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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 14 (FINAL)


CAPÍTULO XIV
A cidade já estava cansada de ver assassinatos serem esquecidos sem serem solucionados, sem acharem os verdadeiros culpados.
O assassinato de Marli seria mais um a ser arquivado se não fosse o relevante clamor popular por justiça que bocas conscientes começaram a levantar cotidianamente.
Havia, além do clamor popular, a recente presença de Dr. Ramos. Um detetive que mais que altivez, contava com o conhecimento do que há de mais novo na investigação criminal. Ele não se deixava influenciar pelas aparências, sempre mergulhava um pouco, ou muito, mais fundo e às vezes ia além do fundo.
Grande estudioso das mitologias, da psicologia, conhecia as doutrinas, apaixonado por filosofia, era simpatizante do marxismo. Dr. Ramos, que entendia que só era doutor quem ostenta o diploma de doutorado, frequentava lugares exóticos e distintos na sociedade, desde igrejas a prostíbulos.
Em suas mãos os depoimentos. A mãe da vítima contou a trágica história da vida da filha. Isso é. Tudo o que ela sabia. Nivaldo tinha um álibi. E Dr. Ramos reconhecia que seu álibi era real. Tinha saído mais cedo no dia do crime. Era 03h15 quando saiu de casa e deixou a esposa dormindo depois de uma noite de amor. Pegou o ônibus que o levou para a lavoura. Era época de colheita do café e ele estava fazendo um bico. Não negou que surrava Marli. Mas afirmou que apesar disso, amava-a. Era apaixonado por ela.
Passaram-se mais três dias. Dr Ramos releu os depoimentos. Foi interrogado pelo delegado sobre a sua opinião se devia arquivar o caso ou ele daria prosseguimento à investigação.
- Eu já sei quem é o assassino. Vamos fazer o mandato de prisão. Respondeu Dr. Ramos convicto.
De posse do mandato de prisão, Dr. Ramos pediu a viatura com três policiais e disse ao delegado.
- Dentro de instantes o assassino de Marli estará atrás das grandes. Todos na delegacia apostariam que o assassino seria Nivaldo, parecia evidente.
A viatura policial entrou na Rua Floriano Peixoto onde Nivaldo morava, e ao contrário do que os rostos que começaram a aparecer nas janelas esperavam, a viatura não parou em frente a casa onde o crime tinha acontecido. Ela seguiu mais adiante alguns metros e estacionou.
Dr. Ramos bateu na porta de uma casa residida por cinco mulheres. Uma loura veio atendê-lo.
- É da polícia. A senhorita poderia nos seguir, por favor.
A loura parecia um pouco assustada. Mas controlou-se e não viu outra saída a não ser atender aquilo que por ora era um pedido.
Na delegacia a loura, Margareth Vaz de Oliveira, vinte e oito anos, confessou o crime.
O que ninguém sabia é que Dr. Ramos, apesar de novato na cidade, já tinha uma amante. Era Sílvia, que também residia na mesma casa que Margareth e em algum momento de excitação contou algumas histórias de Margareth que Dr. Ramos, esperto, tomou nota. Era a vingança de Sílvia contra a colega que havia recentemente lhe tomado um freguês importante.
- Não entendo qual foi o motivo do crime?
- Sílvia não contou? Eu e Marli tínhamos um caso. Não aceitei o fim. Ela queria ir embora para não apanhar mais do Nivaldo. Mas como o senhor ficou sabendo que era eu?
- Um arranhado de unha ao lado do corte de navalha. Um arranhado de unha grande, unha de mulher. Rematou Dr. Ramos.

Se você está lendo pela primeira vez a postagem da novela A Última Reconciliação, comece a ler pelo capítulo 01.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 13


CAPÍTULO XIII

Dona Leontina acordou preocupada com a filha. Daria tudo para livrá-la de Nivaldo. O problema é que Marli sempre se derretia toda quando ele a pedia para que ela voltasse. Até parece que naquela rua tinha alguma coisa a mais que atraia Marli. Por instinto materno foi até a casa dela.

Parecia que não havia ninguém. O pequeno barraco estava imerso em um silêncio muito forte.

Empurrou a porta de madeira bruta e foi até o quarto. Quase não acreditou no que viu. Estendido na cama, inerte como uma pedra, o corpo de Marli já não respirava mais. O talho de navalha foi fatal. O pescoço branco está sob o sangue rubicundante. Controlou-se para não entrar em pânico. Não era o momento.

