questiona o vasto mundo de Drummond. Agora a vastidão está passando por uma pandemia. Mas a sede de lucro visto na reflexão de Drummond em que a rima não seria uma solução para suas questões existências, aqui a dúvida é que vai lucrar no final? Ao contrário da poesia, a pandemia foi vista como possibilidade de lucro como vimos na CPI.

 

Mas, a visão de poeta

que bebe da vida

reverência as disparidades,

as lutas e as guerras

enraizadas no universo de cada ser.

JOELMA COUTO // Semente

A metalinguagem da sexta estrofe aparece aqui ao mencionar a visão do poeta que enxerga disparidades. Drummond é um ébrio quando se falar em beber da vida. Ele contrapõe o fazer poético com o trabalhar para a subsistência. O mundo pós pandemia segue vendo rendimentos financeiros acima de rendimentos culturais com a arte, bem mencionado no poema anterior.

 

Pois preferira pegar seu livro de poesia

E com ele começar as leituras do dia...

JULIANA PEDROSO BRUNS // A Cura – A Luz

Ana Julia, personagem do poema prefere a poesia. Mas naquele dia algo diferente estava acontecendo. Na vida de Carlos, o gauche, todo dia ele tinha que buscar a solução que não estava na rima (poesia). O vasto coração ainda que mais vasto que o mundo, precisa compreender a sociedade e o que há de relevante para não arriscar a sobrevivência. Ana Julia e Carlos estão no mesmo dilema.

 

 

FACE VII

 

O tempo veio, para dar tempo da gente se sentir,

E se revisitar,

Se reencontrar.”

GABRIELLE STUQUE SAMPAIO GROBLACKNER // Um Novo Mundo

Para Drummond, a noite é tempo de refletir. Este tempo também existe para a poeta, tempos de sentir, revisitar, reencontrar. A pós pandemia é a noite de Drummond. Ao contrário, para o poeta, a noite é que nos liberta, e não o dia que nos aprisiona na busca por subsistência.

 

Noites tristes de confinamento

Muito silêncio...

Muito pensamentos...

GILSON CLEMENTE // Covarde Covid

Na tristeza do confinamento é que podemos viajar nos pensamentos e pescar deles versos primorosos como tantos que fazem parte desta coletânea. Drummond sabe aproveitar a noite depois das observações de uma cidade com tanta gente, com tantos desejos, de saber que a rima não é a solução. Há uma realidade que o poeta aqui aponta e não pode ser menosprezada. A perda de amigos e a vontade que a vida se refaça. A poesia nos permite exprimir nossas noites tristes de diversas maneira. O silêncio tem sido gritante.

 

Será tempo de guerra, ou tempo de paz?

Tempo de crescimento, ou tempo de incerteza?

MARCO DI SILVANNI // Doce Delírio

Seria a noite de Drummond um doce delírio de deixar a gente comovido como o diabo? Partindo da ideia que a pós pandemia seria a noite de refletir e ver o mundo com mais clareza. Que tempos pandêmicos não se diferente de tempos cativos na normalidade, temos as questões levantadas pelo poeta daqui. Troquemos a palavra tempo por noite de Drummond. Sim, será tempo/noite de paz, de crescimento e, sobretudo, de poesia.



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sábado, 17 de abril de 2021

SETE FACES DOS POEMAS: CHÁ DAS CINCO (COLETÂNEA)

Através da página de ALKAS (Alcibíades Castelo Branco) no Recanto das Letras chegou a minhas mãos a coletânea Chá das cinco. Deparei com vários poetas conhecidos de leituras e comentários no referido site.

Na minha aprendizagem sobre resenhas ousei fazer a leitura destas pérolas que compõem o colar precioso que esta coletânea, organizada pelo Canal Comentando a Poesia e idealizada por Maurício de Oliveira, buscando conexão com o Poema de sete faces de Carlos Drummond de Andrade.

E sob esta ótica apresento mais uma postagem da série SETE FACES DOS POEMAS em....

Pelo fato dos poemas explorarem em sua maioria o romantismo, aprofundando em sentimentos e exaltando a pessoa amada, acabei encontrando relações com o modernismo drummondiano através de termos como sombras e luas, da busca por felicidade ou fazendo contraponto com o homem sério, simples e forte atrás dos óculos e do bigode.

 

FACE I

Sinto-me feliz como quem pede e alcança
Mas, algo estranho nega essa tal verdade
Tendo-te longe de mim como cruel castigo!

