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sexta-feira, 7 de julho de 2023

DISCUSSÃO FILOSÓFICA SOBRE VINGANÇA




RESENHA: LITERATAQUE

RESENHISTA: ARYANE BRAUN

LIVRO: DUAS NOITES DE VINGANÇA

AUTOR: CLÁUDIO ANTONIO MENDES

Olá leitores queridos!


    Hoje trouxe mais uma resenha para vocês conferirem. O livro da vez é do escritor Cláudio Antonio Mendes, e trata-se de um livro de contos.

CAPA DA 1ª EDIÇÃO

    Em todos os contos a morte acontece, há contos em que o sobrenatural age ou até mesmo ele misturado ao que chamamos de realismo fantástico, eu diria. Gostei de todos os contos, achei-os criativos, uns mais e outros menos.
    O meu conto preferido foi o que dá nome ao livro, nele, uma mulher uma mulher se vinga de seus ex-colegas de estudo, após ser humilhada numa noite de sexo casual entre eles. Esse conto traz uma discussão filosófica sobre a vingança, nos fazendo refletir se ela vale a pena ou não.
    Também gostei muito do antepenúltimo e penúltimo conto, nele o autor puxou para o lado da fantasia e criou novos seres que representam perigo aos seres humanos, são descendentes do povo viking e tem hábitos alimentares muito bizarros. Andam disfarçados de góticos para abocanhar as suas presas.
    Os contos são uma leitura fluída e prazerosa para quem gosta do gênero terror, eu diria ainda que uma ótima alternativa para quem busca sair de uma ressaca literária.
    Vou ficando por aqui, não esqueçam de dizer o que acharam da resenha nos comentários. Para quem quiser adquirir o livro, o e-book está disponível no site da AMAZON.

ARYANE BRAUN



CAPA DA 2ª EDIÇÃO


LIVRO NA EDIÇÃO VISEU

DUAS NOITES DE VINGANÇA





quinta-feira, 29 de abril de 2021

OS ESCRITOS DO ODIADO

 


Ele se isolava e era detestado. Na vila próxima de onde morava sentia-se um leproso andando pela rua, todos o evitavam. Precisava sair dali, mas algo o prendia naquele lugar horrível, entre as montanhas de um canto de Minas Gerais que parecia perdido no tempo.

Sargento era seu cachorro fiel. Dormia com ele, almoçavam a mesma comida, acompanhava-o nas caçadas e no trabalho no pequeno sítio de dois alqueires que herdou do pai. O casebre era mal faxinado. Sujeira e falta de higiene. O odiado, já lhe chamavam assim, passava três a quatro dias sem se banhar. Caprichava um pouco quando dava um pulo até a cidade. Havia um velho ônibus apenas duas vezes por semana. Recebia sua aposentadoria e comprava poucas coisas. O necessário. Sua casa sem energia elétrica, sua água de uma mina próxima da sua morada. Tudo simples, tudo rústico.

Duas caixas de madeira, daquelas antigas, onde guardava coisas. E serviam de assento também. Em uma delas as escassas peças do seu vestuário, na outra os cadernos.

Nesses cadernos ele escrevia suas histórias arrancadas da sua desacreditada imaginação. Histórias que ninguém lia e ninguém era capaz de imaginar que ele conseguia tal proeza. Tinha sido alfabetizado até o terceiro ano quando pegou raiva da escola onde os outros garotos gostavam de tirar sarro da sua cara emburrada.

Mas leu a Bíblia inteira três vezes. Lia tudo que lhe chegava às mãos. Escrevia muito bem apesar dos tropeços na gramática. Escrevia pela tarde.

fonte: da imagem: http://terrorcontos.blogspot.com/

Houve uma noite, um bando de garotos drogados e a péssima ideia de colocar fogo na casa dele. Ele dormia. Desmaiou sufocado pela fumaça e morreu carbonizado. Quase tudo foi queimado, exceto a caixa de madeira com os cadernos. O cachorro ficou, farejava tudo e parecia vigiar o pouco que sobrou. Dormia sobre a caixa.

Lucas, um garoto perspicaz, na manhã seguinte passava pela estrada, ouvindo os latidos do cachorro solitário, teve a curiosidade visitar os escombros do casebre. Pegou para si os cadernos do velho homem queimado covardemente. O cão parecia não se opor, mas o acompanhou até a sua casa.  Ele leu e entendeu que se tratava de histórias interessantes. Precisava trazer à tona o talento do homem mais odiado da vila. Com ajuda da Secretaria de Cultura, conseguiu publicar uma coletânea das histórias mais interessantes. Foi às escolas, deu entrevista na rádio comunitária, postou em suas redes sociais e atraiu um pequeno público para a noite de autógrafo.

No lançamento do livro, Os Escritos Do Odiado, enquanto o rapaz, responsável a dar luz àquelas histórias, falava do seu encanto da primeira vez que leu os manuscritos, Sargento, com seu corpo magricelo, entrou no recinto.