Chegou à delegacia quase sem fôlego. Relatou com dificuldade o fato. A única viatura policial da cidade dirigiu-se para o local do crime logo em seguida.

Esteve também avaliando a cena e o cenário Dr. Ramos, detetive novato na cidade, mas de renome no rol policial.

Feito as devidas observações e anotações, o corpo foi liberado para o sepultamento que ocorreu na tarde do mesmo dia.

Dona Leontina depôs de maneira tendenciosa. Pelo seu relato, Nivaldo era o assassino. Dona Leontina não estava sozinha em sua opinião. Todos desconfiavam de Nivaldo. Todos o incriminavam. – Só pode ser ele. Na certa descobriu algum caso dela com algum homem por aí. Comentava um. – Não deve ser isso não. Marli não dava canja para ninguém. Falava outro.

Leia os três capítulos anteriores: 101112

sábado, 22 de outubro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 12


CAPÍTULO XII
O casamento de Maria foi normal. Nada mesmo de extraordinário, nada de pomposo. Nivaldo compareceu para ajudar. Já frequentava com assiduidade a casa de Marli. Ajudou e bebeu a vontade. Conheceram a namorada de Marcus. Nem bonita e nem feia, apenas simpática.

Marli estava grávida. Como falar com sua mãe? Tinha que falar e falou. Dona Leontina recebeu a notícia como quem a esperava. Conversou com Nivaldo. Dai a um mês morariam juntos, sem casamento.

Alugaram uma casa de quatro cômodos numa rua não muito distante de Dona Leontina.

No quinto mês de gravidez, Marli teve hemorragia violenta. Perdeu a criança. Depois de alguns dias de repouso decidiu não trabalhar mais de doméstica.

As coisas de uma hora para outra começaram a ficar difíceis. Nivaldo não encontrava mais emprego, mais trabalho, raramente alguns bicos. Chegou passar quatro semanas sem um dia sequer de ocupação. Marli conheceu a dor e a agonia de acordar com o estômago e o armário vazio. Nivaldo passou a beber exageradamente e a fumar ainda mais. Marli também adquiriu, para acalmar os nervos, a hábito de encher os pulmões de nicotina.

Um dia, Nivaldo chegou de porre em casa. Não era nem a primeira e nem a segunda vez. Olhou para ela com os olhos caindo. Perguntou para ela onde tinha ido e por que passara a tarde toda fora de casa.

Tinham dito para ele que sua sogra aconselhava Marli a deixá-lo. Era verdade. Dona Leontina tinha pena da filha. Guardava sempre um prato de comida para ela.

- Você não é casada de papel passado minha filha. Só tá amigada. Deixa esse homem pra lá. Recomece a sua vida.

Bem que Marli concordava com a mãe. Porém, pobres noites de amor ainda a prendia a Nivaldo que lhe fazia morrer de gozo quando a possuía sobriamente.

- Onde cê tava, muiê?

- Na casa da minha mãe. Respondeu ela.

- Na casa da minha mãe. Arremedou ele.

Levantou-se e aproximou-se dela cambaleando.

- Eu já te falei para não ficar dando ouvidos à sua mãe. Terminou de falar e deferiu um murro fechado no rosto da mulher. Quando Marli começou a entender o que estava acontecendo já havia levado outros murros que a deixaram desnorteada. A cachaça parecia dar mais força ao homem.

Mudaram para uma casa menor. Aluguel mais barato. Dois cômodos e um minúsculo banheiro.

Marli gostou da mudança. Cinco dias sem ir à casa da mãe. Nivaldo vendeu o som, o jogo de sofá e a televisão. Liquidou as contas. O que sobrou juntou com a venda da geladeira e comprou uma carroça com uma velha mula arreada.

Cinco meses haviam se passado na nova casa. Marli tinha levado mais duas surras no novo lar. Prometeu para si mesma que na próxima deixaria Nivaldo apesar de ter encontrado um consolo na nova rua.
A próxima veio violenta como as outras. Marli cumpriu o prometido a si mesmo. Foi para a casa da mãe.

Nivaldo foi buscá-la. Humilhou-se. Prometeu que não a surraria mais. Ela voltou.

