quinta-feira, 6 de maio de 2021

ERVILHAS E ATUM

 

            Aquele rosto morto, ensacado pelo inverno do ano mais triste e doído de sua vida, acordou juntamente com ela para mais uma quarta-feira. E todos os dias da semana se pareciam iguais. Domingo à tarde e uns dois dias por mês é que era diferente. Mas tempo apenas para descansar e organizar as coisinhas em casa.
            O supermercado com suas prateleiras cheias de produtos necessários a todos os padrões de consumo na cidade engaiolada pela pressa e falta de poesia da mulher e do homem que traz atravancado em seus tornozelos os grilhões da sobrevivência, a esperava para engoli-la por uma longa jornada de trabalho, e depois vomitá-la, expelindo-a através dos logradouros do bairro operário para dentro da sua caixinha de alvenaria para a qual dão o nome de casa.
            R$ 53,00. Ele lhe entregou R$ 60,00. Ela lhe devolveu R$ 7,00 enquanto que a empacotadeira colocava num misto de pressa e cuidado os pacotes de cereais e latas de conservas em sacolas de materiais nada degradáveis. A matemática naquele instante foi simples demais. Mas na quinta cavidade do seu coração, aquela invisível a qualquer raio-x, faltava algo. O troco que a vida havia lhe dado não era o suficiente diante da perda que teve. Tinha sido deixada por aquele homem que a havia preenchido de carinho e decepções nos seus últimos sete anos de sobrevivência.
            Desde então a jornada, para a sua sensação, havia se tornado o dobro mais árdua. E ele, aquele desgraçado, estava comprando aqueles cereais para quem? E aquela latinha de ervilha?
            Era a primeira vez depois da separação que ele entrava no supermercado e passava diante dos seus olhos. Tanto ele, como ela, agiram com naturalidade, a mesma de quando estavam juntos e ele ia lá, comprar o que ele tinha vontade. O homem durante sete anos gostava de atum e detestava ervilhas.
            A empacotadeira sorriu com o canto da boca quando ela abaixou a cabeça para respirar fundo. Pensava qual seria a reação da caixa quando soubesse para onde estava indo aquela mercadoria. Nesse mundo sem poesia, sobrava drama mesmo no recheio da dureza operária.
            Fim da jornada. As duas almas femininas e famintas tomaram o rumo de suas casas. A empacotadeira subiu a ladeira feliz. Iria desfrutar de sua conquista e discutir com ele como contaria para a colega de trabalho. Não poderia segurar tamanho segredo por tanto tempo.


            Ela caminhou cabisbaixa, derrotada, pela avenida até entrar na ruela em que morava. Abriu a porta e sentiu o cheiro de comida sendo preparada. Era ele ao fogão. No jantar haveria atum para ele e ervilha para ela em celebração ao seu retorno inesperado.
            A empacotadeira chorou diante do bilhete de despedida sem ter forças para encarar a colega de trabalho no dia seguinte. Resolveu não ir mais.


CONTO DA QUINTA PASSADA




domingo, 2 de maio de 2021

CORAÇÃO, ERROS E HISTÓRIA: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - XIV

 

Pétalas de rosas
Entre as folhas do diário
Seca recordação

Teruo Tonooka


 

Estamos na nossa décima quarta pentalogia. A quinta após a retomada.  Sem compromisso, mas prometendo esforço para editar um e-book com todas as antologias depois da décima quinta.

 

 Na postagem deste domingo, o primeiro do mês de maio, mês dedicado às mulheres, que poeticamente são rosas,  estamos trazendo 1 (rondel) e 4 (quatro) indrisos.

 


PÉTALA I: O reconhecimento do homem que reconhece sua condição de completa entrega a uma mulher que o conquistou ao conhecer seu ponto fraco através do rondel do projeto RIMAS SOBRE TUDO.

 

PÉTALA II: Indriso que ala daquele momento que é preciso parar e refazer os paradigmas da vida, arriscar-se em outras rotas. Mas antes descobrir o motivo da raiva que mora dentro do peito.

 

PÉTALA III: O coração de alguém que reconhece na pessoa que ama certa frieza e procurar encontrar o seu lugar na história do outro.

