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sábado, 29 de outubro de 2016

FIOS DE EXPERIÊNCIA


 Eu esperava a minha vez no banco da barbearia. Muito desacomodado, observava a paciência da senhora no banco de frente com o meu. Ela parecia melhor acomodada.
Sentado na cadeira do barbeiro estava seu Arnaldo. Fiquei sabendo do nome pela boca dela. Ela estava de companhia.
Em síntese, era um casal de idosos e ela o trouxe até a barbearia para fazer o cabelo e a barba que restavam.
Enquanto as alvas pontas dos cabelos do senhor Arnaldo caiam no chão eu imaginava de quantas histórias ela já teria vivido com seu Arnaldo. E agora via os cabelos caírem pelo chão de uma barbearia bem frequentada como fios de esperanças indo embora.
Quando casaram? Como passaram pela famosa crise dos sete anos de casados? Tiveram filhos? Netos e bisnetos, quantos?
As perguntas começaram a surgir em minha cabeça e, instintivamente, comecei a tecer um enredo para seu Arnaldo e sua esposa. Talvez eles tiveram pouco tempo para se namorar. Casando-se tendo o mínimo necessário para iniciar essa história que desemboca em uma apertada barbearia em meu bairro.
Imagino-a entrando na igreja com seu vestido de noiva. Não imaginei nenhum vestido bonito. Apenas um vestidinho simples, branquinho. Muito singelo. Ele com terno emprestado. Espichado de alguma forma para seu corpo.
Depois filhos, talvez uns quatro. Trabalhando para por sobre a mesa o pão de cada dia. Casaram bem ou mal cada filho. E agora, aposentados, podem descansar em uma barbearia enquanto seu Arnaldo deixa descabelar-se pela maquininha do nosso conhecido barbeiro.
Depois de cortado o cabelo e desfeito a barba, o casal de idosos pagam o dono do estabelecimento e saem de mãos dadas. Enquanto eu, sozinho, dirijo-me para o assento apontado pelo homem já com tesoura na mão.
DA SÉRIE: BARBEIROS, BARBEIROS, BARBEIROS

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

QUANDO SE FAZ (OU SE DESFAZ) A BARBA

Estou barbudo. Essa é a conclusão que chego sempre quando pela manhã ou pela tarde eu me olho no espelho.
Lembro-me de uma antiga música do Titãs. O título é Não Vou Me Adaptar. A verdade é que eu estou adaptado à barba grande.
Isso vem dos tempos de militância juvenil à esquerda. Bem à esquerda. Queria eu ser um Fidel, ser um Lula. E então deixava a barbicha crescer.
O tempo passou e até o PT foi se desbarbeando. Eu fui me encarecando e tendo o sacrifício triário de fazer, ou desfazer a barbar. Passei até a gostar do cheiro de menta do creme. A gilete gillete é melhor que outras marcas e prestobarba tem que prestar.
Mas sempre faço um pouco de lamúria antes da raspagem. Não vou dizer que a primeira faz tchan. Eu não gostava desse comercial na TV.
Mas o tempo continua passando e os homens estão começando a ficar barbudos de novo. Primeiro foi um tatuador lá de Colatina. Depois reparei que certos jogadores do meu segundo time, o Grêmio, e hoje um cara no Seminário de História e Cultura.

Fazer, ou desfazer, a barba pode ser desestressante para uns, apenas uma rotina para outros, mas para mim, ficar pela manhã, meio dia ou pela tarde, e mesmo na madrugada, diante do espelho, nesse momento T.F.B (Tentando Ficar Bonito) é um puta sacrifício que faço. Acho que adotarei a partir de hoje a onda dos neobarbudos.