Ele a surrou muitas outras vezes e muitas outras vezes ela o deixou. Muitas outras vezes ele foi buscá-la e muitas outras vezes reconciliaram-se.

Desta vez não sabia o que fazer.

- Desgraçado. Não falou nada durante o almoço. Que esse filho da puta pensa que eu sou? Cansei de ser saco da pancada. Desta vez não vou voltar nem a pau. Decidiu. Iria para a casa de sua mãe como das outras vezes. Só que agora seria definitivo. Assim que ele saiu, ela se foi.

- Só tenho uma coisa minha filha. Dessa vez eu não vou deixar aquele caco do seu marido te levar de volta. Aquilo não presta, é uma merda.

Seis horas da tarde. As palmas estouraram do outro lado da porta. Dona Leontina atendeu:

- Some daqui, seu vagabundo, cachaceiro, ela não vai falar com você. Foi logo jogando essas palavras contra o rosto de Nivaldo.

- Ela é minha muiê. Lugar de muiê minha é em casa.

- Deixa mãe que eu me entendo com ele. Marli não resistiu sem ir até a porta vê-lo. Dona Leontina voltou para a cozinha como que dando por perdida a batalha.

- Marli, eu prometo que foi a última vez. Não vai acontecer mais. Eu prometo até parar de beber.

- ....

- Marli, acredite em mim. Eu juro pro cê.

- Jura mesmo?

- Juro.

- Nivaldo, eu vou. Mas da próxima vez eu fico e você nem adianta vim com essa cara de molenga pro meu lado, tá.


- Não vai ter próxima vez.

Se você está lendo pela primeira vez um capítulo dessa novela, volte ao CAPÍTULO 01

