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domingo, 3 de junho de 2018

CINZA




Assim que tudo se transformar em cinzas
Vou encher meus pulmões de gases tóxicos
Mas a lembrança que lateja em meu cérebro
Dá-me a certeza de que nem sempre foi assim

As manhãs de sol preguiçoso no lado leste
E a feira nos vendendo frutas e convivências
Tangendo um viver tão simples e tão sincero
Fragmentos de um céu possível entre os montes

As tardes de trabalhos e observações quando eu
Esse eu que talhou madeiras e palavras em versos
Para construir o mundo objetivo e subjetivo
Para amparar corpos e almas da minha espécie

E as noites que chegavam sem nos amedrontar
Sem precisarmos lutar contra nossas sombras
Ou então viajar pelo portal de um copo de veneno
Em bares ou em lugares nada recomendáveis

O cinza da aridez de uma paisagem que morreu
É tudo que tenho além das doces lembranças
Em dias que o pão não passa de uma saliva seca
Engolida junto com a lágrima que desceu ao acaso
Pelo sulco no rosto que já recebeu carícias de tuas mãos

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A ÚLTIMA GOTA




Quando a subida não mais compensa
Quando a comida fica mais densa
Quando ninguém mais te pede licença
Quando o diálogo termina em desavença

Será que chegou a hora de fechar a porta
E de jogar fora o que pouco te importa?
Ninguém mais liga pelo jeito que você se comporta
Até parece que ninguém te suporta

Quando a rota não pode ser mais alterada
E tudo se esgota antes da hora marcada
E a roupa desbota toda vez que é lavada
E o ônibus lota antes da passagem ser comprada

Será que é momento de dizer aquele adeus
E marcar o sepultamento para hoje à tarde?
Fui apenas entretenimento em diferentes coliseus
 Fui apenas fermento na massa que arde

Apenas a vida e o latejar do impulso
A veia corrompida sustentando o pulso
A última gota de saliva ejaculada por instinto
A morte imperativa reina no corpo já extinto

sábado, 28 de abril de 2018

NÃO HÁ PREÇO



A pressa, a perfeita precisão
O disparo bem no coração
Ninguém me ampara na noite
Eu vou aparecer na tua casa hoje

A pretensão, a previsão do tempo
Minha visão tão nublada
Faça uma revisão na tua vida
Não revise nossa rota mais uma vez

A prisão de ventre, a falta de ventilação
Coisas que nos assaltam no meio da noite
O pesadelo, o puxão de cabelo
O poema escrito com muito esmero

A proteção policial, a putrefação do sistema
A facção central, a profecia que condena
Uma faca entre os dentes, o dedo que acusa
A causa no bilhete, o lembrete no bolso da calça

A poesia que faz sentido não está escrita
Em estrelas nesse céu da cor de chumbo
Eu posso até não ter nenhum rumo
Mas não vou me arrumar como você quer

Não há preço quando atravesso os muros da razão

sábado, 13 de janeiro de 2018

A CURVA QUE ALIMENTA O CORVO

A cabeça que de besta se condensa
A cabeça, intensa desavença
A cabeça que guarda a crença
A cabeça aguarda alguma recompensa

O celeiro que cerra o segredo
O celeiro, cenário do medo
O celeiro, primeiro, vanguarda
O celeiro que se resguarda

O circo que chega à cidade
O circo, tudo ilusão, falsidade
O circo, picadeiro, singularidade
O circo da primeira vaidade

O corvo que come na curva
O corvo do tal Allan Poe
O corvo que me acompanha
O corvo que bate e apanha

A curva que alimenta o corvo
A curva que se dobra de joelhos
A curva que culmina na cidade
A curva que se quebra no espelho

Eu, no começo de uma percepção...