MARIA AUGUSTA S CALIARI em "SINTO-TE NU COMIGO DELICIOSO A FAZER ARTE!


À sombra da amendoeira, vestida de primavera
Cabelos soltos ao vento, sorriso largo no rosto
Rosas e jasmins nas mãos, estarei à tua espera.

APARECIDA RAMOS em DEIXA LÁ FORA OS RUÍDOS


Meu anjo possui asas,
Tem a índole dos céus,
Me segura pelas mãos,
Tira-me da escuridão;

MAURÍCIO DE OLIVEIRA em MULHER VIRTUOSA

O estranho, o diferente, que faz de Carlos um gauche aparece no poema de Sinto-te nu comigo delicioso a fazer arte!  de Maria Augusta S Caliari em que algo nega a tal verdade infringindo um castigo.

A sombra, onde vive o anjo torto de Drummond seve de local de espera para Aparecida Ramos em Deixa lá fora os ruídos. É o contrapondo em que a sombra da amoreira faz com o habitat do anjo torto que entorta destinos.

Já Maurício de Oliveira descreve seu anjo em Mulher Virtuosa. Um anjo que só não vive nas sombras, mas arranca o eu-poético da escuridão. É um anjo certo, reto, com índole dos céus.

FACE II

Ela não ia
Ele não vinha
No coração só tinha
A espera que doía!

SANDRA LAURITA em IMPASSES.


Madrugada fria e amedrontadora
Corro velozmente no bosque
Estou perdida entre as árvores
Ouço o piado da coruja agourenta
Meu coração sangra e lamenta
Tenho que encontrar meu amor

ANNA LUCIA GADELLHA em AFLIÇÃO

Cada vez que teus olhos
Procuram os meus
E já não há mais chão

SANDRA LAURITA em ONDA DE FASCÍNIO

A busca d’os homens que correm atrás das mulheres na segunda estrofe de Drummond é retratada aqui no impasse que tantas vezes ocorre nos versos de Sandra Laurita no seu belo poema Impasses. Uma procura transvestida de espera torna-se doída.

Já em Anna Lucia Gadelha o eu-lírico é como os homens, corre na aflição de encontrar a sua cara-metade, ainda que tenha que se aventurar no bosque, revelando um ambiente ultrarromântico. A aflição aqui descrita tem a intensidade da aflição relatada na paisagem urbana de Poema de sete faces.

Sandra Laurita volta em Onda de fascínio a falar desta busca que ocorre com o olhar que procura pelo outro. Já não há mais chão, é o desejo que interfere no ambiente como interfere na cor do céu.

 

FACE III

Que força oculta
transmitiu esse pensamento
amargo...
Que mecanismo detonou
essa brusca melancolia...
Que fenômeno criou
em mim essa dúvida,
que lembrança inventou
essa lágrima...!?

ALKAS em DE REPENTE ASSIM, TRISTE...

Eles, no chão.
Não é nenhum piquenique.
O lugar nem mesmo é chique!
Monturo...
Imundície e umidade;
miséria e fome; calamidade.

SEMPRE FELIZ em SÓ ESTÁ FALTANDO VOCÊ


Ela atravessou
a rua,
depois me atravessou...

DIVINO ÃNGELO ROLA em ISCA POÉTICA

 

A Vida passa e eu aqui tão só
Apesar de viver na multidão

NORMA A S MORAES em INSTROPECÇÃO

Assim como a primeira, a terceira estrofe de Poema de sete faces apresenta várias leituras. Em De repente assim, triste... ALKAS  traz a leitura do questionamento diante da perplexidade. A indagação é a espinha dorsal em Alkas e uma tônica de Drummond.

Já em Sempre feliz na parte inicial do poema Só está faltando você vai pelo caminho da observação. Assim como em Drummond, o mineiro no Rio de Janeiro, o poeta, também mineiro, observa o ambiente urbano com suas misérias.

Divino Ângelo Rola em uma de suas iscas poéticas sugere uma mulher caminhando pela rua no lugar do bonde, convergindo com Drummond na urbanidade.

As tantas pernas é uma metonímia que reflete a multidão. É nesta multidão que em Introspecção Norma Aparecida S. Moraes nos apresenta o sentimento de solidão enquanto a vida passa, um link perfeito com a Face IV, sintetizando a visão do poeta de olhar férreo.