Lucas esbanjava orgulho e alguma timidez perante o público atencioso. Sargento foi se acomodando ao lado do jovem. Enquanto o nome do velho era lembrado, o corpo do cachorro foi ganhando massa muscular e mudando sua morfologia. Ninguém percebeu o inicio da transformação, foi um garoto desatento às palavras do rapaz que achou estranho o cão se transformando em um homem. Gritou, e então passaram a perceber. Lucas olhou de lado e viu a transformação acontecendo. Ficou atônito, boquiaberto. O animal tomou a forma do homem, autor das histórias contidas naquele livro. Boa parte dos presentes, apavorados, diante do corpo do maltrapilho já tido como morto, saiu correndo e se acotovelando na porta do salão. Os poucos que ficaram viram o homem pegar o microfone da mão do rapaz que, assim que se viu livre do objeto, caiu no chão, desmaiou. O homem odiado se apresentou e pediu para que ninguém se assustasse. Ele não havia morrido no incêndio. Esperava o momento certo para voltar a ser humano. Quem estava no corpo humano carbonizado naquela noite criminosa era o do seu único e fiel amigo, o cachorro, que trocou de alma com ele. Nem ele sabe como isso aconteceu.

Quando a polícia chegou juntamente com os socorristas, o homem tomava água calmante. Não havia porque prendê-lo. Viver como um cachorro não é crime.

Mas as mortes misteriosas dos cinco delinquentes que atearam fogo naquele casebre, que não tinham sido inocentados por serem filhos de famílias influentes, podiam até ser crime. Mas elas tinham cara de justiça.



OUTRAS CONTOS DE OUTRAS QUINTAS

POR CAUSA DE CAMILA

A BARGANHA

A DESEMPREGADA

quinta-feira, 22 de abril de 2021

POR CAUSA DA CAMILA

 


Deixou de morrer dentro daquele quarto escuro. Não era hora para isso. Dono do seu tempo e da sua vida, seus torturadores não foram sensíveis o suficiente para perceberem que ele era mais que um agitador político. Seus olhos não estavam vermelhos de sangue e de cansaço da surra que levava.

Não tinha o que confessar durante o intervalo de um choque e outro. Ninguém para entregar, não era de nenhuma célula terrorista. Não conhecia nenhum plano, os milicos estavam mesmo é doído.  Jogaram seu corpo já quase sem vida aos olhos humanos. Mas ele precisava chegar em sua quase-morte para ganhar força vital. Foi o que a voz em sua cabeça o orientou.

Naquela noite saiu sem rumo pela cidade. Achou um panfleto revolucionário que chamava o presidente de genocida. Ou melhor, foi o panfleto que o achou. Ele agora lembra bem. Não tinha ideia de como chegar a esse estado. O vento em sua frente formou um redemoinho roçando o asfalto e fez suspender até às suas mãos o papel com palavras de ordem contra a ditadura. Teve tempo apenas de ler parte do que dizia quando apareceram os camburões lotados de militares.

Talvez ele tivesse sido preso por engano. Talvez parecesse com algum estudante de esquerda. Ele não era militante de nenhum movimento, mas quase perdeu a vida. O destino. A voz disse que ele precisava viver essa experiência para ter supremacia. Ele pediu por isso em suas evocações do sombrio.

No chão frio e imundo da cela escura ele aguardava o que iria acontecer. Suas veias se dilataram.

Os músculos foram se enrijecendo, ganhando consistência, aumentando o volume. O magricelo se encorpava. Levantou-se. Soltou um urro.

Dentro de segundos os carcereiros apareceram. Antes que eles abrissem a porta para esmurrar novamente o suposto rebelde, ele arrancou a porta da cela sem muita dificuldade. Levou uma rajada de balas e não se assustou. Saiu correndo pelo recinto opressor atropelando quem estivesse pela frente. Arrancou mais duas portas de grade e ganhou a rua. Sem direção, hesitou um pouco. Olhou para os dois lados e um carro passou acelerado por ele. Seu aspecto tenebroso devia estar causando horror àquela hora. Por instinto seguiu para onde estava mais escuro.

Através de suas narinas enormes sentiu cheiro de sangue. Era isso que ele perseguia. Era o cheiro acre que o guiava para o fim da rua. Entrou no matagal.  O cheiro cada vez mais forte. Sentia o sangue dilatado nas veias de um corpo em apuros. Não deu outra, encontrou atrás de uma moita uma mulher seminua a ponto de ser violentada por dois marginais. Com agilidade jamais demostrada antes, ele segurou um dos meliantes pelo pescoço enquanto com seus pés espremia o outro contra o solo. Ambos se debatiam em vão.

A mulher apenas via a sombra do monstro que estraçalhava os criminosos. Suas pernas trêmulas não a permitiam abandonar o local. Pensava apenas que seria a próxima vítima do desconhecido e pouco visível naquele matagal.