 

PÉTALA IV: Um indriso que fala do esquecimento de alguém que deixou algo escrito é ninguém leu. A vida de vários escritores que foram abraçados pelo anonimato.

 

PÉTALA V: Uma história a mais de um caso de amor por conveniência versejada em um indriso que tem a marca do meu estilo. Assim penso.

 

 

Vamos aos versos. 


CORAÇÃO DELIRANTE
 
Arranque este meu coração delirante
Embrulhe-o com todo o seu desprezo
Deixe-me dentro deste baú sufocante
Um fosso de solidão onde estou preso
 
Não deixe nada neste corpo ficar ileso
Eu imploro por tua carícia necrosante
Arranque este meu coração delirante
Embrulhe-o com todo o seu desprezo
 
Pelos vales da noite eu já fui vagante
E meu universo parecia ser tão coeso
Mas o seu olhar mirou tão fascinante
Que te revelei o meu ponto indefeso
Arranque este meu coração delirante
 
 

 
CHECK-UP
 
Estou me fechando para balanço
E não entenda isto com descanso
Vai ser duro calcular as derrotas
 
Diante da vida às vezes me canso
Nunca naveguei por um remanso
Só tenho naufrágios em minha rota
 
As tempestades fortes e a mentira
 
Fomentam no peito a minha ira!
 
 

ERROS E ACERTOS
 
Conte-me a sua história para eu saber
Qual foi o seu erro, qual foi seu acerto
Para eu entender essa sua melancolia.
 
Conte-me a sua história para eu caber
Dentro da sua folga, dentro do aperto
Para eu compreender essa sua agonia.
 
Sei que você teve perdas no seu caminho.
 
Ainda não se encontrou no meu carinho.
 
 

ESQUECIDO
 
O que ele escreveu
Está ficando perdido
Sob a poeira do tempo.
 
E o que ele imaginou
Não foi no altar ungido
Não se espalhou no vento.
 
Nenhum invento ele pariu
 
Então, pelo que ele sorriu?
 
 
 
NA MINHA HISTÓRIA
 
Quando a vida te ameaça você me procura
Em meus braços você se sente mais segura
E nos momentos de prazer eu fico de fora.
 
Se tudo dá errado passo a ser a pessoa certa
A qualquer hora minha porta estará aberta
Mas quando o medo acaba você vai embora.
 
Quero saber qual é o seu lugar na minha história.
 
Para saber qual será o meu lugar na sua memória.




 PÉTALAS SEMANAIS DE ABRIL






quinta-feira, 29 de abril de 2021

OS ESCRITOS DO ODIADO

 


Ele se isolava e era detestado. Na vila próxima de onde morava sentia-se um leproso andando pela rua, todos o evitavam. Precisava sair dali, mas algo o prendia naquele lugar horrível, entre as montanhas de um canto de Minas Gerais que parecia perdido no tempo.

Sargento era seu cachorro fiel. Dormia com ele, almoçavam a mesma comida, acompanhava-o nas caçadas e no trabalho no pequeno sítio de dois alqueires que herdou do pai. O casebre era mal faxinado. Sujeira e falta de higiene. O odiado, já lhe chamavam assim, passava três a quatro dias sem se banhar. Caprichava um pouco quando dava um pulo até a cidade. Havia um velho ônibus apenas duas vezes por semana. Recebia sua aposentadoria e comprava poucas coisas. O necessário. Sua casa sem energia elétrica, sua água de uma mina próxima da sua morada. Tudo simples, tudo rústico.

Duas caixas de madeira, daquelas antigas, onde guardava coisas. E serviam de assento também. Em uma delas as escassas peças do seu vestuário, na outra os cadernos.

Nesses cadernos ele escrevia suas histórias arrancadas da sua desacreditada imaginação. Histórias que ninguém lia e ninguém era capaz de imaginar que ele conseguia tal proeza. Tinha sido alfabetizado até o terceiro ano quando pegou raiva da escola onde os outros garotos gostavam de tirar sarro da sua cara emburrada.

