sábado, 1 de janeiro de 2022

CABEÇA, CORAÇÃO E MUNDO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - XVI

 

 CABEÇA, CORAÇÃO E MUNDO



SÉRIE: PENTALOGIAS DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS


Doravante a série de cinco poemas produzidos durante a semana será postada aos sábados. Começo hoje por crer que não será possível sábado que vem.

E Clarice Lispector disse: Acho que sábado é a rosa da semana. Então vamos confiar na intuição da grande escritora brasileira do meado do século passado.

Se sábado e a rosa da semana, Pétalas semanais precisam ser compartilhadas ao sábado. E a primeira postagem do que provavelmente vai fazer parte do segundo e-book da série. Se você ainda não baixou o primeiro, no final da postagem haverá um link.

Dois poemas são inspirados em Lira dos Vinte Anos de Alvares de Azevedo. Eu os classifico como distopo-góticos, pois eles saem da atmosfera medieva do gótico britânico e se ambienta no caos distópico. Eu não estou mais, representa bem esta singularidade em meus poemas.

Espero que você se entretenha com minha pentalogia desta semana.


PÉTALA SEMANAL – I
 
A SENHORA INGRATA
 
Sempre fico tenso
Quando não posso
Falar o que penso
Fazer o que gosto.
 
O verso que esboço
Ficou sem uma rima
Ainda assim aposto
Na minha obra-prima.
 
Se no mundo encosto
É porque me canso
Pois à beira do fosso
Toda noite eu danço.
 
Eu faço meu esforço
E não tenho preguiça
Mas se trinca o osso
Meu corpo enguiça.
 
E de perto eu vejo
A senhora ingrata
Com foice e o beijo
No abraço que mata.
 
 
 
PÉTALA SEMANAL – II
 
DURMA E SONHE
 
Durma, não acorde para a vida
Que viver é carregar todo peso
Pela cidade, labirinto sem saída
Alma despida
No corpo agreste
Coberto de veste
E desprezo.
 
Durma e sonhe com o paraíso
Inexistente diante de todo olhar
A realidade é apenas improviso
Um aviso
A qualquer navegante
Sobre o azul inebriante
Do mar.
 
Durma na relva e se deixe ficar
Sob o olhar maternal desta lua
Sendo amante do poeta a vagar
De bar em bar
Sem saber o que procura
Evitando que a loucura
O destrua.
 
 
 
PÉTALA SEMANAL III
 
EU MORO NA CABEÇA
 
Eu moro na cabeça de todo mundo
Eu moro na minha, eu moro na sua
Eu me sinto perdido no espaço
Se você estiver com a cabeça na lua.
 
Eu moro na cabeça de todo mundo
Que me vê, que me sente
Ao lembrar o nosso passado
Ou tentar se livrar do presente.
 
Eu moro em tantas cabeças diferentes
Em algumas sou objeto, noutras gente
Em alguma sequer eu tenho cérebro
Em outras às vezes eu sou inteligente.
 
O que eu estou fazendo na sua cabeça?
Expelindo um best seller ou no banho?
Você me conhece ou eu ainda sou estranho?
Não me responda que não é da minha conta
Cuidado, a loucura às vezes apronta.
 
Eu moro na cabeça de quem me lê
E às vezes eu me ausento da minha
Vou para longe em um voo suicida
Kamikaze em uma guerra perdida
Um trem sem freio saindo da linha.
 
Não me expulse da sua cabeça
Ainda que eu seja um parasita
Ainda que eu seja um invasor
Dela minha história necessita.
 
 
PÉTALA SEMANAL – IV
 
EU NÃO ESTOU MAIS
 
Não procure pelo meu ser
Na rua que o neon ilumina
Não sinto mais dor e prazer
Não dobro mais a esquina
Preciso te dizer
No mundo que parou
Por falta de gasolina
Eu não mais estou.
 
Não busque minhas pegadas
Na areia oleosa da praia
Nem sombra sobre calçadas
Em uma cidade que nos caia
Pelas estradas
Do mundo que parou
No calendário maia
Eu não mais estou.
 
Não se ocupe mais comigo
Eu não durmo e nem como
Não preciso mais de abrigo
Nem água fresca eu tomo
Nem me irrigo
No mundo que parou
No Y cromossomo
Eu não mais estou.
 
Prossiga com nossas metas
Atinja os nossos objetivos
Tenha filhas, também netas
Viva entre os que estão vivos
Siga sendo correta
No mundo que parou
Nos arrotos nocivos
Eu não mais estou.
 
Faça o melhor que puder
Agora que tudo deu errado
Eu confio em você, mulher
O humano ficou assexuado
Maria sem José
No mundo que parou
Na falta do Estado
Eu não mais estou.
 
No futuro eu ainda te amarei
No sem-tempo, no sem-espaço
No sem mandamento e sem lei
Sem um beijo, nem um abraço
Disto eu sei
No mundo que parou
No meio da highway
Eu não mais estou.
 
 
PÉTALA SEMANAL – V
 
PÁSSARO APRISIONADO
 
Um coração desesperado
Jogando-se contra a costela
Como se cada osso frágil
Fosse grade de uma cela.
 
É um pássaro aprisionado
Na miudeza de uma gaiola
Que teve seu canto calado
Por uma tristeza que o isola.
 
Mas seu voo rumo ao infinito
Cintila dentro do peito aflito.

 

Feliz 2022!