FACE IV

Um jardim estéril e seco
Assim, assemelhava-se meu coração
Vivendo na mais triste solidão

LILIAN VARGAS em EM FLOR

 

Empresta-me um pouquinho do seu calor
só para aquecer minha alma dilacerada pela solidão ao frio,
buscado nos árticos celestiais de uma pandemia,
de um amor impossível de se viver.

TCINTRA em FIM DOS TEMPOS

Assim como lá, no poema que serve de ótica nesta série de descrição das obras poéticas, aqui em Em flor Lilian Vargas fala do eu-poético que transpira solidão a ponto de comparar seu interior com um jardim estéril e seco. Já TCintra contextualiza esta mesma solidão em Fim dos tempos com este momento de ares apocalípticos em meio a uma pandemia. Aparece em TCintras a mesma resignação do homem de óculos e bigode da quarta face de lá.

 


FACE V

Tempo, és senhor do destino
Faça um pacto comigo
Leva minha prece a Jesus Menino

ANNA LÚCIA GADELHA em TEMPO, TEMPO

 

Nesse paraíso de Adão e Eva
rajadas do vento tão ilusórias

SANCARDOSO em  UM TEMPO...

Explícita ou implicitamente, a religiosidade aparece na maioria dos poemas. No entanto a inquietude de uma alma religiosa encontrei mais presente Tempo, tempo de Anna Lúcia Gadelha e Um tempo de SanCardoso. Drummond parece fortalecer a Aliança com o sagrado quando repete as frases de Jesus na sua agonia. Aqui Anna Lúcia Gadellha quer um pacto com o tempo para que ele seja mensageiro da sua prece. Já San Cardoso evoca a imagem do paraíso para dizer que este mesmo paraíso agora sofre com a ilusão, ou com a atualização da mesma ilusão que Adão e Eva foram submetidos no Éden. A coincidência nos títulos dos dois poemas nos traz à lembrança o livro de exegese O tempo que se chama hoje, de Wolfgang Gruen. 

 

FACE VI

ela produz
sombra e frutos,
eu pratico,
amor e poesias.

DIVINO ÂNGELO ROLA em ISCA POÉTICA

 

No coração tinha fantasia
Na alma havia bondade
Ele era a própria poesia
Em vida não foi celebridade

ANNA LUCIA GADELHA em O POETA

O poeta de vasto coração aparece em mais uma Isca poética de Divino Ângelo Rola contrapondo seu fazer poético com o ela produz. Em O poeta de Anna Lúcia Gadelha temos a mesma vastidão na alma bondosa que faz do poeta a sua própria poesia e do não  reconhecimento que temos nas entrelinhas em rimas não é solução para a sobrevivência.

 

FACE VII

Em teu riso
vejo o colosso da lua.
Minha praia é sua.

DIVINO ÂNGELO ROLA em RIMA/RISO


Lua nova prateada
Colorindo a madrugada
Na paisagem emoldurada

Perto de ti só alegria
Esperando a poesia
Que chega ao fim do dia

SANDRA LAURITA em LUA DENGOSA

Sem o conhaque, a lua por si inspira bons -. É o que vemos em Rima/

Riso de Divino Ângelo Rola e Lua Dengosa de Sandra Laurita. É na comoção da proximidade com a lua que o poeta chega ao fim do seu dia de solidão no meio da multidão, de questionamento com sua religiosidade, da sua desilusão com o ofício de escritor, se encanta e se entrega: Minha praia é sua. Vendo a madrugada colorida para enfrentar o Éden carcomido e urbano do dia seguinte.

 

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CHÁ DAS CINCO


SETE FACES DOS POEMAS DE

MÁRCIO MUNIZ

ANTONIO JADEL




 

 

sábado, 3 de abril de 2021

SETE FACES DOS POEMAS DE ANTONIO JADEL em DITO & FEITO: POR ENTRE SONHOS E POESIAS

O livro de poemas de Antonio Jadel  chegou até mim através do escambo que sempre busco encontrando companheiros de loucuras literárias no Recanto das Letras.

Esta é a segunda postagem da série Sete Faces dos Poemas, como sabido, em referência ao Poema de Sete Faces do nosso mestre Carlos Drummond de Andrade.

O livro é repleto de poemas bem cadenciados e traz uma visão singular e moderna diante do amor, da natureza, dos sonhos, das necessidades fisiológicas, do tempo e das dúvidas. Como diz em seu primeiro poema, é Deus que escreve em linhas tortas. 