Mas leu a Bíblia inteira três vezes. Lia tudo que lhe chegava às mãos. Escrevia muito bem apesar dos tropeços na gramática. Escrevia pela tarde.

fonte: da imagem: http://terrorcontos.blogspot.com/

Houve uma noite, um bando de garotos drogados e a péssima ideia de colocar fogo na casa dele. Ele dormia. Desmaiou sufocado pela fumaça e morreu carbonizado. Quase tudo foi queimado, exceto a caixa de madeira com os cadernos. O cachorro ficou, farejava tudo e parecia vigiar o pouco que sobrou. Dormia sobre a caixa.

Lucas, um garoto perspicaz, na manhã seguinte passava pela estrada, ouvindo os latidos do cachorro solitário, teve a curiosidade visitar os escombros do casebre. Pegou para si os cadernos do velho homem queimado covardemente. O cão parecia não se opor, mas o acompanhou até a sua casa.  Ele leu e entendeu que se tratava de histórias interessantes. Precisava trazer à tona o talento do homem mais odiado da vila. Com ajuda da Secretaria de Cultura, conseguiu publicar uma coletânea das histórias mais interessantes. Foi às escolas, deu entrevista na rádio comunitária, postou em suas redes sociais e atraiu um pequeno público para a noite de autógrafo.

No lançamento do livro, Os Escritos Do Odiado, enquanto o rapaz, responsável a dar luz àquelas histórias, falava do seu encanto da primeira vez que leu os manuscritos, Sargento, com seu corpo magricelo, entrou no recinto.

Lucas esbanjava orgulho e alguma timidez perante o público atencioso. Sargento foi se acomodando ao lado do jovem. Enquanto o nome do velho era lembrado, o corpo do cachorro foi ganhando massa muscular e mudando sua morfologia. Ninguém percebeu o inicio da transformação, foi um garoto desatento às palavras do rapaz que achou estranho o cão se transformando em um homem. Gritou, e então passaram a perceber. Lucas olhou de lado e viu a transformação acontecendo. Ficou atônito, boquiaberto. O animal tomou a forma do homem, autor das histórias contidas naquele livro. Boa parte dos presentes, apavorados, diante do corpo do maltrapilho já tido como morto, saiu correndo e se acotovelando na porta do salão. Os poucos que ficaram viram o homem pegar o microfone da mão do rapaz que, assim que se viu livre do objeto, caiu no chão, desmaiou. O homem odiado se apresentou e pediu para que ninguém se assustasse. Ele não havia morrido no incêndio. Esperava o momento certo para voltar a ser humano. Quem estava no corpo humano carbonizado naquela noite criminosa era o do seu único e fiel amigo, o cachorro, que trocou de alma com ele. Nem ele sabe como isso aconteceu.

Quando a polícia chegou juntamente com os socorristas, o homem tomava água calmante. Não havia porque prendê-lo. Viver como um cachorro não é crime.

Mas as mortes misteriosas dos cinco delinquentes que atearam fogo naquele casebre, que não tinham sido inocentados por serem filhos de famílias influentes, podiam até ser crime. Mas elas tinham cara de justiça.



OUTRAS CONTOS DE OUTRAS QUINTAS

POR CAUSA DE CAMILA

A BARGANHA

A DESEMPREGADA

domingo, 25 de abril de 2021

PANDEMIA, AMOR E CAMINHOS: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS XIII

 


"Havia um sarau para se realizar
Para se realizar um sarau havia
Já que sarau não houve
Vamos com mais uma pentalogia."

 

Confesso que havia um projeto para 20 de abril, véspera da Inconfidênica Mineira. Sarau dos poetas inconfidentes. Falei em uma crônica que não houve. Mas a ideia persiste. A ideia de comunicar a poesia como forma de liberdade. No entanto podemos preservar a ideia e criar um grupo, quem sabe uma academia virtual, dos poetas inconfidentes do leste. Ficaria legal, acho.
 
A pentalogia deste domingo das minhas pétalas semanais fala de Pandemia, tema do meu livro Versos Infectantes, de amor e de caminhos que temos para percorrer. Intercalei com quadras, do projeto Poemas em pó, entrando na metalinguagem do agir/não-agir poético.
 