 E-LIVRO

(VOLUME 1)

BAIXE SEU EXEMPLAR

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

O VIVER EM VINTE VERSOS: AMIZADES EM TEMPOS DE PANDEMIA (COLETÂNEA)

 



O VIVER EM VINTE VERSOS

AMIZADES EM TEMPOS DE PANDEMIA

PROJETO APPARERE

EDITORA PERSE

NOTA DO BLOG:     A série de resenhas Vinte Versos se redenominou-se O VIVER EM VINTE VERSOS 

O Projeto Apparere ofereceu aos participantes das suas coletâneas mais uma oportunidade de refletir sobre a pandemia. Lembro que em 2020 uma delas abordou o mundo após ao flagelo de uma doença que se espalhou rapidamente. Agora temos um olhar focado nas relações de amizade. Os versos garimpados de poemas entre contos e crônicas revela a diversidade entre os que perderam amizades para a Covid-19 e aquele que estão na espera do fim para reencontrar e abraçar os amigos. Há também os que nos lembraram do quanto importante foi os recursos virtuais para que amizades fossem mantidas, sabendo que nada substitui o encontro presencial, pois o amigo tem aroma de fé. E a imagem pelas salas virtuais trazia a imagem mas não o cheiro de gente.

 

A interpretação dos versos são pessoais no meu exercício de resenhar a partir de vinte versos escolhidos. E escolher não é fácil. Muitos poetas poderiam ter sido citados aqui. Mas a proposta da série O VIVER EM VINTE VERSOS nos deu o árduo exercício de fechar em apenas vinte.

 

 

 

A amizade é remédio pra alma

POEMA: AMIZADE NA PANDEMIA

POETA: ALESSANDRO LOPES SILVA

Como a coletânea nos remete a uma pandemia, nada melhor do que falar em cura, que ainda não existe uma vez que vacina é prevenção e não cura. O poeta propõe a amizade como cura. Ele relembra momentos em que amizades podem ser tecidas como no ponto de ônibus. Algo mais complicado quando há uma doença contagiosa pelo ar, nos obrigando ao isolamento social.

 

Nem todos resistiram acumulando dor e saudades

POEMA: AMIGOS DO LADO DE LÁ

POETA: ARAI TEREZINHA BORGES DOS SANTOS

Com este verso Arai no coloca uma realidade que entristeceu e enlutou várias famílias pelo mundo. A perda do amigo que foi para o lado de lá. Mas a frente outros participantes da coletânea também mencionam a perda de pessoas queridas.

 

Presos na liberdade

POEMA: ÊXODOS

POETA: CÁSSIO CHARLES BORGES

Partindo da construção do paradoxo, o poeta reflete que presos, cada um em seu quadrado, há um êxodo. Não no sentido de sair, mas de ficar, apesar da liberdade.


Amizade e cumplicidade

POEMA: ABRAÇOS

POETA: FERNANDA PIRES SALES

O abraço, não recomendado por questões de isolamento social, é símbolo da amizade e, sobretudo, de cumplicidade. A espera pelo fim da pandemia para reafirmar no abraço o símbolo maior faz relembrar os sorrisos dos amigos.

 

Fico perdido no torvelino dos meus sonhos

POEMA: DESEJOS OCULTOS

POETA: FILEMON KRAUSE

Como todo o poema é construído com figuras fortes, o primeiro verso fala de eu-lírico perdido no redemoinho dos seus sonhos. Poeta adora sonhar.

 

—Poucos são muitos

POEMA: SE FOI, MAS FICARÁ PRA VIDA TODA

POETA: FRANNCIS ANTUNES

Neste poema que reflete sobre singularidades das amizades, onde poucos são muitos, temos a certeza que amizade não é tempo e nem espaço. É algo que cabe apenas nos sentimentos.

 

Eu preciso de um amigo que me entenda no silêncio.

POEMA: UM AMIGO ASSIM, EU PRECISO

POETA: GIBSON JOSÉ DE SANTANA

Amigo é aquele que entende o outro não só pelo que fala, mas especialmente pelo silêncio. Gibson José de Santana coloca muito bem neste verso o viver profundo de uma amizade.

 

O mapa mundi chorou! De repente tudo ficou Saara

POEMA: AMIZADES PANDÊMICAS

POETA: IVAN DE OLIVEIRA MELO

Uma figura interessante usada pelo poeta é a do deserto mais citado como metáfora para a aridez das relações que a pandemia nos impôs. Mais uma vez o poeta flerta com as figuras de linguagem para enriquecer o seu poema.

 

Nesse manancial de histórias

POEMA: BAILE DE MÁSCARAS

POETA: JANDEILSON GALVÃO BEZERRA

Todo ser humano é um manancial de histórias. Histórias que há no eu-lírico e em todos, mesmo sob máscaras.

 

Para escrever sua verdadeira história

POEMA: EM MEIO À PANDEMIA!

POETA: JOÃO LIBERO

A verdadeira história, em um diálogo ao acaso com o poema anterior, não é a que está sendo, ainda hoje, escrita por esta pandemia. Mas quando esta vírgula no tempo passar e os reencontros acontecerem. A verdadeira história será retomada.

 

Skype, Face, Meet...

POEMA: AMIZADES EM TEMPO DE PANDEMIA

POETA: JOSÉ LUIZ TEIXEIRA DA SILVA

O verso é simbólico por fazer menção das ferramentas que tanto usamos para trabalho e eventos. Sem estás ferramentas para nos proporcionar algo que seja online, teríamos ficados em nossas casas, isolados em um mundo adoecido.

 

Essa amizade é meu eu que se perdeu e retornou

POEMA:VELHA AMIZADE

POETA: LEILA SOUSA

Há neste poema um plot twist por se dizer quando a amizade perdida é a do eu com o eu. Ou seja, a pandemia proporcionou que as pessoas se encontrassem consigo no seu isolamento ou com sua família. Quantos casais se descobriram mais apaixonados ou perceberam que o relacionamento entre eles era mera encenação. Mas antes disto, o principal encontro foi o que cada um teve o seu verdadeiro eu.

 

Na internet todos mentem bem.

POEMA: A GENTE DÁ UM JEITINHO

POETA: LEONARDO FERNANDES LANDIM

Uma realidade nua e crua em que o poeta usa para este verso. O jeitinho que temos para dizer que estamos bem. A edição da imagem, o querer parecer bem, foi uma constante nos encontros virtuais.

