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terça-feira, 9 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 03


No trabalho ou em casa, Marli contava às horas que passavam lentamente. Sua colega de trabalho já começava a comentar como Marli ultimamente andava desligada. Já não caprichava mais na faxina como antes. Marli desejava que o tempo triplicasse a velocidade, que o sol não demorasse muito tempo contemplando o mundo de sempre. Caminhando pelas ruas, eram frequentes os tropeços em pedras e em objetos de forma atabalhoadamente pela calçada em pelas ruas sem pavimentação. Trafegava pela cidade sem a costumeira preocupação e sem o precavido costume de olhar a para os lados. Parecia que naqueles dias ela estava vivendo no mundo da lua ou em qualquer outro astro do universo, menos no planeta Terra.
Assistindo as novelas, vibrava intensamente com as cenas de amor. Imaginava ela e seu primo vivendo as mesmas cenas que os atores. Contos de fada povoavam a cabeça da pequenita jovem suburbana de uma cidade do interior. Diríamos até que o amor mora em Mutum e encarnou-se em Marli.
Chegou o fim de semana, finalmente, que determinaria a metade do tempo para Marli encontrar o seu Romeu. Foi comum no começo, sem novidade. Marli não queria novidade. Mas quando planejamos e esquematizamos nossos dias, marginalizamos as novidades, o imprevisto.
Único dia de folga da faxineira. Sábado passado foi concessão dos patrões. Marli pela manhã ajudou em casa. Fez a faxina, descansou e cortou os legumes e ajudou na copa após o almoço.
A sua tarde foi ocupada ouvindo música. Ouvia de Zezé Di Camargo e Luciano a Tracy Chapman. Sonhou acordada com o primo. Beijou-o, abraçou-o, excitou-se. Amou-o sozinha na sua cama. Pensou: “O que seria dos apaixonados se não fosse a imaginação.” Suspirou fundo escutando os beijos que sua irmã estava saboreando com seu namorado na sala.
Sentiu sua bexiga cheia. Foi ao banheiro. Sentada no vaso sanitário urinou relaxadamente. Em outras ocasiões detestaria ter que urinar. Julgava as mulheres inferiores por ter que fazer essa necessidade fisiológica sentada ou agachada. Desta vez não se inferiorizou, não ridicularizou as limitações anatômicas das fêmeas. Começava a gostar de verdade de ser mulher. Demorou a perceber que sua bexiga já havia se esvaziado. Não sentia vontade de levantar. Resolveu ficar mais um pouco ai com as pernas abertas como se estivesse testando a elasticidade da bermuda e da calcinha arreadas até o joelho.
Sentiu o vento quente roçar os seus lábios vulvares. Achou interessante uma gota de urina cintilando na ponta de um dos pelos próximos à rubra caverna de sonhos e de vida. Sua mão direita começou a tatear a suavidade branca das partes internas de suas coxas. Começou a sentir uma excitação tal qual a provocada por aqueles beijos dentro da orelha há nove dias. Não esboçou nenhuma forma de resistência quando um dos dedos começou a explorar uma glândula pequena acima da sua uretra. Uma força estranha e gostosa subia pelo seu corpo liberando uma descarga revigorante por toda parte. Masturbou pela primeira vez.
Não adianta marginalizar as novidades. O excluído sempre se rebela. E ali, depois daquela profunda excitação que deliciosamente queimava Marli por dentro, fazendo daquele ordinário banheiro um paraíso e da pobre mocinha suburbana, uma Eva sem Adão. Marli resolveu tomar uma duchada de água fria para aliviar o calor que a consumia.
Foi até ao quarto, pegou a toalha listrada de cores fortes e sérias. Voltou rápido. Despiu-se. Recebeu um jato de água fria no rosto, molhou todo o corpo, começou a ensaboar apertando o Rexona contra a pele branca. Apertou com mais força na região pubiana entumecendo os pelos com escuma abolhada. O shampoo na cabeça desta vez também foi aplicado sem pressa. Tinha tempo e não tinha o que fazer depois do banho.
Não foi a missa. O paraíso já estava ganho. Pensou assim e logo se arrependeu. Veio a dúvida: e agora? Será que eu preciso me confessar por ter me masturbado? Será que é pecado o que eu fiz?
Foi para o quarto levando consigo a dúvida. Colocou uma roupa simples: bermuda e camiseta. Sentou no banquinho de frente a rua tentando afastar a dúvida persistente enquanto sorria para aqueles que passavam por ali em direção ao centro da cidade, seja para a igreja, seja para o bar.