PÉTALA I: Sobre apertos e aprendizados em uma pandemia.
 
PÉTALA II: Sobre a rejeição do poeta para temas concretos que pode se reflexão da pouca absorção dos poemas que abordam a realidade.
 
PÉTALA III: Viver de amor é o mesmo que morrer de amor. Vida e morte no amor não existem. Amor é além destes acontecimentos.
 
PÉTALA IV: Uma quadra falando do fazer poesia, do trabalho árduo de se compor um poema.
 
PÉTALA V: Fazer a mesma coisa todo dia é não conhecer a diversidade de caminhos que a vida nos proporciona. É um convite para conhecermos a riqueza da existência humana.
 




EM UMA PANDEMIA
 
Em uma pandemia a gente apanha
Em uma pandemia a gente aprende
Se ela não te mata ao menos arranha
É um imprevisto que te surpreende.
 
Na pandemia nossos dias são frios
Mas o calor da família é que aquece
As notícias na tevê causam arrepios
Em casa o teletrabalho enlouquece.
 
Não brinque agora que é muito sério
E não brinde agora que não é a hora
Se você não teme ir para o cemitério
Sinceramente eu não quero ir agora.
 
Toda pandemia faz a gente adoecer
Eu só quero que isto tudo passe logo
Toda pandemia faz a gente padecer
Para a sensatez dos homens eu rogo.
 
Em uma pandemia revemos valores
Em uma pandemia a gente defronta
Com amores e com nossos rancores
Tudo que em nós calado nos afronta.
 
Em meio a tantos desafios há beleza
Na partilha do pão na desigualdade
Pandemia é desequilíbrio da natureza
Ou reflexo do abuso da humanidade?
 
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QUADRA 66
 
Não cabe em minha cabeça
Um poema tão concreto
Inda que o poeta cresça
Prefiro o meu papo reto.
 
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VIVER DE AMOR
 
Eu posso viver de amor
Colorir a vida de tons leves
Eternizar momentos breves
Agarrado aos fios de esperança.
 
Eu posso cavar poços no deserto
Atrás de um futuro ainda incerto
Somente para ter você por perto.
 
Eu posso morrer de amor
Em cada volta do ponteiro
Estar com os bolsos vazios
E te dar um mundo inteiro.
 
Mas nada vai adiantar
Se você não se encantar
Com o azul do seu mar.
 
Viver de amor, morrer de amor
Amor não é tempo, nem espaço
É beijo que arremata o abraço
É toque leve para além da pele
Enquanto meu coração expele
Mais um poema em seus lábios.
 
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QUADRA 67

Um poeta usa a caneta
Estraçalha uma loucura
Como se fosse a marreta
Batendo na pedra dura.
 
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CAMINHOS DIVERSOS
 
Eu não faço todo dia as mesmas coisas
Eu não bato todo dia nas mesmas teclas
Não reproduzo todo dia as mesmas cópias
Eu não sigo todo dia as mesmas regras.
 
Quero ser uma coisa em cada dia que vivo
E ter uma nova atmosfera no ar que respiro
Quero olhar para o sol e ver um novo motivo
E um novo alvo para eu acertar o meu tiro.
 
Eu não faço todo dia as mesmas contas
Eu não fumo todo dia a mesma erva
Eu não aponto todo dia as mesmas pontas
Nem todo dia o meu voto é o de minerva.
 
Quero ver no meu arco-íris outras cores
Quero um remédio sem efeito colateral
Meu paladar sempre busca novos sabores
Nem todo dia eu ponho a bola para lateral.
 
Eu não escrevo todo dia o mesmo conto
Eu não rimo todo dia os mesmos versos
Eu não termino o dia com o mesmo ponto
Pois há no meu destino caminhos diversos.
 
Ainda que não haja sobre a mesa refeição
Ainda que a vida seja apenas massa bruta
Hoje eu quero sentir como é uma perfeição
Por hoje eu não vou desistir da minha luta.


VERSOS INFECTANTES
(MÓ)MENTOS DE UMA PANDEMIA

Sobre um eu-poético
que evita contato com o vírus
que se envolve com seu versos.