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 11

CAPÍTULO XI
Dona Leontina não engoliu o relato superficial da filha. Sabia do namoro dela com o tal de Nivaldo. Contaram para ela. Sabia até das intimidades. “No meu tempo não era assim”- Pensava consigo.
Preocupada com o casamento de Maria, que se aproximava, a mulher estendida na cama sentia falta do marido que faleceu há dois anos. Falta apenas, saudade talvez, solidão não. Seus três filhos não eram anjos, sabia. Eram humanos, metidos a moderninhos. – Essa mocidade de hoje, hum! - Sabia que o namoro de Maria já ultrapassou os beijos e abraços. Até onde já teria ido, não sabia. Sabia também que Marquinhos andava fumando escondido. Sabia que Nivaldo não era um rapaz bem comportado. Poucas mães o desejariam para genro.
Maria não a preocupava tanto. Antônio Carlos era um bom partido. Nivaldo não. Fumava e bebia demasiadamente. Era um verdadeiro estúrdio. Marli passava por problemas. Nem mais procurava as coisas da Igreja.
Igreja. Leontina lembrou-se de quando era moça e morava na roça. Loura, linda. Trabalhava a semana inteira. Tratava dos porcos, socava arroz no pilão, fazia comida, lavava roupa na bica. Pés descalços, vestido de chita ou carne-seca feito em casa. Feito em casa também era a roupa de baixo, como se dizia naquela época.
Domingo. Pela manhã havia trabalho. Preparava cedo o almoço. Era dia de comer frango com quiabo. Até às dez horas devia estar todo mundo almoçado para terem tempo de arranjarem e ir ao povoado. Eram sete quilômetros a pé. No povoado encontrava as amigas. Muitas delas, primas. Depois da celebração geralmente tinha jogo de futebol. Junto com as duas irmãs e mais três amigas procuravam um canto. Sempre vinha time de fora. Sempre tinha um rapaz bonito no time visitante. Só o olhavam de soslaio. Chegar como? Não davam um passo sem o acompanhamento dos olhos dos pais ou de um dos irmãos.
Contava com dezenove anos. Era atraente, principalmente com as bochechas rosadas de pó de arroz. Ela ia à celebração todos os domingos. Mesmo que se sentido mal, cólicas menstruais, por exemplo, falava que estava tudo bem. Naquele tempo ela era religiosa. Todas as moças eram religiosas. Os rapazes não. Preferiam fica na vendinha bebendo e jogando sinuca. Em casa, Leontina rezava o terço todo dia. A mãe é que tirava. Ela e as duas irmãs recitavam repetidos pai-nossos e sussurradas ave-marias. Sabia até a salve-rainha de cor. Isto é naquele tempo.
Não tardeou surgir pretendentes. Primeiro foi o João do Miquinha. Moço alto e magro com um chapéu de abas grandes. Mandava-lhe recados através de sua irmã. Insistiu muito. Ela não o quis. Ele enfim desistiu.
Seu pai dava-lhe conselhos curtos, diretos. –“filha minha não é égua para rapaz ficar repassando.”- falava num tom autoritário, determinante. Ela e as duas irmãs sabiam o que ele queria dizer. –“O maior desgosto da minha vida é ver uma de vocês barriguda antes do tempo.”- completava a mãe, mais categórica.
Surgiu o segundo pretendente. Rapaz louro como ela. Não era de ir à Igreja. Porém, não era chegado à bebedeira da venda. Muitas vezes chegava ao povoado na hora do jogo de futebol. Chegou a jogar algumas vezes no cascudinho, era perna de pau.
Um bilhetinho escrito num pedaço de folha de caderno pautada chegou até às mãos dela. Ela demorou entender o que estava escrito. Pouca escolaridade de ambos. O bilhete em suma dizia. –“Estou querendo namorar você. Posso ir à tua casa conversar com teu pai?”- Era assim que se procedia. Primeiro o rapaz tinha que conversar com o pai da moça, senão, nada feito.
Todas elas olhavam para a estrada sonhando com o dia que um cavaleiro alto, roupas bem engomadas, transpusesse a porteira e chegasse em suas casas, sorrisse e perguntasse pelo pai delas, conversasse com o chefe da família e depois viesse ao alpendre sentar-se ao lado delas. Era um sonho coletivo.
-“Consentiria que ele viesse conversar com seu pai ou não?”- Esse era o nó que Tina, assim a chamava em casa, precisava desatar. Era o seu sonho também, que em breve poderia se tornar realidade. Através de um bilhete foi procurada, e através de um bilhete disse o seu sim a Athayde. Marcou para que ele viesse na quarta-feira. Falou com sua mãe e esta transmitiu a informação ao seu pai.
Quarta-feira. O anoitecer chegou e Athayde veio no seu cavalo mangalarga baio. Transpôs a porteira com certa elegância. Apeou e amarrou o animal no jambeiro florescido.
O pai de Leontina estava no alpendre com as vistas perdidas no horizonte.
O rapaz subiu os cinco degraus de madeira. Cumprimentou o senhor de cabelos grisalhos cerimoniosamente. Falaram das plantações, da colheita farta que estava preste a acontecer, do preço do gado e, depois e tanto rodeio, do único objetivo pelo qual o rapaz estava ali.
O pai de Tina fez as suas restrições. Só conversar, respeito pela donzela, encontros só na casa dela, quartas e domingos. Isto é, -“aqui em casa”-. O pai da moça prosseguiu. –Noivado e casório o mais rápido possível. Quem tá na chuva é para molhar. Arrematou passando as mãos na grisalhice dos seus cabelos.
Athayde concordou com todos os itens das restrições. Discordar de alguma era perder a concessão que o pai de Tina estava lhe dando. Sabia que não era o único rapaz que se deixava impor pelos pais das moças e nem fazia a ligação de que o casamento não passava de um negócio, de uma barganha.
Noivado e casório o mais breve possível. Athayde também desejava que fosse assim. Assim começou a frequentar a casa de Tina. Aprendeu a chama-la pelo apelido, e ela a ele de Tide. Era até meio poético. Tina e Tide. Começou a levantar o dinheiro para a compra do necessário. Contava com vinte e seis anos. Idade ótima para o casamento.
Com sete meses saiu o noivado e com mais cinco o casório. Tempo demais para aquela época. –“Ficaram cozinhando o galo.”- Comentavam as mulheres preocupadas com a vida alheia.
Teve almoço na casa de ambos. Almoção. Teve gente que veio de longe, parentes. O pessoal compareceu em rodo. Era sábado, sábado de casamento. Não chegava a ser raridade, mas era sempre um dia festivo.
Pela tarde foram à vila assinarem os papéis. Tina estava linda dentro do vestido de noiva. Muitas moças a invejaram naquele dia. Tide num terno comum azul marinho. Não estava nem bonito e nem feio, apenas formal.
O casório no religioso ficou para depois quando o padre viesse rezar alguma missa na vila, quando desse.
À noite, mais festa. Doces coloridos com anilina. Todos comeram a vontade. No dia seguinte há quem estava com os intestinos desregulados. Era de se esperar. Tina sorria largamente. Tide tentava sorrir. Muitos esperavam o som da oito baixos romper no fundo da sala. Cavalheiros convidariam suas damas prediletas. Dançariam noite adentro. Não demorou muito, a oito baixos impôs a sua voz.
No meio da festa, Tide e Tina, agora quase marido e mulher, foram para a casa nova em uma charrete.
Lua de mel. Naquele tempo não tinha esse nome. Talvez chamasse primeira-noite, primeira-vez. Leontina relembra sua quase ingenuidade. Que meninos não vinham de cegonha, isso ela já sabia. Que era para serem iguais os cachorros com as cachorras, os bois com as vacas, os cachaços com as porcas, isso também ela sabia. Na hora não tomou nenhuma iniciativa, apenas fez o que Tide foi dizendo. Aconteceu. Foi dolorido.
Vieram as crianças. Primeiro veio Maria. Depois, Marli. E por último, Marcus.
Vitória era um sonho. Falava-se muito em Vitória naquele tempo. Era onde tinha trabalho a vontade, dinheiro também. Athayde quis ir, ela não. Quase que ele foi sozinho. Na roça ele não queria ficar: - Aqui a gente trabalha pra burro.- Argumentava. – No fim das contas não sobra nada.
Vieram para a cidade. Empregou-se ele na prefeitura. Carteira assinada, salário mínimo, abono família, naqueles idos talvez compensasse.
Construiu uma casa onde hoje a família mora. Compraram, pouco a pouco, os eletrodomésticos básicos: Televisão, geladeira, liquidificador, ferro automático...