Dormiu cedo para no dia seguinte pegar firme no batente. Já que a semana que passou foi consideravelmente exaustiva.
Acordou mais disposta e foi para o trabalho. Sua colega, que trabalhava na cozinha, notou logo cedo uma Marli diferente da semana anterior. Não se parecia mais com um astronauta no mundo da lua, mas uma guerrilheira com os pés no chão. Fez o trabalho mais atenciosamente e mereceu até menção favorável por parte da patroa.
Quem também notou a mudança foi a sua irmã.
_Que bicho tá pegando, maninha? Perguntou.
_Nada Maria. Nada.
_Uh! Pensa que não tô te manjando há tempos?
_Manjando o quê?
_O que só não percebe quem não quer ou não entende de sentimentos.
_O problema é meu. Ralhou.
_Se é algum problema, por que não me conta? Quem sabe eu posso ajudar?
_Não, não tem problema nenhum.
_Você mesmo acabou de dizer que o problema é seu. Então tem problema sim.
_Ah! Maria. É só maneira de falar.
_Sei. Tô sabendo.
_...
_Ah! Marli. Sabia que tem um cara nessa rua afinzão de você?
Marli começou a se interessar pelo papo da irmã. Mudou a expressão facial e perguntou curiosa:
_Quem?
_Curiosidade, heim maninha. O Carlinhos. Quem me falou foi Carol, a irmã dele.
Marli forçou um riso que saiu pelo canto da boca.
_Por que você não fica com ele? Perguntou a irmã de dezessete anos.
_Ah! Eu já tenho alguém.
_Quem? Vai, conta-me. Interessou a primogênita.
_É o Zé Roberto. Fiquei com ele no casamento de Marina.
_O Zé Roberto da tia Joana?
_Sim. Ele mesmo.
_E aí? Conta-me como foi.
_Ah! Foi bom. Eu gostei. Afirmou  Marli que pela primeira vez conversava sobre esse assunto com a irmã.
_Sabia que eu já fiquei com o Quizim da tia Aparecida? Começou a irmã mais vivida a abrir a sua vida para aquela que considerava uma criança até dia atrás. Agora sabia que a mana mais nova participava do mesmo mundo que ela.
O bate papo que começou por acaso, por mera curiosidade a partir da observação de Maria, teve que ser encerrado de supetão com a aproximação de dona Leontina, mãe das moças.
Sem ficar contando as horas, Marli nem percebeu que a semana já estava quase acabando. O tempo passou rápido. Quando assustou, já era sábado. Em alguns momentos tinha esquecido que era nesse final de semana que Zé Roberto viria. Uma vez lembrado, a ansiedade voltou com menos intensidade desta vez.
Finalmente chegou domingo. Marli esperava que Zé Roberto chegasse a tarde. A tarde chegou e Zé Roberto não. Achou que ele chegaria a noite. Certamente iria direto para a rua. Viria só para ficar com ela e nada mais. Havia combinado com Celina. Aquela sua amiga de irem juntas. Aprontou-se, entusiasmou-se, sorriu diante do espelho para si mesma. Chegou a se elogiar. Celina a esperava na sala.
Celina não estava paquerando ninguém naqueles dias. Iria ficar com a amiga até ela encontrar o rapaz. Queria conhece-lo. Se ele estivesse com algum amigo lá da roça e se fosse lhe apresentado, quem sabe poderia rolar alguma coisa. Preferiu deixar por conta do acaso. Ela havia paquerado várias vezes. Achava os rapazes todos iguais. Todos com os mesmos papos banais. Diziam que estavam afim, chamavam para um lugar mais apropriado, beijavam e abraçavam sem nenhum estilo inovador. Na primeira oportunidade tentavam passar as mãos nos seios. Algumas vezes ela até deixava, outras não. Dependia do momento, do lugar, do seu entusiasmo.
Marli, chegando com Celina na pracinha, encontrou algumas conhecidas. Havia três finais de semana que não vinha a pracinha. Uma delas chegou a perguntar se Marli tinha ficado doente. Outra, se a mãe tinha lhe proibido sair. Conversou com uma, com outra e o tempo foi passando. Começou a perder a esperança. Celina preferiu não comentar nada.
Passou muito tempo. Andaram por toda praça. Não encontraram e nem foram encontradas pelo rapaz. Não. Ele não veio. Perdeu de vez a esperança depois de circular três vezes a pracinha inteira. Deve ter acontecido alguma coisa.
Voltaram para casa as duas mocinhas e despediram-se. Foi então que Celina tocou no assunto. Percebeu que Marli não estava tão angustiada como se esperava. Disse que lamentava muito e tentou consolar a amiga.
_Essas coisas acontecem. Mais cedo ou mais tarde você vai ficar sabendo por que ele não veio.
Trocaram tchaus e foram dormir.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO – CAPÍTULO 01