Sobre um eu-poético
em um mundo que se infecta
com seu profundo se conecta.

CONTATO PARA AQUISIÇÃO

mendesclaudioantonio@gmail.com


PENTALOGIAS DE PÉTALAS ANTERIORES






quinta-feira, 22 de abril de 2021

POR CAUSA DA CAMILA

 


Deixou de morrer dentro daquele quarto escuro. Não era hora para isso. Dono do seu tempo e da sua vida, seus torturadores não foram sensíveis o suficiente para perceberem que ele era mais que um agitador político. Seus olhos não estavam vermelhos de sangue e de cansaço da surra que levava.

Não tinha o que confessar durante o intervalo de um choque e outro. Ninguém para entregar, não era de nenhuma célula terrorista. Não conhecia nenhum plano, os milicos estavam mesmo é doído.  Jogaram seu corpo já quase sem vida aos olhos humanos. Mas ele precisava chegar em sua quase-morte para ganhar força vital. Foi o que a voz em sua cabeça o orientou.

Naquela noite saiu sem rumo pela cidade. Achou um panfleto revolucionário que chamava o presidente de genocida. Ou melhor, foi o panfleto que o achou. Ele agora lembra bem. Não tinha ideia de como chegar a esse estado. O vento em sua frente formou um redemoinho roçando o asfalto e fez suspender até às suas mãos o papel com palavras de ordem contra a ditadura. Teve tempo apenas de ler parte do que dizia quando apareceram os camburões lotados de militares.

Talvez ele tivesse sido preso por engano. Talvez parecesse com algum estudante de esquerda. Ele não era militante de nenhum movimento, mas quase perdeu a vida. O destino. A voz disse que ele precisava viver essa experiência para ter supremacia. Ele pediu por isso em suas evocações do sombrio.

No chão frio e imundo da cela escura ele aguardava o que iria acontecer. Suas veias se dilataram.

Os músculos foram se enrijecendo, ganhando consistência, aumentando o volume. O magricelo se encorpava. Levantou-se. Soltou um urro.

Dentro de segundos os carcereiros apareceram. Antes que eles abrissem a porta para esmurrar novamente o suposto rebelde, ele arrancou a porta da cela sem muita dificuldade. Levou uma rajada de balas e não se assustou. Saiu correndo pelo recinto opressor atropelando quem estivesse pela frente. Arrancou mais duas portas de grade e ganhou a rua. Sem direção, hesitou um pouco. Olhou para os dois lados e um carro passou acelerado por ele. Seu aspecto tenebroso devia estar causando horror àquela hora. Por instinto seguiu para onde estava mais escuro.

Através de suas narinas enormes sentiu cheiro de sangue. Era isso que ele perseguia. Era o cheiro acre que o guiava para o fim da rua. Entrou no matagal.  O cheiro cada vez mais forte. Sentia o sangue dilatado nas veias de um corpo em apuros. Não deu outra, encontrou atrás de uma moita uma mulher seminua a ponto de ser violentada por dois marginais. Com agilidade jamais demostrada antes, ele segurou um dos meliantes pelo pescoço enquanto com seus pés espremia o outro contra o solo. Ambos se debatiam em vão.

A mulher apenas via a sombra do monstro que estraçalhava os criminosos. Suas pernas trêmulas não a permitiam abandonar o local. Pensava apenas que seria a próxima vítima do desconhecido e pouco visível naquele matagal.

Ele urrou novamente o que fez a mulher tremer ainda mais. Esticou um dos braços indicando a direção de luzes longínquas. Ela entendeu e saiu em disparada. Ele precisava sair dali. Ela certamente buscaria a polícia e a traria de volta. Eles o encontrariam. Sua audição estava mais aguçada o que lhe permitiu ouvir sirenes. A essa altura um pelotão já estava no seu encalço. Saiu correndo para se esconder. No final da mata encontrou uma casa abandonada. Refugiou-se ali.

Um monstro, ele olhava para si. Seus braços peludos, unhas grandes e afiadas. Sentidos aguçados e uma vontade de estraçalhar maldades em corpos de pessoas. Um monstro justiceiro? A luz do dia o incomodava. Melhor ficar escondido. Não sentia fome. Ele queria ser isso, mas jamais achou que seria atendido em seu desejo macabro.