 

 

fica este amargo vazio pela falta absoluta do seu olhar.

POEMA: 2021.03.24

MARCEL LUIZ

A falta de quem partiu. O poeta fala de alguém que viveu pouco. A data deve ser referência ao dia da partida de alguém muito querido por ele. Dos Santos é quem deixou o vazio amargo. A perda das pessoas, e a economia não foi salva, vai ser um amargo vazio na história de casais e famílias ao longo do tempo. E nada vai preenchê-lo, nada vai curá-lo.

 

O véu sobre mente balança ao vento entre a ilusão e boletins médicos.

POEMA: ESPERA

POETA: MARLENE ARAÚJO

É o título de poema que mais me encantou na coletânea. E a espera aqui não é pelo fim da pandemia, mas a espera pela cura ou pelo desfecho não desejado. Por isso a conjugação do abstrato (ilusão) com o concreto (boletins médicos) dá ao verso de Marlene Araújo uma construção ímpar que gosto e uso em meus poemas quando possível.

 

 

Além da endorfina

POEMA: ISSO É AMIZADE

POETA: MIGUEL FORTES

Aqui também se aplica a observação anterior. É a química da amizade, do encontro, ainda que virtual, dando concretude à amizade. Mas o verso diz, não é somente algo orgânico representado aqui por um dos hormônios do conforto.

 

A dita quarentena ajustou as “antenas”

POEMA: AS VERDADEIRAS

POETA: PATRICIA DE CAMPOS OCCHIUCCI

Fantástica a construção do verso. A quarentena que faz cada um encontrar consigo fez um ajuste de antena, de sintonização, do que realmente somos, na nossa pequenez e nos nossos grandes sonhos.

 

 

Silentes cientes carentes

POEMA: S.O.G.I.M.A

POETA: PAULO FLORES

Neste verso o poeta revela como as pessoas estão ficando. Em silêncio, ciente do que está no mundo e da nossa limitação humana e carente do encontro com o amigo. O mundo pareceu durante os tempos de pandemia um estonteante cubismo.

 

Amigo é aroma de fé

POEMA: ROCHA MORADA

POETA: PAULO ROBERTO SILVA

O amigo tem cheiro de Deus. Revela algo que não podemos explicar mas que sabemos que está nos confortando nos momentos difíceis das nossas vidas. Gostei muito desta definição de amigo trago aqui por Paulo Roberto Silva.

 

E nos abraçamos no brilho do olhar

POEMA: A LEI DA DISTÂNCIA

POETA: RAFA JOSÉ

Abraçar no brilho do olhar foi o possível na prevenção do contágio. O olhar revelava alegria e tristeza. A leitura dos olhos dos outros, e começamos a ficar especialistas nesta linguagem, é que dava a dimensão dos dramas vivenciados e das alegrias proporcionada por reencontros. E mesmo na virtualidade, dava para saber o que se passava dentro de cada um mirando naquilo que é a janela da alma, os olhos.


LINK PARA VINTE VERSOS

TODO MUNDO ESTÁ EM CASA?!

SOBRE O LIVRO

Nota do blog: Temos dois exemplares caso alguém se interesse.

Link Pela Editora

PERSE



MINHAS LEITURAS PARA 2022

 

MINHAS LEITURAS PARA 2022

 

(imagem obtida em buscas na internet)

Fim de ano é tempo de fazer lista de desejos para o ano seguinte. Tenho visto youtubers que comentam livros fazerem suas listas de calhamaços para 2022. Ainda não vi a lista de Yuri Al’Hanati do canal Livrada, que eu mais sigo. Assim mando aqui a minha lista de livros físicos. Há ainda os livros da minha biblioteca da Amazon e da Google Play livros (Na maioria acesso gratuito), e os que conseguir em e-book para fins de estudos, livros que troco com recantistas, antologias em que participo, livros de autores regionais (principalmente de Mutum). Subsídios para meus roteiros, resenhas, etc...

 

Na lista há livros que quero terminar a leitura como O Evangelho de Tomé, de José Aristides. Outros são releituras como alguns contos de Caio Fernando Abreu e em dezembro, mês apertado.

Começo o ano com a Trilogia do Josés (José Ronaldo, José Wilker e José Aristides), Há um calhamaço no meio do caminho, no meio do caminho há um calhamaço” do maior biógrafo brasileiro de Karl Marx. Fecho o ano com releitura de Frankenstein.

 

JANEIRO: ATLAS ANATÔMICO PARA ALMAS PUÍDAS – José Ronaldo Siqueira (Terminar leitura)

FEVEREIRO: COMO DEIXAR UM RELÓGIO EMOCIONADO – José Wilker (Prefácio de Frei Betto)

MARÇO: O EVANGELHO DE TOMÉ: A OUTRA FACE DE JESUS – José Aristides da Silva Gamito. (Terminar leitura)

ABRIL1: FILIGRAMAS (POETRIX) - Beth Iacomini

ABRIL 2: A OUTRA - Neusa Jordem Possati (Crônicas) Terminar leitura.

MAIO: WIELAND OU A TRANSFORMAÇÃO – Charles Brockden Brown. (1º Romance Gótico dos Estados Unidos)

JUNHO: MITOLOGIA NÓRDICA – Neil Gaiman

JULHO: KARL MARX – José Paulo Netto (Biografia – Calhamaço) Subsídio para a peça OS VIZINHOS DE MARX.

AGOSTO: CONTOS COMPLETOS – Caio Fernando Abreu. (Alguns contos como releitura).

SETEMBRO: OUTSIDER – Stephen King.

OUTUBRO: PENUMBRA – André Vianco (terminar leitura)

NOVEMBRO: VHS: VERDADEIRAS HISTÓRIA DE SANGUE – Cesar Bravo. (Terminar leitura)

DEZEMBRO: FRANKENSTEIN – MARY SHERLEY (Releitura)

 Se der você poderá conferir as resenhas na série À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI.