Eu, carecendo de extrema unção...

domingo, 19 de novembro de 2017

VIDE BULA


Um beijo molhado e demorado não compensa
Ouvir o sussurro do prazer não rende lucros
Passear pelo parque de mãos dadas é perda de tempo
O que paira sobre o concreto rachado do asfalto
É apenas um espectro do que foi o amor

Sentir a brisa da tarde acariciando nossos rostos
Não torna o corpo mais leve e preparado para a paixão
Pisar descalço sobre a relva orvalhada é anti-higiênico
O mundo inteiro está empacotado em ganâncias
Disfarçadas de pretensões ultramodernas

Soltar uma pipa para brincar de deuses dos pássaros
Coloca em risco a sanidade da criança já letrada
Sentir saudades do sítio lá no sertão é retrocesso
Não podemos esquecer a hora de tomar nossa felicidade
Em cápsulas acompanhadas de um copo de água industrial



segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A GAROTA Nº 10


A garota morreu de acidente
Mal posso acreditar
Que ouvi a voz dela
Ecoando pelos corredores da tarde

O pátio da escola está mais triste
E perdeu um dos últimos fragmentos
Que nos faziam acreditar na ingenuidade

Os sonhos se capotam a qualquer velocidade
E se quebram sobre qualquer pavimentação
Seja Glace Kelly, seja Hellen Glayce
As princesas precisam se tornar eternas

As salas de aula transpiram lições de vida
Que vão além de revisões ou questões de exames
Por isso a noite chorou copiosamente
Por não ter mais o brilho de suas estrelas
Refletido nos sorrisos de um coração tão grande
E tão sem espaço para guardar rancores

Eu sei que a vida segue
Mas sem Hellen Glayce
As curvas serão sempre
Mais sinuosas
Perante nossas mãos trêmulas
Na hora da chamada


POEMA DEDICADO A HELLEN GLAYCE, Vítima de capotamento de carro em 12.11.2017 ( Aluna nº 10 do 3º E)


sábado, 21 de outubro de 2017

TUTU DE DOMINGO

Estradas tortuosas rajam o vale da minha existência
Trazendo até a mim a síntese da tristeza e da alegria
Engarrafada dentro do homem de sonhos em cacos
Empacotada dentro da mulher de paciência cansada

Eu não vejo mais a noite como traiçoeira
Agora é a tarde
Com sua machadinha afiada na angústia
Partindo ao meio a vida
Que eu tenho no dia de hoje

Mas o mundo segue a agenda rabiscada em escritórios
Em seu itinerário entre montanhas esfoladas
O sol da tarde que arde em meus olhos só não chora
Por ter sido educado para engolir seus próprios desencantos

O trem da vale passa enquanto eu me desvio dos cancros no asfalto
Levando para o porto o que pode ser um pedaço de Drummond
Que esquartejem o homem de Itabira e repartam seu encanto
Ainda que os continentes não sejam dignos da sublime arte

Eu amo a natureza que respira a história dos homens de coragem
E absorve nossos passos como o cogumelo a matéria orgânica
Eu quero respirar, mas a poeira em minha garganta sufoca
A poesia que era para ser apenas um tempero no tutu de domingo


domingo, 15 de outubro de 2017

DENTRO DE VIDRAÇA E POTE


Um dia é para ser engarrafado
Dentro de vidraças de janela e potes de geleia
Quando a tarde se aproxima lenta e voraz
Saboreando-se com metas não realizadas

O vazio fica no ar onde oxigênio não existe
Um rosto perdido na imensidão do pequeno apartamento
Vaga entre a poeira de uma cidade que se descama
Estrangulando seus homens e mulheres
Tragando seus sonhos adubados com fuligem

Eu venho de um mundo onde a natureza pulsa
Em seu esplendor como um coração feliz
Mas agora piso sobre lençóis de minerais aquecidos
Fritando esperanças em passos apressados

Eu venho de outros enredos onde os dramas não sufocam
E os abraços, ainda que não dados, são mais sinceros
Olhares atentos vigiam a vida em seus rasgos
Aptos para costurar com seus fios pensativos
A simplicidade de andar descalço sobre os atalhos serenos

Eu não me acostumo com as programações urbanas
Ventiladas com redemoinhos sobre o asfalto pálido
Em cada momento que sou produtor, produto e consumidor

Rabisco em minha agenda o próximo passo sem direção

domingo, 8 de outubro de 2017

AS FRASES


As frases soltas pela folha em branco
Histórias que não rompem o círculo do óbvio
Eu me esqueci de te dizer que nem todo traço
É um divisor de águas no plano das tolerâncias

Amanhã eu posso ver como a vida funciona
Por hoje eu ficarei vendo o mundo balançar
Pela tela do meu smartphone acesso as frases
Que se deixaram ficar soltas pela folha em branco

O que me entala no meio da noite pode passar despercebido
As marcas da angústia não contam na bolsa de valores
Em celulares há mais informação que em latas de sardinha
Mas eu prefiro não expressar o que está no porão da alma