A criatura relembrou do que o levou a desejar ser um justiceiro com força suprema. Uma interpretação da música Camila, Camila da banda que ele mais gostava de ouvir.


Música antiga, da década 80 do século passado, o país estava saindo de um regime de exceção. Depois de mais de trinta anos de liberdade os tempos de chumbo voltaram. Leu em um caderno de cultura de jornal que a música fala de uma menina colega dos integrantes, vítima de abuso sexual. Ao lado da casa dele havia uma Camila, menina triste que também poderia estar vivendo o mesmo.

A certeza de que sua vizinha vivia o mesmo pesadelo da Camila da música do Nenhum de Nós fez com que ele fosse cultivando dentro da sua mente melancólica vontade de ser um herói. Nutriu por dias o desejo de ter alguma capacidade descomunal, o que ele chamava de força suprema, mas que seria apenas uma força superior, capaz de fazer justiça para as mulheres desamparadas em situação de risco.

Herói. É isso que a criatura esperava ver naquele espelho quebrado. Não viu nada. Não havia reflexo de nenhum rosto diante dos seus olhos vermelhos. Como desfazer-se do que se transformara? Não tinha como. A voz dizia que não tinha retorno. Jamais seria o fracote, o medroso. Agora ele tinha coragem e dois homicídios. Os homens mortos foram encontrados. Estava em uma das páginas da edição sensacionalista vespertina do grande jornal que um vento, inesperadamente, trouxe até ele.

Um rato atreveu-se aparecer por ali. Seu estômago resmungou. Correu atrás do animal até capturá-lo e devorá-lo. Um rato apenas serviu-lhe de refeição naquela tarde.

O sol se pôs e ele farejou novamente violência. Levantou-se para o combate. Mas precisava esperar. Quando a cidade parecia mais calma, ele voltou pelo mesmo caminho da noite anterior. Seguia seu instinto. Viu-se diante da penitenciária onde havia sido torturado. A voz disse para ele: — Toda ditadura é um estupro.

Entrou e não sobrou ninguém ali de farda. Os que ainda sobreviviam naquele porão da sociedade foram libertos.


Depois a criatura seguiu para a casa de Camila, sua vizinha, que diante dos olhos perversos do seu padrasto, clamava em silêncio por alguma ajuda.




CONTOS DA QUINTA

A DESEMPREGADA

A BARGANHA


 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

DOIS VERÕES: UM QUE HOUVE

Existe uma relação entre o livro Frankenstein de Mary Shelley e meus poemas em Decalogias poéticas. Não pelo tema. No meu livro os poemas estão mais para o modernismo dos anos 50, escritos sob a influência dos poemas de Ferreira Gullar que eu tanto admiro.
 
Quero afirmar de início que verão e ócio é uma combinação explosivamente literária, seja em Léman, seja em Mutum.


O VERÃO QUE NÃO HOUVE

1816 foi um ano que não teve verão. Aconteceu que no ano anterior, nas longínquas Ilhas Orientais Holandesas, hoje Indonésia, ferveu sob a superfície terrestre a matéria-prima para uma tragédia que mudaria a história do mundo nos anos subsequentes. A devastação deu-se sob a forma de uma explosão vulcânica cataclísmica no monte Tambora. Foi, segundo especialistas, a erupção mais poderosa até hoje. Suas cinzas ocasionaram mudanças climáticas singulares na América do Norte e na Europa.

Hoje historiadores levantam a relação desta erupção com a derrota de Napoleão em Waterloo. “Em Waterloo, Napoleão poderia ter ganhado, e talvez seja por isso que nunca deixarão de ser escritos livros sobre aquela jornada”, dizia o historiador italiano Alessandro Barbero ao El País numa reportagem por ocasião do bicentenário da batalha.
Fonte: El País.
 