Ele urrou novamente o que fez a mulher tremer ainda mais. Esticou um dos braços indicando a direção de luzes longínquas. Ela entendeu e saiu em disparada. Ele precisava sair dali. Ela certamente buscaria a polícia e a traria de volta. Eles o encontrariam. Sua audição estava mais aguçada o que lhe permitiu ouvir sirenes. A essa altura um pelotão já estava no seu encalço. Saiu correndo para se esconder. No final da mata encontrou uma casa abandonada. Refugiou-se ali.

Um monstro, ele olhava para si. Seus braços peludos, unhas grandes e afiadas. Sentidos aguçados e uma vontade de estraçalhar maldades em corpos de pessoas. Um monstro justiceiro? A luz do dia o incomodava. Melhor ficar escondido. Não sentia fome. Ele queria ser isso, mas jamais achou que seria atendido em seu desejo macabro.

A criatura relembrou do que o levou a desejar ser um justiceiro com força suprema. Uma interpretação da música Camila, Camila da banda que ele mais gostava de ouvir.


Música antiga, da década 80 do século passado, o país estava saindo de um regime de exceção. Depois de mais de trinta anos de liberdade os tempos de chumbo voltaram. Leu em um caderno de cultura de jornal que a música fala de uma menina colega dos integrantes, vítima de abuso sexual. Ao lado da casa dele havia uma Camila, menina triste que também poderia estar vivendo o mesmo.

A certeza de que sua vizinha vivia o mesmo pesadelo da Camila da música do Nenhum de Nós fez com que ele fosse cultivando dentro da sua mente melancólica vontade de ser um herói. Nutriu por dias o desejo de ter alguma capacidade descomunal, o que ele chamava de força suprema, mas que seria apenas uma força superior, capaz de fazer justiça para as mulheres desamparadas em situação de risco.

Herói. É isso que a criatura esperava ver naquele espelho quebrado. Não viu nada. Não havia reflexo de nenhum rosto diante dos seus olhos vermelhos. Como desfazer-se do que se transformara? Não tinha como. A voz dizia que não tinha retorno. Jamais seria o fracote, o medroso. Agora ele tinha coragem e dois homicídios. Os homens mortos foram encontrados. Estava em uma das páginas da edição sensacionalista vespertina do grande jornal que um vento, inesperadamente, trouxe até ele.

Um rato atreveu-se aparecer por ali. Seu estômago resmungou. Correu atrás do animal até capturá-lo e devorá-lo. Um rato apenas serviu-lhe de refeição naquela tarde.

O sol se pôs e ele farejou novamente violência. Levantou-se para o combate. Mas precisava esperar. Quando a cidade parecia mais calma, ele voltou pelo mesmo caminho da noite anterior. Seguia seu instinto. Viu-se diante da penitenciária onde havia sido torturado. A voz disse para ele: — Toda ditadura é um estupro.

Entrou e não sobrou ninguém ali de farda. Os que ainda sobreviviam naquele porão da sociedade foram libertos.


Depois a criatura seguiu para a casa de Camila, sua vizinha, que diante dos olhos perversos do seu padrasto, clamava em silêncio por alguma ajuda.




CONTOS DA QUINTA

A DESEMPREGADA

A BARGANHA


 

domingo, 23 de setembro de 2018

UM DEDO DE FELICIDADE - SORTEIO PRIMAVERA LITERÁRIA



A pessoa caiu dentro de um poço. Diziam todos que era muito profundo. Mas quando ela foi resgatada, não tinha nenhum osso quebrado. Pela noite, na pequena vendinha do vilarejo o assunto era o fato.
Encontrei com ela quando eu voltava para casa em minha velha bicicleta. Ela estava indo para o vilarejo em sua charrete puxada por uma égua que outrora tinha sido minha. O animal parece ter reconhecido minha voz na escuridão.
A pessoa disse que precisava me entregar algo estranho que ela tinha encontrado no fundo daquele posso. Fiquei assustado.
Ela ligou sua lanterna e tirou do bolso um embrulho pequeno. Entregou-me. Abri com a curiosidade saltando dos meus olhos que logo foi substituída pelo espanto. A pessoa tinha acabado de me entregar meu dedo que eu havia perdido há três anos picando as costelas de um porco com uma machadinha muito afiada.
Em casa, olhando à luz da lamparina aquele artefato que já tinha sido parte de mim, lembrei-me que havia sido dito na vendinha ser a égua que havia o derrubado dentro do poço. Foi o mesmo animal que me viu cortar o dedo enquanto pastava próximo à varanda enquanto eu desossava o porco para alimentar a família e fazer algum dinheirinho com os torresmos. Eu havia vendido o animal para pagar algumas dívidas que não estava conseguindo saldar, entre elas, a da farmácia onde comprei todo medicamento para cicatrizar minha mão.
A pessoa em questão nunca foi carinhosa com o animal. Minha mãe, por causa do Alzheimer, havia esquecido onde colocará meu dedo. Então, minha velha égua, que a viu jogar o dedo no poço no sítio vizinho, pensou certamente que se eu tivesse aquele pedaço de mim de volta, poderia buscá-la para onde ela era feliz.


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VITÓRIA: CONTO DE 22-09-18

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