 



FACE I

Hoje eu quero ter a vontade única de ser uma “Tarde”,

apenas,

e passar o dia sem olhar no relógio,

 

No poema Eu tarde, o autor quer fugir da sua agenda, não olhar o relógio. Ele retoma este tema em Relógio cuco.

 

Enquanto isso, ao relento, criança relembro:

Na sala da minha tia,

Às 12 horas da meia noite, piava em arte a opção...

 

Aparece aqui e ali, em sua poesia, um eu-lírico incomodado com o tempo.

Tempo, sem tempo por perda de tempo n’agenda

 


FACE II

De cara o poeta se refere ao amor:

Amor, decidido num tribunal ‘multiportas’...

 

A palavra amor aparece pouco em sua poesia, mas este sentimento está intrínseco em vários poemas quando o poema mergulha em sentimentos como a saudade.

Há saudade,

sempre onde a saudade se-lhe cabe.

 

Neste mesmo poema, Saudade, o poema lança mão do concretismo e nos faz ver uma saudade escoando como areia de uma ampulheta e formando novamente saudade no fundo. Esse movimento da saudade que nos leva a saudar um certo momento.




 

FACE III

Segui na contramão do recomendado

perfilhando meus passos – sentido inverso

ao risco do que seria sábio.

 

O poema Contramão é como se fosse o eu-lírico de Drummond vivendo o jeito gauche de ser. Mas o poeta segue firme na contramão. Não se sente perdido e nem encontrado. Ainda que não saiba para onde ir. Tudo é contramão, afirma. Pois ele sabe fazer o contorno mesmo na estrada sem retorno. Talvez o poeta queira aí nos ensinar a arte de viver.

 

FACE IV

Sou eu dentro de mim.

Não estabeleço conexão.

Em sua série de Poema subsequente-subliminar espalhada ao longo da obra, em um deles o poema se revela fechado ao mundo. O eu-lírico se acha ajustado para si e desajustado para o mundo. Um ser não viável, já que o viável é imperfeito. Um eu que se acomoda dentro de sim. 

Vento, assoprado por dentro


 


FACE V

escute-me, ó Deus

inda que nada eu te peça

em preces,

 

Enquanto Drummond se sente abandonado por Deus, o poeta aqui roga a Deus que lhe escute, ainda que ele não peça nada. Somos teístas porque precisamos de algo anterior, exterior e superior a nós para justificar nossas finitudes.  Há uso no mesmo poema Escuta-me da metáfora o joio e o trigo, segundo o poeta, espalhados no mesmo lugar. Refere-se à guerra, em bélica plantação. Ele indiretamente pede paz.

 

FACE VI

—sem nenhum ditado—

—regras sem regras—

— rebelde ao mandado–

— oponente ao Estado—

— discorde de tudo—

 

Em Filosofia o poeta, conhecedor do direito por formação, entende que diante de gente sem eira nem beira, é preciso ser insurgente. O seu credo é assim, o seu amém é sincero. É como se o poeta estivesse dizendo  implicitamente que muito mais vasto que o mundo, é o seu coração.

FACE VII

A carapuça é vestida de negro véu

belo(a)

que s’esconde na espreita da sombra

à meia-noite

de um dia que passou florido & risonho.

 

Em Isolo-me, como um poema despedida do leitor, último na obra, o poeta depara com a noite. Sim, todos nós deparamos com a noite quando se devia calar, mas a “lua deixa a gente comovido como o diabo”. O poeta luta contra seus desejos. Lembra-se do dia florido e risonho e chora por agora mergulhar nos desvarios da alma.


DA MESMA SÉRIE: MÁRCIO MUNIZ


quarta-feira, 22 de julho de 2020

SETE FACES DOS POEMAS DE MÁRCIO MUNIZ em POEMAS E OUTROS TANTOS SENTIMENTOS


Começo essa nova série de postagens sobre poemas no intuito de compartilhar aos que gostam de trilhar entre os (uni)versos de  obras solos ou antologias poéticas. A série Pentalogias Poéticas fica para os poemas dos meus conterrâneos, mesmo os que não estão em livros, poemas de poetas que nasceram aqui ou daqueles que atualmente residem. Abrange também aqueles que estão em outras paragens. Ainda tem a Pentalogia das Minhas Pétalas Semanais em que compartilho versos da minha lavra.
         Quem estreia a nova empreitada do nosso blog Escritos do Cláudio é Márcio Muniz. Não o conheço pessoalmente, mas tenho contato com parte do seu trabalho através da editora Illuminare onde estivemos juntos em algumas antologias como Contos de um natal sem luz - IV (2018) e Microcontos: Pequenas histórias Grandes talentos (2019). Vamos então às sete faces de sua obra Poemas e outros tantos sentimentos que baixei recentemente na Amazon.
        