Os efeitos foram terríveis: A erupção provocou um frio que gelou as lavouras da América do Norte, onde ainda nevava

em junho de 1816, e reduziu de forma notável as temperaturas na Europa, que chegaram a três graus negativos na Espanha em pleno verão. Na França, enquanto seu imperador era derrotado, multiplicavam-se os distúrbios pelo aumento do pão, por causa da falta de grãos. Segue o artigo do El País.Mas há quem analisa o que foi produzido sob cinzas do Tambora, sobretudo na literatura depara com um marco importante atribuído como dano colateral do ano sem Verão, foi o fato de Frankenstein, considerado a primeira obra de Ficção Científica, ter surgido quando Mary Shelley,  tendo passado uma longa temporada confinada à beira do Lago Léman, nos Alpes, devido às condições meteorológicas hostis que condicionaram as esperadas férias de Verão que não aconteceria, na companhia de Lord Byron, e John Polidori. Tendo sido lançado o desafio por Lord Byron de criar histórias de terror, Mary Shelley surgiu com o que viria a ser Frankenstein, Polidori criou algo que viria a dar origem ao romance “O Vampiro”, que mais tarde serviria de inspiração a Bram Stoker para o seu “Drácula”. 
Fonte: Quando as folhas caem.

Baseado neste fato a ABERST (Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror) criou a Ghost Story Challenge, que consiste no desafio de isolar por uma noite escritores de crime e terror em algum lugar sugestivo.
 

O VERÃO QUE HOUVE


Na virada do ano 1996 para 1997 havia verão aqui no hemisfério sul. Eu estava engatinhando nos versos. Fiquei em casa e, ocioso, comecei a produzir poemas me inspirando em um livro com os melhores poemas de Ferreira Gullar. Tendo em mente alguns temas, peguei um caderno brochura e comecei a rascunhar dez poemas por dia. Comecei no dia 26 de dezembro de 1996, dei uma respirada no dia 31 e retomei no dia 1º de janeiro de 1997. Obra rascunhada até o dia 05. Não conhecia ainda a história da produção de Frankenstein por Mary Shelley.  Eu estava mais para a literatura policial com os contos absorvidos em dois livros de Luiz Lopes Coelho e seu Dr. Leite.

Shelley publicou seu livro após dois anos e ter sua obra recusada duas vezes. Somente agora tenho falado da minha obra, mais de 20 anos se passaram daquele verão de 1996, com 180 anos de distância daquela reunião às margens suíças do Lago Léman. Em ambiente de tertúlia literária quando os escritores George Gordon Byron (Lord Byron), John William Polidori, Percy Bysshe Shelley e Mary Godwin (mais tarde Mary Shelley, após casar com Percy), entretinham dias de frio e chuva no seu refúgio de férias. Juntos, recriavam histórias de terror saídas da literatura gótica alemã.
Uma ideia interessante seria em um sábado de inverno, juntando a experiência do Corujando da Editora Andross, pela qual já publiquei em duas antologias (Vendetta e Ponto de criação) e estamos aguardando a saída de Fio vermelho para este ano, com a Ghost Story Challenge da Aberst. Penso aqui em denominar de Noite Byroniana. O que acham?




domingo, 18 de abril de 2021

CERTEZA, QUEDA E ENCONTRO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - XII

Trago mais uma pentalogia da minha lavra neste domingo outonal de abril quando a certeza é incerta, as folhas caem e encontram o chão. E na nossa vida também é outono? Quais certezas que temos? Nossas quedas são sempre perdas? O encontro é sempre enriquecedor? Nestes cinco poemas vamos refletir um pouco sobre isto. Estes poemas fazem parte do nosso projeto iniciado esta semana provisoriamente intitulado de Inflexões de Cantondes. 

A CERTEZA fala daquele amor prisional, do amor em meio a esta pauperização que estamos vivendo no Brasil. Qual a certeza que o eu-lírico tem nesta condição?

A LÁGRIMA NOS OLHOS traz um eu-lírico vagante pelo mundo e sua constatação de que uma lágrima em seus olhos pode causar mais danos que purificação quando não há amor verdadeiro.

A QUEDA NA FUGA segue a temática da desilusão. O fugitivo depara com lábios sedutores e aí se inicia a sua queda verdadeira.

AQUELA SIMPLICIDADE destoa dos demais poemas. Há aqui uma pegada inspirada em Arnaldo Antunes. O poema traz aquele quezinho de crítica a partir de uma nostalgia.