Os meninos cresceram. Tide morreu, ela ficou, o casamento de Maria estava próximo.

OBS: Se você quiser acompanhar desde o primeiro capítulo, clique no link: CAPÍTULO 01

sábado, 15 de outubro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 10

CAPÍTULO X

OBSERVAÇÃO: RECOMENDADO APENAS PARA


Marli evitava fazer comparações entre seu presente e seu passado. Dentro de dois anos muitas coisas aconteceram. Nada de muito alegre para deixá-la contente e o fato mais triste foi o falecimento do seu pai há oito meses.  Não havia namorado ninguém nesses dois anos. Tanto o estupro de Guido como a transa com Lauciene martelava sua mente de vez em quando. Paqueras ocasionais aconteciam e numa dessas paqueras permitiu-se transar de novo. Depois teve medo de ter se engravidado. Daí alguns dias um câncer no fígado levou seu pai para a sepultura.

Dezessete anos, uma semianalfabeta, uma pobre remediada. Mais de quatro anos no mesmo emprego. Perdera a virgindade violentamente, perdera o ardor religioso. Dizia para si mesma que era uma cristã relaxada. Saiu do grupo de adolescentes e não entrou em nenhum grupo de jovens. Foi se esfriando pouco a pouco. Já não saia muito de casa. Muitos de seus fins de semana eram consumidos em programas de televisão. Sílvio Santos a distraia.

Assustou-se naquela terça-feira ao ir embora. Viu os materiais de construção chegando. Não falaram nada para ela que iriam construir. Pensou em voz baixa:

- A limpeza vai piorar. Todo dia vai ser aquela poeirada. Marli sabia que construção dava poeira. Fazia a faxina ficar mais laboriosa.

No dia seguinte deparou com o pedreiro e seu ajudante nos primeiros trabalhos da reforma da casa. Estavam dentro do banheiro próximo da cozinha consertando o que fora gasto pelo tempo e pelo mau uso.

O pedreiro era um senhor de estatura mediana, usava calça de tergal verde bem surrado e uma camisa fechada sobre o peito sofrido com botões de cores e formatos diversificados. Um chapéu de palha na cabeça. Andava sobre duas havaianas gastas, aparentava uns trinta e cinco anos.

O ajudante parecia que se sentia a vontade com sua bermuda jeans indo até o joelho onde alguns fios de algodão eram maiores, carecia de uma bainha. Parecia que nem se importava com o cós de sua cueca amarela aparecendo tímido, tampando o dorso do corpo amorenado. Tendia um pouco a ser halterofilista. Aparentava ter vinte e quatro anos.