No final do ano a gente comenta o que foi possível e o que não foi. Qual a sua lista?

domingo, 26 de dezembro de 2021

À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI: OPERAÇÃO MUTUM

TEM COISA ERRADA NESSA HISTÓRIA TODA

 

Série de Resenhas: À Sombra De Um Cedro Eu Sentei e Li

Livro: OPERAÇÃO MUTUM

Autor: José Araujo de Souza

Gênero: Romance histórico

Ano de publicação: 2016.

Editora: Amazon (e-book)

 

            Não é que a história de Operação Mutum, escrita por José Araujo de Souza esteja errada. Não há nada de errado nela. Aliás, em se tratando de romance histórico, assim eu o classifico, ele acerta de mão cheia. Cumpre a missão de uma narrativa longa, que vai além de um conto, imposta pelo argentino Júlio Córtazar. Golpeia o leitor a cada capítulo e nos vence por pontos no final da luta.

            Quem acha que sempre tem coisa errada é o personagem mais emblemático que encontrei na obra. Manfredo Kurt, como chefe do repórter que volta em sua terra natal para cobrir um possível sumiço de bombas após caírem de um avião é quem vai cutucando o narrador para que ele busque a notícia, e se possível, o furo de reportagem. É o mesmo alemão que o instiga a escrever o livro que temos em mão, ou seja, na tela do computador ou do celular através da Amazon.

            Enquanto romance histórico, o autor nos enriquece com detalhes da história do Brasil e busca fatos além das fronteiras, como o incidente de Palomares, na Espanha.

A contextualização no tempo se desenvolve em três momentos. Ela começa pela voz do narrador em 31 de agosto de 2016. Ele, de seu apartamento em Belo Horizonte, vê-se diante de um momento que será um divisor de água na história recente do país quando encerrou-se a sessão no congresso em que o senado concluiu pela culpabilidade da então presidente da República Dilma Rousseff.  Volta para Mutum nos anos 70 em que os fatos da primeira camada do romance se dá. E com recortes das lembranças do narrador que nos remetem à sua infância e adolescência na cidade interiorana de Minas Gerais.

            Vemos uma Mutum nos anos 70 com todo o contexto de uma cidade interiorana. Com a vida social girando em torno de uma pracinha e bares. Dois dos bares são cenários para a conversa e distração, reunião para assistir um final de novela, aparelhos de tevê não havia em todos os lares, certamente, para o jogo de futebol, que só passava do Rio de Janeiro e de São Paulo, ou para a notícia. Sob o chumbo dos anos ditatoriais, Mutum se vê em uma trama onde o povo simples da barbearia, do bar, do dia a dia, acaba sendo apenas figurante. Um e outro teve a sorte de se envolver mais a fundo, como o fotógrafo que o narrador contrata para registrar com a luz os fatos. Um “Catarina” forasteiro que passou a gostar de viver entre nossas montanhas e ajuda na caça pelos artefatos.

            As lembranças em forma de causos que o narrador vai permeando com a história principal dá aquele refresco aos olhos do leitor, trazendo aqui e acolá narrativas, que se isoladas seriam bons contos, se espalhando pela dramaticidade da vida de diversas formas, mas todas têm uma pitada de Nelson Rodrigues.

            Enquanto seu amigo de infância, Clemente, vive a traição de sua namorada com um soldado, o que culmina em homicídio e prisão do mesmo, para tristeza da sua mãe, a adolescente Mirtes é afogada em sua sexualidade pela burguesia que vê nela a oportuna saciedade dos seus apetites carnais.

            Acompanhamos através da lembrança do narrador uma história singular. A história da sereia Totonha e fatos típicos de adolescência que lembra, ainda que de longe, os garotos e a garota de It, A Coisa. No entanto, o destino reservou uma vida adulta para Antonia nada confortável. Vemos nesta história o rapaz de classe mais favorecida querer saciar-se da pobre menina e se dando mal.  

            Em algumas destas lembranças o narrador é protagonista ou envolvido mais a fundo. Com Alice, a companheira Duarte, e no encontro com Marta, primeiro garota e depois mulher, dona de uma determinação ímpar.

            Por se tratar de uma ficção histórica, o autor, sabiamente, nos deixa com pouquíssimas ferramentas para diferenciar o que é fato e o que criação narrativa em seu texto. E eu, que tenho vontade de colher o maior número possível de informação sobre o passado da minha cidade, fico por hora só com as anotações.

            E apesar de ter neste momento um meio de contato com o autor, preferi não fazê-lo para passar somente minhas impressões. Evitando assim macular minha resenha de possíveis leituras vindo de fora.

            Confesso que fiquei surpreso com o ritmo que os fatos vão tendo no final. É um plot twist dentro do plot twist mais amplo. Depois de passarmos a maioria do capítulos acompanhando a saga das forças armadas atrás de quatro bombas, descobrimos que Manfredo Kurt com sua intuição tão necessária ao jornalismo investigativo estava certo, tinha mais coisas. E a traição do Lobo, o Sílvio, foi o arremate final para dar aquele golpe sacramentador em uma luta vitoriosa por parte do autor.

            Em Operação Mutum nosso encanto no canto de Minas está para a ficção assim como o Vale do Ribeira está para a história do Brasil. Sargento Flores, (Comandante Mário/Paulo Otávio) é o Lamarca desta luta que José Araujo de Souza trouxe para as paragens do antigo contestado. Sendo estes fatos talvez o último suspiro de uma utopia.


LINK PARA ADQUIRIR O LIVRO

OPERAÇÃO MUTUM NA AMAZON


LINK PARA OUTRA RESENHA DA SÉRIE

À SOMBRA DE UM CEDRO EU SENTEI E LI

À SOMBRA DE UM IMBONDEIRO

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

VINTE VERSOS: TODO MUNDO ESTÁ EM CASA?! (COLETÂNEA)

 

VINTE VERSOS em 

TODO MUNDO ESTÁ EM CASA?!