ENCONTRO O PARAÍSO fecha nossa pentalogia dando um alento com o romantismo. Pode ser aquele romantismo doentio? Pode. Mas vamos dar uma chance.


A CERTEZA

O que me inquieta tanto
São seus olhos caçadores
Buscando algo de papável
No meu coração tumultuado.
 
O que me puxa para baixo
É esta sua insistência no amor
Enquanto nossos armários
Carecem da migalha consentida.
 
Não consigo entender a paixão
Quando ela nos arranca a razão
E nos joga na cova das emoções
E eu fico cego tateando conflitos.
 
O que me atormenta tanto
São os vazios irreparáveis
Que ficam no peito pulsando
Ferido depois do seu carinho.
 
O que ainda me faz respirar
É a certeza de que dos seus braços
Eu jamais terei forças para fugir
E me fundir com uma calçada fria.


A LÁGRIMA NOS OLHOS

Eu não reviso os meus sonhos
Eu não refaço meus caminhos
Passo por momentos bisonhos
Pelas flores enfrentei espinhos
Mas tudo na vida vale a pena
Quando se luta com destemor
Mas se a gente não tiver amor
A lágrima nos olhos envenena
 
Eu não desprezo uma acolhida
Eu não menosprezo a paquera
Só para ter um prazer na vida
Aquela troca de carícia sincera
E um romance breve se encena
Para dissipar o nosso dissabor
Mas se a gente não tiver amor
A lágrima nos olhos envenena
 
Eu confesso que às vezes cansa
Vagar pelo mundo sem destino
Levando na mala desesperança
E no peito um quê de desatino
Finjo que seu sorriso me acena
E no meu coração alivio a dor
Mas se a gente não tiver amor
A lágrima nos olhos envenena


A QUEDA NA FUGA

Entreguei ao vazio
O que eu tinha de melhor
Um mar agitado
Dentro do meu coração
E aquele arco-íris de múltiplas cores
Em meus olhos.
 
Foi-se o que eu tinha de vital
Uma força hercúlea
Para trilhar caminhos impossíveis
Sem passos trôpegos
Sobre ladrilhos famintos
Em noites de lua duplicada.
 
Entreguei ao vazio
O que me fazia pulsar
Diante dos desafios seculares
Que lançam tristezas contra o peito
Fiquei de mãos empobrecidas
Acenando um adeus enxuto
Para o que eu tinha de melhor.
 
É que eu acreditei na velha promessa
Dita por lábios sedentos por fraquezas
Eu estava lá, presa fácil
Buscando fugas para minhas desilusões
Bastou aquele sorriso
E desde o primeiro beijo
Deparei-me com o precipício.


AQUELA SIMPLICIDADE

A careca encontrava o pente
A escova acariciava o dente
Era nosso dia com requinte
Que se repetia no dia seguinte
 
Mas um dia veio a velo-cidade
Engolindo a nossa feli-cidade
Nunca vi tamanha vora-cidade
Da fome com cara de fero-cidade
 
E o monociclo
E o monóculo
Foram soterrados
Por um vocabulário
Monossilábico
 
Já não se passeia mais no jardim
Já não se saboreia mais o pudim
Já não se teme o coronel Bim-bim
E dinheiro é chamado de dim-dim
 
Na pequena caixinha se via gente
Só de soletrar já se era inteligente
Aquela simplicidade tão pungente
Morreu diante do mundo urgente
 
E o monóculo
E o monociclo
Foram imolados
Por um imaginário
Monolítico


ENCONTRO O PARAÍSO

Impreciso
Imperfeito
É este amor por você
Dentro do meu peito.
 
Dele eu preciso
Nele me ajeito
Eu faço dos teus braços
O meu leito.
 
Céu poluído
Ar rarefeito
Mas em teu corpo
Eu me ajeito.
 
Indeciso
Quase rejeito
Em teus olhos bonitos
O meu espelho.
 
No teu sorriso
Que eu beijo
Encontro o paraíso
E seu desejo.


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FONTE DA IMAGEM: www.nopontoaromas.com.br