FACE I

A vida, este milagre
Feito de alma e de sangue
E cuja finita brevidade
Nos impele a seguir adiante

Do poema Poesias tristes

O poeta fala do tema da rapidez com que a vida a passa por nós, tema recorrente em outros versos de outros poemas da mesma obra como A fila e A fila anda... Constantemente Márcio Muniz fala sobre o tempo, um de seus poemas tem especificamente esse título e começa com a onomatopeia do relógio, essa máquina que discretamente aponta para o nosso peito, com seu tic-tac. 




FACE II

Gosto de letras e poesias.
Canções que falem alto
Aos corações.
Gosto do sentimento
Posto no papel.

Sobre gostar de poesia

São poucos os poetas que resistem a poetizar seu gosto pela poesia. Escrevemos poemas por que gostamos. Em nosso abstrair-se da realidade para mergulhar no mundo dos (uni)versos. O sentimento no papel, ou na tela dos nossos computadores e outros acessos. Aparecem também nesse poema as famosas borboletas no estômago. O poeta aqui acaba nos apresentando as figuras de linguagem, ferramentas com as quais colocamos no papel ou no mundo dos bytes nossos tantos outros sentimentos. O autor faz isso tão bem que somos "empurrados" a seguir desbravando os seus versos.



FACE III

Como é bom guardar na memória,
A lembrança do último sorriso
E do beijo incerto e tímido
Que apenas sonhei em dar.

Despedidas e desventuras

Não podia faltar no poema de Márcio Muniz o amor platônico. O beijo pensado em não dado, do abraço imaginado e não sentido. Guardar na memória é fazer o histórico dos nossos sentimentos. Seria o poeta Márcio Muniz, pelo que leio dele em outros meios, o poeta do amor.




FACE IV

Vou em frente
Em um movimento letárgico
Quase “Zumbizalizado”.

Continuar...

Todo ser humano encontra suas indecisões diante das incertezas da vida, seguir em frente, ainda que cambaleando, ainda que pisando em ovos, como diz um velho ditado, o poeta verseja sobre essa necessidade de estar sempre caminhando, mesmo quando caminhos não há, os pés na grama os inventarão, dizia Ferreira Gullar.




FACE V

Não quero empunhar armas,
Trincar os dentes
Ou fazer cara feia.

Vou me jogar


Em um mundo desmoronando o poeta não quer lutar com as armas que geralmente o homem se lança para vencer na guerra diária. O poeta prefere as armas da sensibilização, da vida em harmonia. O poeta necessita sorrir por dentro e por fora, o poeta não quer se dá pela metade, mas por inteiro. Nessa face dos poemas de Márcio Muniz nos questionamos quais armas usamos no nosso dia a dia.






FACE VI
Quem sabe se eu tivesse dito,
Palavras certas e com mais sentido
E não somente tantas declarações
Embebidas de minhas emoções.

Pra te reencontrar

Reencontrar com alguém é reencontrar consigo mesmo. A revisão e a confissão dos seus equívocos faz o poeta se questionar onde pesou mais seus sentimentos. Chega a considerar que mais ação e mais razão poderia ter mudado a história de um relacionamento. Nunca se sabe. O poeta em seu último poema, A última poesia, se rende ao pragmatismo. Sabemos que não, ele está nesse momento na batalha para compartilhar conosco mais um bom livro de poema.




FACE VII

No silêncio de cada um,
Reside uma poesia.


Amo em silêncio

O poeta relembra sobre o papel do silêncio, que varre as palavras deixando delas apenas a essência. Ouvir a voz que vem de dentro, é que o poeta faz quando se entrega ao deleite das abstrações chegando a rabiscar papéis e a surrar teclados em busca de por para fora de si suas palavras e sua visão de mundo. Marcio Muniz sabe o quanto o silêncio é necessário.


PRÓXIMA POSTAGEM DA SÉRIE: ANTONIO JADEL