 

OBRA: TODO MUNDO EM CASA?! Reflexões de um Pet (Coletânea).
EDITORA: PerSe (Projeto Apparere)
DESIGN DA CAPA: Leonardo Matoso

 

Esta é a primeira resenha da série. É normal, como aconteceu com Sete Face dos Poemas, em que procuro a relação de poemas diversos de uma obra, seja solo ou coletânea, com o Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade, aqui eu busco apenas comentar vinte versos a partir da sua importância dentro do poema e quais reflexões ou constatações que o verso nos provoca.

Composta por 51 textos diversos, temos apenas onze poemas compondo está coletânea. Ou seja, são dez poemas para 20 versos, uma vez que um dos poemas e de minha autoria. E como faço em resenhas de coletâneas, eu não incluo poemas ou contos de minha autoria nas minhas resenhas. O legal de termos apenas 10 poemas é que não precisei de deixar nenhum poeta de fora e a oportunidade de escolher dois versos de cada poema.

Fazer resenha de poemas em coletâneas, seja na série Sete Faces dos poemas ou Vinte Versos, é diferente de resenha de uma obra solo. Na obra solo a gente tenta achar a diversidade da literatura do autor, aqui busca-se a convergência entre autores diversos. Um coletânea com temática mais centrada, e sobretudo coletânea sobre o contexto singular da pandemia, esta convergência fica mais evidente. Na maioria dos poemas o eu-poético é o pet que persegue a mudança de hábito de seu dono, ou donos.

 

 

VERSO I

Até para cadelinha “Mel” que age feito gente.

ADRIANA FERREIRA DA SILVA// Mel, uma cadelinha moderna 

A poeta aqui começa nos apresentando a personagem do seu poema dizendo que o animal tem muito de humano. Ao longo da antologia vemos o antropomorfismo dando humanidade aos pets.

  

VERSO II

Desejar mais o que mesmo?

ADRIANA FERREIRA DA SILVA // Mel, uma cadelinha moderna

Este verso traz para o poema algo que lateje a mão do poeta enquanto escreve. O desejo é que move. Se Mel tem lar, água, comida, carinho e atenção, desejar o que mais? Saúde. Assim como os humanos.

 

VERSO III

Naquela nação distópica

ALBERTO DOS ANJOS COSTA // Desabafo 

O poema de Alberto dos Anjos Costa dialoga com o artigo de Sérgio Rodrigues de Souza, Brasil ou a Distopia Tupiniquim – Reflexões de um pet – Eu, Dr. Aslam Frederico. Ambos discorrem sobre decisões de caminhos que nosso país tomou como se fossemos um povo desajustado no tempo. Se na maioria dos poemas vemos o antropomorfismo, nos versos de Desabafo ocorre o inverso.

 

VERSO IV

que não escamoteia nossas imperfeições!

ALBERTO DOS ANJOS COSTA // Desabafo 

Aqui o poeta fala sobre nossas imperfeições que escondemos com nossos desabafos. E nós oscilamos entre o tudo e o nada. O isolamento social fez emergir muito do que somos.

 

VERSO V

o nome deve estar no serasa.

BRUNA LORENY DE OLIVEIRA // A humana enlouqueceu 

A poetisa coloca no falar de um gato o drama humano no que diz respeito à economia. A não pagar suas contas e as consequências para o dia a dia de muitos.

 

VERSO VI

Canta Tim Maia e bebe vinho, infelizmente

BRUNA LORENY DE OLIVEIRA // A humana enlouqueceu

A constatação do bichano aqui é sobre a carência afetiva que atingiu a muitos. A sua dona se revela carente e ele explica através dos seus atos. E lamenta.

 

VERSO VII

Ainda bem que ele sorriu e tirou logo aquilo estranho!

CINARA OM // Toby ahh...

Este verso revela mais uma constatação de um pet. A estranheza com as máscaras. Quando o ser humano sorrir e tira o apetrecho revela-se uma satisfação por estar em causa e poder afrouxar nas precauções que a pandemia nos trouxe.

 

VERSO VIII

Vamos respirar cada um da sua fonte cristalina...

CINARA OM // Toby ahh...

O que temos aqui é a busca para algo muito caro na pandemia causada por um parasita de transmissão pelo ar. E o respirar, uma necessidade, exige cuidado pois é no inspirar do ar é que podemos nos expor à contaminação. Aqui fica as reticências para a fonte não da respiração orgânica, mas da respiração existencial. Primoroso verso.

 

VERSO IX

Nossos donos mudaram seus hábitos

GIBSON JOSÉ DE SANTANA // Eles usam focinheiras

A mudança de hábito veio logo no título. E a focinheira (máscara) veio para todos. Independente se usam ou não black-tie. Mas alguns usam focinheiras que combinam e outros não. Os donos mudaram de hábitos, mas a sociedade com seus mecanismos de divisão nas condições não. É aqui o resenhista fazendo suas observações como se dialogasse com eu-poético do animal de estimação.

 


VERSO X

Focinheira para não morder...

GIBSON JOSÉ DE SANTANA // Eles usam focinheiras

A observação do eu-poético que se dirige a um outro cão no outro lado da rua, com focinheira para não morder os seres humanos revela uma contradição sobre os seres humanos usando focinheiras para não serem mordidos pelo vírus. Já que não se pode colocar focinheira no microrganismo, que coloquemos em nós.

 

VERSO XI

Comida!

GUILHERME BRASIL // A bolha

A exclamação aqui nos remete novamente a uma das preocupações humanas. Comida. Como alimentar a todos na pandemia? Como não deixar faltar o elementar para a sobrevivência humana? Mas elementar também para a sobrevivência de todos os seres vivos. Este verso se conecta com o último do poema que comentarei a seguir.

 

VERSO XII

e sua fome insaciável por alguma coisa nova.