As lágrimas... Tristes lágrimas que lhe faziam arder os olhos. Lindos olhos azuis como o céu. Agora como um céu nublado.
O seu rosto ainda doía só de se lembrar daquelas mãos brutas e cruéis. Mãos que ora lhe acariciavam, ora lhe surravam. E ali jogada na cama sobre as flores desbotadas de um surrado lençol, testemunhas das noites de falta de amor, chorava com mais profundidade tentando fazer com que todo seu ódio saísse pelos olhos.
Marli olhou para o espelho empoeirado da penteadeira e descobriu seu rosto entre os frascos semivazios de perfumes.
Era a terceira vez nesta semana que levava uma surra do seu cônjuge. Dias turbulentos pairavam sobre o destino desta pobre mulher. Engoliu seco. Sentou na cama e se mirou novamente no espelho revendo o seu rosto. Passou a mão nos olhos para secá-los. Esfregou ela as duas mãos no rosto para descaracterizar as marcas dos dedos do seu carrasco e começou a pensa no passado.

Passado. Agora o que tinha era uma casa de apenas dois cômodos: quarto e cozinha e um banheiro adjacente. Na realidade o pequeno banheiro é um espaço tão reduzido que mal dá para se virar dentro dele. Se a gente entrar de frente tem que sair de costa. Se entrar de costas tem que sair de frente.
Era preciso se levantar para preparar o almoço senão corre o risco de levar outra surra quando Nivaldo chegar com seu estômago vazio e aquele hálito de cana azeda. Pensou mais uma vez no hálito de Nivaldo quando lhe forçava um beijo:
­_Que nojo!
Levantou-se agora para valer. Procurou o par de havaianas, pois o piso estava frio para os seus pés suados. Passou a mão pelo vestido para desamarrotá-lo um pouco. Deu mais uma olhada no espelho confirmando o que já desconfiava. O rosto marcado de roxo ainda estava. O roxo da violência ainda persistia em morar na sua linda face arredondada.
Caminho cambaleando até a cozinha, o outro cômodo do pequeno barraco, e começou a preparar o almoço. Depois de afogar o arroz e o feijão, pôs se a descascar os quatro pepinos dentro de um escorredor de macarrão amarelo. De vez em quando engolia seco lembrando-se da surra que levou.
Enquanto descascava o penúltimo pepino, deu-lhe uma louca vontade de trair o esposo como vingança. Queria desforrar. Não tinha força física para retribuir com a mesma moeda. Mas, mesmo surrada, tinha beleza suficiente para chamar a atenção de qualquer homem. Ontem mesmo foi cantada pelo dono da mercearia quando foi comprar um quilo de sal. Não, com o dono da mercearia não queria. Seria apenas uma a mais. Ele a possuiria como qualquer uma. Conhecia a fama dele na cidade. Não valorizava as mulheres.
Foi até o armário e pegou a carteira de cigarros. Precisava fumar. Estava nervosa e não via a hora de cortar o dedo picando os pepinos. Já bastava a dor das pancadas. Acendeu o cigarro e recolocou a carteira sobre a caixa de anticoncepcional. Pensou em Nivaldo que chegaria dai a pouco com sua carroça e com seu azedume no bafo. Certamente entraria pela porta com muita pressa e ficaria em silêncio.
Acertou. Tal como pensara há alguns minutos atrás. Ele entrou pela porta e foi logo sentando na cadeira mais próxima que, como Marli, parecia estar esperando por ele.
O silêncio reinou absoluto no recinto. Quebrado de vez em quando pelo tilintar do alumínio das vasilhas e dos talheres.
Os olhos de Nivaldo acompanhavam de soslaio as carnudas pernas de Marli sustentando o resto daquele corpo espancado pela brutalidade de um homem sem domínio de si.
Nivaldo lembrava-se agora de uma reza que fizeram há dias atrás em sua casa. Leram e falaram coisas bonitas a respeito da família. Como colocar em prática o que foi falado naquela reza? Não, não devia ter surrado Marli mais uma vez naquela semana.
_É que na hora a gente perde o controle. Não pensa. Falou ele para si mesmo em silêncio.