O silêncio cortante em teus lábios fere minha curiosidade
Enquanto passos espalham histórias pelas calçadas do bairro
Vejo as flores que abafam as segundas intenções
Como cortinas surradas em janelas abertas às frases
Que bailam pelo céu da cidade feito vagalumes
Atraídos pelas luzes cintilantes de olhos transeuntes
Eu decifro o silêncio da noite antes que o amanhã apareça



terça-feira, 12 de setembro de 2017

CARÊNCIA DE POESIA



Enquanto eu te faço carinho
O mundo taca fogo na floresta
Enquanto colho flor sem espinho
Solitários se embriagam em festa
Enquanto contigo sigo o caminho
E amanheço sem estar sozinho
Quando quase nada me resta

Enquanto me sacio com teu beijo
O mundo esmorece de tão faminto
Enquanto pelo teu corpo eu velejo
O mundo ainda se move por absinto
Mesmo sem ter a faca e ter o queijo
Eu nutro-me do teu louco desejo
O meu amor é mais que instinto

Enquanto componho os meus versos
O mundo agoniza carente de poesia
Enquanto viajo em outros universos
O mundo sequer foge da hipocrisia
Alheio aos sentimentos perversos
Eu batalho com meus reversos
Tendo você, eterna companhia


domingo, 13 de novembro de 2016

SOBRAS DE MIM


SOBRAS DE MIM

Sacio minha alma desamada
Nessa terra devastada atada ao caos

Sento diante do espelho opaco
Tento juntar meus cacos pelo chão

Sinto o fim de uma era de incertezas
As belezas ocultas nem se revelam, nem se rebelam

Solto-me ao vento feito cabelos longos de donzelas
Enfrentei duelos em vão pela razão ou pela loucura

Subo no alto da colina da minha quase existência
Não está lá a essência do meu ser

Sai de casa para ver que o mundo não é minha casa
Voltei para casa para ver que minha casa não é mais meu mundo

Serrei ao meio o galho que me servia de travessia
Agora fico de um lado querendo estar do outro

Simplifiquei a vida ao máximo que pude
Faltou-me poder para retirar as poeiras do passado

Sombras do que fui dançam pelas paredes do meu quarto
Sobras do que fui mal acobertam os meus ossos

Suor e lágrimas se fundem em meu peito
Sou o rejeito que salga o Doce

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OS PÉS DO AMOR

O amor é um animal quadrúpede

Em uma só perna
Vem valsando em minha direção
Feito saci com aquele olhar sacana
Encosta em meu ombro e assopra
Uma canção afrodisíaca em meus ouvidos

Com as duas outras pernas
Entrelaça-me
Joga-me sobre a cama
Faz-me viajar sobre montanhas
E me deixa extasiado até chegar a manhã

Mas falta uma perna?
Eu sei.

É dela que tenho medo
De levar uma rasteira ou
Um chute em uma das nádegas

domingo, 18 de setembro de 2016

ENCERRAMENTO

Atravessando a rua
Não sei qual a sua
Não sei qual a minha

Parece muito óbvio
Parece certidão de óbito
Parece que tá na hora de ovular

Atravessando uma crise
Ninguém disse nada
A cidade está calada
Na calada da noite

Parece uma dessas preces
Parece que ninguém presta pra nada
Nada se compara com o nada
Ninguém se compadece de ninguém

Ela presta serviços
Ele empresta dinheiro
Ela repensa sua vida
Ele se reprisa sempre

No fim a música acaba
No fim a poesia termina
No fim a gente se abraça
No fim a gente se extermina

Então, para quer ter fim?
Então, quem está afim?
Vamos por logo o último ponto
Vamos por fogo em tudo

Assim termina de vez
Assim quando já estive maduro
Assim que eu assinar
Assim que você me assassinar

Assim fica então
A faca fincada no coração
Não faça cerimônia
Encerra logo....


terça-feira, 2 de agosto de 2016

O INIDENTIFICÁVEL



Sem identidade,
Porém idôneo
Eu sigo pela cidade
Sem saber meu nome

Sem saber a idade
De cada ruga
Sulcada pelas lágrimas
No rosto que madruga

De mim vive digitais
No que desembrulho
Durante a noite
Em meio a entulho

Rastros de uma carne
Que segue biodegradável
Enquanto sigo sendo

O inidentificável