GUILHERME BRASIL // A bolha

No belíssimo poema de Guilherme Brasil percebemos uma maestria singular ao repetir a estrofe por três vezes e revelando no penúltimo verso a memória curta do peixe de aquário, o eu-poético que tem uma fome, e aqui fica subjetivo de fome se trata. Na pandemia além da fome por alimentos, que, infelizmente, afetou a muitos, revelou também outras fomes. Ainda bem que tivemos a fome de fazer literatura em prosa e versos como as antologias do projeto Apparere nos revelam.

 

 

VERSO XIII

Nasci a poucos dias da quarentena

MARCOS ALVARENGA // Lingo em quarentena

A idade do animal é revelada logo no primeiro verso criando um contexto singular para o poema de Marcos Alvarenga. Há também crianças que nasceram no mesmo contexto. E o que era quarentena, virou anoena, e bienena, como viemos a constatar um ano depois dos poemas tão singulares como este terem nascidos para comporem esta coletânea.

 

 

VERSO XIV

Vou ter que aprender, apesar da solidão

MARCOS ALVARENGA // Lingo em quarentena

O eu-poético que tinha nascido a poucos dias de iniciarmos o distanciamento social vai ter que aprender a viver na solidão. O tema do verso, solidão, tornou-se interessante. Quem mora sozinho e se mistura ao dia, agora teve que amargar a solidão em sua casa. Mas há também os que preferem a solidão da rotina a viver se confrontando o outro na convivência em confinamento imposto. Cada um tem o seu jeito de se virar neste contexto.

 

 

VERSO XV

Será o paraíso?

NATY BRASIL // Pet contente

É uma pergunta distorcida, a princípio, feito em uma pandemia. Mas lembremos que se trata de um animal de estimação. E animais domesticados o paraíso é a presença humana para lhe dar comida e atenção. Animais de estimação que não fazem companhia para seus donos é como um brinquedo desprezado quando a criança cresce ou a convivência com alguém que não nos ama mais. Por isso a indagação. Para os animais, os donos em casa para ampará-los nas suas necessidades é indício de paraíso. E para quem também tentou ganhar dinheiro de forma desonesta, como revelou a CPI, também deve ter feito esta pergunta. Mas neste caso eles são parasitas sociais.

 

VERSO XVI

Estou torcendo para que se estenda

NATY BRASIL // Pet contente 

Aqui vai outra visão divergente. Enquanto o pet torcia para que a quarentena dos seus donos seja estendida ao máximo, a maioria dos seres humanos, ainda que por motivos diferentes, torcia para que a pandemia passasse logo.

 

VERSO XVII

Lembro de quando me resgatou na rua

TARIQUE LAYON LIMA VILHENA // Memórias de um ex-vira-lata

O eu-poético, lembre-se de que se trata sempre de um pet, vive suas memórias de cárcere feliz, pois para um animal de estimação é melhor a limitação de uma casa ou apartamento que o abandono nas ruas onde se caça em uma selva de concreto. Portanto ser levado por alguém é ter a possibilidade de se alimentar e se proteger das intempéries.

 

VERSO XVIII

Será que você fez algo de errado?

TARIQUE LAYON LIMA VILHENA // Memórias de um ex-vira-lata

O eu-poético tem vontade de dialogar com seu dono e saber porque ele mudou de hábito? O verso XVIII dialoga com o verso IX. Neste contexto não é de reprovação, mas de preocupação. Ele não entende sobre as exigências do isolamento social e ainda que ache melhor o dono ficar em casa, gostaria de saber a causa da mudança de hábito.

 

 

VERSO XIX

Não sei bem o motivo.

VERONICA STIVANIM // Não deveria ter crescido

Seguimos com versos que expressam a dúvida dos animais domésticos diante da mudança repentina que a pandemia nos impôs. Logo no primeiro verso a afirmativa do pet. Não sabe o motivo pelo qual seu dono está mais em casa.

 

VERSO XX

É só do seu amor que eu preciso.

VERONICA STIVANIM // Não deveria ter crescido

Com este apelo feito pelo eu-poético a seu dono é a síntese de todos os versos dos poemas desta coletânea, e de alguns textos em prosa também. É só de amor que eles precisam, com quarentena ou sem quarentena. O último verso do último poema da coletânea, da primeira resenha da série Vinte Versos não poderia ser outro. Verônica Stivanim acertou em cheio proporcionando fechar com chave de ouro tanto a coletânea quanto esta resenha.


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domingo, 5 de dezembro de 2021

SETE FACES DOS POEMAS em A HUMANIDADE PÓS PANDEMIA

SETE FACES DOS POEMAS em 

A HUMANIDADE PÓS PANDEMIA:

TODA LONGA HISTÓRIA EXIGE UM LONGO RECOMEÇO


COLETÂNEA DE POEMAS, CONTOS E CRÔNICAS
PROJETO APPARERE
EDITORA: PerSe
ANO: 2020

A Coletânea de poemas, contos e crônicas conta com 133 contos selecionados. Com a temática focada na realidade vindoura pós pandemia, sugestão de C. Jos Bravo, a 33ª obra do projeto Apparere tem a capa produzida por Marcelo Tau.

Considerando nosso objetivo de analisar poemas que apresentam ligações com as sete estrofes que compõe o Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade, procuramos nos textos em versos trechos que nos fazem lembrar desta pérola poética do “homem de Itabira”.

A maioria dos textos traz um tom otimista, ressaltando a descoberta de que a solidariedade se faz necessária, contrapondo ao tom pessimista e intimista de Drummond. Ainda assim há aquelas e aqueles que verão na nova humanidade velhas atitudes.

Como de praxe não analisei o poema de minha autoria, Reencontros, que também está na coletânea e que serviu de posfácio em Versos Infectantes: (Mó)mentos de uma pandemia.

O desafio será buscar nas reflexões dos colegas da coletânea conexões com a concisão de Drummond. Espero que eu possa contribuir com minhas singularidade na expansão dos objetivos de cada autor(a) mencionado(a).