Naquela quarta-feira Marli trabalhou normalmente, sem nenhuma relação dialogal com a dupla de trabalhadores que iam e vinham pela casa. Batiam com força uma ferramenta pontiaguda de ferro maciço contra a parede. Faziam um pouco de massa. Pouco a pouco o serviço ia aparecendo.

Na quinta-feira Marli percebeu que o ajudante a olhava além do normal. Uma flor de curiosidade, fertilizada pelo desejo do seu coração, começava a desabrochar dentro do seu peito. Começou a fazer questão de ser notada e ora outra a sorrir para ele.

Sexta-feira chegou. Marli e o ajudante se conheceram.

Ele era Nivaldo e morava num bairro do outro lado da cidade. Disse que se lembrava de tê-la vista na pracinha algumas vezes. Ela forçou a memória e reconheceu aquele rosto curioso. Ele não lhe era estranho assim. Também se lembrava dele na pracinha.

Naquele final de semana deixou a televisão e foi para a rua. Lá viu Nivaldo com um amigo. Ela estava sozinha. Celina havia se mudado para outra cidade. Sorriu para ele e foi correspondida. Aproximou-se como uma familiarizada e puxou um assunto banal. Ficou ouvindo os dois rapazes falarem de futebol até o amigo de Nivaldo sentir-se sobrando. Pediu licença e se retirou.

Nivaldo a convidou para tomar uma cerveja. Ela aceitou. Procurou fugir do seu irmão. Foram a um bar, tomaram uma, duas, três e tantas outras cervejas. Daí em diante a única coisa que Marli sabia é que estava embriagada, que era sábado e que o pai havia falecido. Podia arriscar a chegar mais tarde em casa, enfrentaria a mãe se preciso. Tomou junto com o ajudante de pedreiro mais duas cervejas, trocaram ebriamente alguns beijos e carinhos. O rapaz pagou e saíram abraçados e cambaleantes.

Caminhavam devagar para não desequilibrar seus corpos. Falavam poucas coisas, já não tinham domínio de todas as palavras de uma frase. Paravam e beijavam, olhavam um para o outro e seguiam sem comentários. Pararam em frente a uma casa em construção. Beijaram e olharam para os lados e constataram a deserteza da rua. Nivaldo a convidou puxando-a pelo braço.

- Venha aqui.

Entraram na casa em construção, só entijolada e tampada com telhas francesas. Então acharam um esconderijo providencial por ali mesmo. Uma construção a mercê de quem quisesse visitá-la nessas horas inoportunas. Beijaram o gosto azedo de cevada que estava na língua do outro.

Nivaldo desabotoou o cinto e abriu o zíper da bermuda de Marli. A bermuda desceu até o chão. Marli sentiu o membro rígido de Nivaldo se metendo entre suas coxas brancas. Afastou-se um pouco, arriou a calcinha, ergueu uma das pernas para cima de um monte de tijolos e começou a sentir vigorosamente Nivaldo dentro de si.

Mais três semanas foi necessário para que a reforma da casa da patroa de Marli ficasse pronta. Vez por outra, ela e Nivaldo se encontravam dentro de um dos cômodos da casa. Todos os finais de semana encontravam-se, bebiam e amavam.

A mãe de Marli a chamou para uma conversa. Quis saber o que estava acontecendo com a filha.

Se você não está acompanhando as postagens capítulo por capítulo. Recomece pelo capítulo:01.