Quando Nivaldo percebeu que o almoço estava pronto tomou a iniciativa. Encheu seu prato, tinha bom apetite, e acomodou-se no mesmo lugar onde apreciara por alguns minutos as pernas carnudas de sua esposa enquanto se arrependia do ato feito.
Marli o olhava no rosto com ódio. As lágrimas não foram suficientes para subtrair todo esse sentimento que faz azedar o estômago. Engolia com certa dificuldade os grãos de arroz cozidos e molhados no caldo de feijão.
_O arroz ficou salgado. Pensou consigo e abafou a própria voz quando, num segundo de distração, ia perguntando qual o julgamento que ele fazia do tempero de seu arroz. Suspirou um ar nicotinado pelo último cigarro que fumou. Não cederia, bateu o pé. Pegou mais duas tainhas de pepino deixando sobrar mesma quantidade para o marido. Pegar as quatro poderia ser um pretexto para iniciar um diálogo. Pegou apenas duas e repicou-as com a lateral do garfo. Engoliu-as pouco a pouco como se estivesse concorrendo com Nivaldo quem terminaria de almoçar por último.
Agora era ela que estava se lembrando da novena da Campanha da Fraternidade em Família. Foi dona Alzira, boa mulher, que a procurou. Acompanhou a novena todos os dias. Quis continuar a participar do Grupo de Reflexão. Foi duas vezes e depois desanimou. Nivaldo não a estimulou. Participou da novena apenas no dia em que rezaram na sua casa. Outras vizinhas, por diversas vezes, a chamava para participar de outras igrejas. Mas ela achava que se voltasse a participar tinha que ser na católica. Tem muito tempo que ela não vai à igreja. Tem missa todos os domingos pela manhã em seu bairro. A última vez que foi teve a impressão que todos ali a olhavam. Até mesmo o jovem padre que certamente não a conhecia ficou olhando para ela durante a missa. Tinha certeza que a maioria das pessoas na igreja sabia das surras que levava do marido. Sentiu-se envergonhada e inferior às outras mulheres.
Nivaldo seguia almoçando e a olhando. Ela agora tenta fingir que não o percebe e fingiu muito bem. Talvez não fosse o ódio que lhe azedava o estômago, não teria conseguido disfarçar. Passou o garfo no fundo do prato para ajuntar os grãos de arroz que ainda estavam lá manchados de caldo de feijão como seu rosto pelo caldo da brutalidade do machismo idiota. Arriscou a olhar para Nivaldo que ao sentir a presença dos olhos dela abaixou a cabeça.
Nivaldo começou a pensar nos carretos que pegou para fazer à tarde, levantou-se. Foi até ao pequeno banheiro, gargarejou morna na boca e saiu do mesmo jeito que entrou deixando sua esposa sentada na cadeira como permanecera todo tempo do almoço.
_Melhor não falar nada. Deixo para ele puxar o assunto. A língua até coçou para falar lhe umas poucas e boas. Mas é ele que tem que puxar assunto. Miserável.
Marli deixou-se ficar mais cinco minutos sentada. Levantou-se já recolhendo os dois pratos esmaltados com cuidado para não descasca-los mais ainda. Guardou as panelas dentro do forno simples do fogão branco e lavou as conchas, os garfos e os pratos na pia próxima ao velho fogão onde acabou de guardar as panelas.

_Que bom que seria a vida sem Nivaldo. Pode falar em voz sussurrante.

LEIA A SEGUIR:
CAPÍTULO II

sábado, 21 de novembro de 2015

NECROSE DE UM RIO




A mineradora é
Meretriz imprudente
Enlouquecida com rendas
Esqueceu-se do absorvente

E uma necrosante menstruação
Descendo por gravidade
Aniquilando a seiva da vida
Cidade por cidade

O Rio Doce amarga
No mar está impedido que entre
Pois a meretriz lapida
A morte em seu ventre

TIRO DE MISERICÓRDIA NO RIO DOCE















Primeiro veio pecuária...
Ciscando colinas de sedimentos
Solidificando o leito

Em seguida, as hidrelétricas...
Feito ordenhadeiras
Sugando toda energia
Para nosso vil aproveito

Agora a mineradora...
Frente ao rio que não mais deságua
Dá seu tiro de misericórdia
Mais que chumbo, todo rejeito.

LEIA TAMBÉM: NECROSE DE UM RIO