 

FACE I

 

Nossa íntima natureza nos revela:

que a essência é selvagem,

de instintos primitivos.”

Alberto Dos Anjos Costa // Íntima Natureza.

O poeta nos revela que podemos ter instintos primitivos como uma predestinação, que ao mesmo somos também o cultivar do amor sublime. Esta é os dois lados da moeda que trazemos. Qual anjo ouvimos?


Me apresso em tatear o meu sentir,

esmoreço

pois, percebo que não guardo esperanças em meu coração.”

Illana Mascarenhas // 2021 d.C.

O gauche, como metáfora do estranho, assume aqui toda sua agonia a sentir-se esmorecendo diante do futuro nebuloso, visto nos olhares humanos. Impressões parecidas com a do poeta itabirano ao observar a cidade.

 

E com cada destroço, iremos reconstruindo um novo mundo.”

MARCELO CANTO // Quando Tudo Passar

As notícias desanimadoras faz com que não o poeta, mas o mundo seja o gauche da história. Cabe ao poeta ver a possibilidade de um mundo novo a partir dos destroços.

 

Sou gerúndio da casualidade

Bicho do mundo mudado

Andarilho sem estrada

Intrépido assustado

MARCUS DEMINCO // Bicho do Mundo Mudado

A relação é o cunho autobiográfico de um eu-lírico. Ser gauche na vida é como andar sem estrada, vivendo de casualidades.

 

Nasci pobre

Desprovido de ouro

Um fato de nascença

Uma longa história

NATÂNI DA SILVA // Berço?

Aqui o eu-lírico começa se apresentando o seu eu desde o nascimento como em Sete Faces. Qual a diferença entre nascer pobre e ouvir um anjo que vive nas sombras? Os dois fatos marcam uma longa história para ambos.

 



FACE II

 

Quando tudo isso acabar,

Vou fazer um jantar pra nós dois

Vou te esperar para jantar

E fazer amor depois

ALINE ÁGUIDA LIMA // Meu Bem Querer

A busca pelo amor presente a esperança de poder reencontrar o amado após a pandemia. É o desejo presente, o mesmo dos homens que correm atrás das mulheres.

 

A mulher em casa encara

O poço

Dos olhos do marido

Em água viva

JULIANA FALCÃO // Água

O ambiente nesta estrofe sai da rua e vem para dentro da casa. A mulher assume o papel de observadora do marido. A observação das buscas e o papel feminino nesta relação ganha neste poema um contexto mais atual que em Sete Faces.

 

Hoje, sei que não posso

Ter o teu abraço

Mas para mim, és a essência

Que deixastes laços

ROBERTO PAIXÃO // Poema Pandêmico

A busca aqui não é a corrida atrás das mulheres, mas espera pelo tempo pós pandêmico para reencontrá-la. Quem sabe para um jantar a dois, conectando com o poema acima de Aline Águida Lima e uma música do Kid Abelha, Por que não eu?

 

 

FACE III

 

Seremos quem sabe mais digitais,

Nem por isso mais presentes.”

CAMILA DE ARAUJO CABRAL // Reflexões Sobre O “Novo Mundo”

As reflexões sobre o novo mundo de Camila de Araujo Cabral vai de encontro ao sentimento expressado por Drummond quando se sente desconfortável com tantas pessoas e sua solidão. O alerta da poeta aqui está ligado ao sentimento de Carlos na sua condição de gauche.

 

Estamos conectados, mas ainda solitários.

Somos modernos e mal-humorados.”

EDUARDO CALDEIRA // E Se Pudéssemos Voltar No Tempo?

As pernas no bonde pode aqui ser substituídas pelos rostos na tela em vídeos-conferências tão usuais em tempos de home office. Mas a solidão é a mesma, insubstituível.

 

Cenário difícil, Ambiente poluído, Planeta lotado,

Sociedade desigual.

FÁBIO SANTOS // Antropo Cena

A percepção de Drummond quando pergunta a Deus porque tantas pernas é uma constatação de que o planeta (cidade) está lotado, gente demais que deixa o poeta desconfortável.

 

A engrenagem não pensa nem tem escrúpulos

MAURO EUSTAQUIO PEIXOTO // Literat Alucina

A observação em Sete Faces é de uma engrenagem urbana funcionando. Aqui temos a adjetivação desta engrenagem dando a ela comportamentos humanos, uma vez que são os poderosos que criam tal maquinaria do sistema.

 

Pandemia, anemia da saúde, anemia social!

Social sem sociedade?

Sociedade dispersa!

MICAEL ARAÚJO ANDRADE // Anemia Social

O poeta aqui analisa a sociedade na qual Drummond estava observando em seu poema. É uma dispersão sistêmica que nos leva à conclusão de que o poeta observa separações na multidão.

 

Nunca se olhou tanto para ruas vazias,

Nunca se viu tanto luto na rua.

VERONICA STIVANIM // Ressignificação

Este cenário é o que Drummond teria se estivesse hoje conosco, passando pela singularidade de uma pandemia. Ruas vazias em vez de tantas pernas.

 

 

FACE IV

 

Um Planeta diferente

Bem mais resiliente

ALESSANDRA DE AZEVEDO COSTA CALIXTO // Pós Pandemia

Resiliência é a conexão entre este poema e Drummond com seu homem atrás do bigode, sério. A vida adulta, sem extravagância. Sem poluir e poluir-se e mais cuidadoso com a saúde. Para a poeta nos tornaremos mais adultos a partir da pandemia. Tomara que ela tenha razão.

 

Olho e vejo...

ELIZABETE BASTOS DA SILVA // Olhar – Esperança!

O homem atrás do bigode termina a estrofe também sendo o homem atrás dos óculos que olha a cidade e agora vê com seriedade a cidade assim como a poeta olha e vê o medo, a insegurança, a doença, o caos, a desigualdade. E nas demais estrofes ela vê muito mais. Mas há esperança, talvez com a maturidade do poema anterior poderemos ter esperança.

 

Resiliente é muito mais que

Excelente?!

MÁRCIO ANDRÉ SILVA GARCIA // A Quarentena Ensinou A Amar

É como se o poeta aqui dissesse para o poeta do Poema das Sete Faces que era preciso amar. Ninguém deve ser esquecido. Há também um diálogo com o primeiro poema desta face em que o nosso aprendizado sobre o amor vai fazer o Planeta ser diferente.

 

 


FACE V

 

É isso, só pode ser visto por aqueles que enxergam um novo Éden.

ADRIANO BESEN // Manifesto Da Nova Era

A conexão com Drummond em sua quinta estrofe se dá pela linguagem bíblica. Mas há uma contraposição. Drummond evoca a imagem do Calvário e o poeta aqui evoca um novo Éden a ser visto somente por aqueles que têm fé.

 

A vida não é só um sopro

GIOVANA FERNANDES LEITE // Memórias Futuras

A poeta quer que nós, mesmo nos sentindo abandonados, podemos ser mais, procurar mais e lembrar que viemos do sopro, nós somos mais que sopros, mais que corpos.

 

PÓS PANDEMIA, QUEM SOU?

Quem se permitiu mudou,

Tornou-se um ser humano melhor,

MALU DIONÍSIA // Pós Pandemia, Quem Somos?

Somo fracos, abandonados? Não somos deuses. Mas como humanos podemos mudar, tornar-se melhor. A pandemia nos proporcionou um momento de lamentos. A pergunta quem somos certamente foi feita por todos nós. Uns buscaram crescimento, outros se entregaram.

 

mais bela que a Babilônia!

OTÁVIO BERNARDES // Somos O Farol Do Mundo!!

A Babilônia do cativeiro é a Babilônia que faz lembrar das verdes pastagens. Aqui temos mais que verdes pastagens, temos a Amazônia. Não é preciso ir para Pasárgada. É preciso ficar em lutar pelo nosso país. Esta é a mensagem do poema a partir de uma referência a um lugar em que o povo de Deus foi cativo.

 

Hoje oro pelo futuro que espero

Acreditando que a piedade divina

Ajude-me da vida que quero

SALVADOR ADDAS ZANATA // Gente É Bom

O poeta aqui é um eu-lírico religioso. Mas a piedade de Deus permite que Ele seja louvado e também questionado quando seu filho se sinta uma ovelha perdida.

 

 

FACE VI

 

Sobre o que falar?

Sobre essa situação claustrofóbica?

Sobre o que um vírus pode causar na humanidade?

Sobre soluções de chegada para ver quem pode lucrar?

FABERSON MAMEDE DA SILVA // A Clareza Da Minha Visão. Meu Olhar Dessa Situação.

O poeta aqui questiona o vasto mundo de Drummond. Agora a vastidão está passando por uma pandemia. Mas a sede de lucro visto na reflexão de Drummond em que a rima não seria uma solução para suas questões existências, aqui a dúvida é que vai lucrar no final? Ao contrário da poesia, a pandemia foi vista como possibilidade de lucro como vimos na CPI.

 

Mas, a visão de poeta

que bebe da vida

reverência as disparidades,

as lutas e as guerras

enraizadas no universo de cada ser.

JOELMA COUTO // Semente

A metalinguagem da sexta estrofe aparece aqui ao mencionar a visão do poeta que enxerga disparidades. Drummond é um ébrio quando se falar em beber da vida. Ele contrapõe o fazer poético com o trabalhar para a subsistência. O mundo pós pandemia segue vendo rendimentos financeiros acima de rendimentos culturais com a arte, bem mencionado no poema anterior.

 

Pois preferira pegar seu livro de poesia

E com ele começar as leituras do dia...

JULIANA PEDROSO BRUNS // A Cura – A Luz

Ana Julia, personagem do poema prefere a poesia. Mas naquele dia algo diferente estava acontecendo. Na vida de Carlos, o gauche, todo dia ele tinha que buscar a solução que não estava na rima (poesia). O vasto coração ainda que mais vasto que o mundo, precisa compreender a sociedade e o que há de relevante para não arriscar a sobrevivência. Ana Julia e Carlos estão no mesmo dilema.

 

 

FACE VII

 

O tempo veio, para dar tempo da gente se sentir,

E se revisitar,

Se reencontrar.”

GABRIELLE STUQUE SAMPAIO GROBLACKNER // Um Novo Mundo

Para Drummond, a noite é tempo de refletir. Este tempo também existe para a poeta, tempos de sentir, revisitar, reencontrar. A pós pandemia é a noite de Drummond. Ao contrário, para o poeta, a noite é que nos liberta, e não o dia que nos aprisiona na busca por subsistência.

 

Noites tristes de confinamento

Muito silêncio...

Muito pensamentos...

GILSON CLEMENTE // Covarde Covid

Na tristeza do confinamento é que podemos viajar nos pensamentos e pescar deles versos primorosos como tantos que fazem parte desta coletânea. Drummond sabe aproveitar a noite depois das observações de uma cidade com tanta gente, com tantos desejos, de saber que a rima não é a solução. Há uma realidade que o poeta aqui aponta e não pode ser menosprezada. A perda de amigos e a vontade que a vida se refaça. A poesia nos permite exprimir nossas noites tristes de diversas maneira. O silêncio tem sido gritante.

 

Será tempo de guerra, ou tempo de paz?

Tempo de crescimento, ou tempo de incerteza?

MARCO DI SILVANNI // Doce Delírio

Seria a noite de Drummond um doce delírio de deixar a gente comovido como o diabo? Partindo da ideia que a pós pandemia seria a noite de refletir e ver o mundo com mais clareza. Que tempos pandêmicos não se diferente de tempos cativos na normalidade, temos as questões levantadas pelo poeta daqui. Troquemos a palavra tempo por noite de Drummond. Sim, será tempo/noite de paz, de crescimento e, sobretudo, de poesia.



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