sábado, 1 de outubro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 09

CAPÍTULO IX
OBSERVAÇÃO

Um mês e meio. Bastava Geovane e Tony entrarem no quarto que a mente de Marli já começava a imaginar coisas.
A curiosidade a levou outras vezes a olhar pela fechadura. Viu Geovane colocar várias vezes o pênis de Tony na boca e chupá-lo como se fosse sorvete. Marli ficava excitada e atônita ao mesmo tempo. Num destes dias que viu, desejou ardentemente está no lugar de Geovane. Em casa masturbou-se.
-Preciso apegar-me mais a religião. Pensava consigo.
Foi fazer faxina nos quartos dos rapazes. No quarto de Geovane encontrou revistas de conteúdo homossexual entre seus livros. Por curiosidade, folheou-as.
Depois passou para o quarto de Guido. Ela estava distraída limpando o chão com um pano semiúmido enrolado no rodinho e se lembrando das cenas nas revistas que folheara no quarto anterior. Nem percebeu a aproximação do rapaz. Sentiu apenas uma mão que roçou suas coxas rapidamente e forçava sua calcinha contra a vulva. Assustou-se e no que assustou, aprumou o corpo, e no que aprumou o corpo, Guido a abraçou por trás apertando-lhe os seios ao mesmo tempo em que metia a língua dentro do ouvido da faxineira.
-Não Guido, me larga. Falou a primeira coisa que lhe veio a boca.
Quando terminou de pedir a Guido que a largasse, ele fez com que o corpo dela tombasse e caísse sobre a cama. Violentamente o rapaz puxou a bermuda e calcinha, de uma só vez, deixando a moça com a região pubiana descoberta. Abriu o zíper da calça e o membro excitado pulou para fora.
-Não grita, senão perde o emprego. Eu só quero te comer.
Marli não sabia o que dizer e nem o que fazer.
-Anda, abre as pernas. Agora Guido falou autoritariamente. Meteu a mão entre as coxas da moça separando as pernas e antes que o compasso voltasse a se fechar, introduziu seu pênis excitado na vagina contraída.
Foram sete minutos de horror para Marli. Parecia que uma espada afiada a rasgava ao meio. Quando sentiu o jato quente dentro de si e o membro de Guido diminuindo de volume, deu vontade de dar um soco bem no pau do nariz dele.
-Quando eu quiser te comer de novo eu te procuro. Agora você já não tem mais cabaço.
-Nojento. Disse Marli olhando a pequena poça de sangue sobre o lençol. Correu para o banheiro, lavou-se no bidê e voltou para o quarto afim de trocar rapidamente o lençol da cama. 
-Nem isso o ordinário foi capaz de fazer.
Em casa, Marli temia que sua mãe ou irmã descobrisse o ocorrido. No emprego temia por Guido. Estava ali para ser empregada, faxineira, e não para ser amante dele. Depois, se ele tem uma namorada muito mais bonita e muito mais gostosa que ela, que transavam toda semana, por que ele ia ficar procurando uma moça pobre?
Marli passou a odiar todos os homens do mundo como se todos fossem iguais a Guido.
Três meses se passaram e Guido não a procurou. Ela entrava com cautela no quarto dele. Fazia sempre a limpeza pela manhã nos dois quarto dos rapazes. Pela tarde, quando não era Geovane e seu amigo Tony, era Guido com sua namorada.
Assustou-se Marli quando entrou no quarto de Lauciene e  a encontrou espichada sobre a colcha de xenil amarelo. Blusa e calça atravessada ao pé da cama. E aquele corpo seminu estirado no leito era uma imagem estranha para a faxineira.
Lauciene fumava vorazmente um cigarro estranho. A ponta acesa era uma lâmpada vermelha, sinalizadora, que Marli visualizava bem entre os dois seios livres da moça que usava apenas uma calcinha branca. Lauciene notou o jeito sem-jeito que Marli foi até a um canto para começar por alí a faxina da manhã. No mesmo instante que Marli abaixou para passar a vassoura por debaixo do guarda roupa , Lauciene sentou-se na cama e perguntou com uma voz torpe.
-Marli, você me acha atraente?
Marli olhou para ela sem saber o que responder. Dizer o quê, afinal?
-Marli, eu te perguntei. Você me acha atraente? A voz agora estava menos torpe e mais determinada.
Marli se encostou à parede do quarto e procurou olhar um não sei o que no teto. Lauciene levantou-se da cama, deu dois passos e acariciou o formato redondo do rosto de Marli. Estendeu mais a mão e Marli nem sabia porque estava permitindo aquele carinho na nuca.
Por iniciativa da moça seminua beijaram-se. Foi um longo beijo. Lauciene voltou a sentar-se na cama segurando as mãos alvas da faxineira. Deitou-se e trouxe uma das mãos de Marli até um de seus seios. Marli começou a explorar os seios da moça deitada e instintivamente levou seus lábios até as pontas dos mamilos roxos e pontiagudos. Lauciene passou suas mãos pelas costas de Marli sob a blusa enquanto gemia baixinho.
Lembraram que a porta do quarto estava aberta. Lauciene foi fechá-la enquanto Marli se despia até ficar com os mesmos trajes que a outra. Abraçaram-se fortemente e enquanto se beijavam novamente, os dois corpos caíram sobre a colcha de xenil com a de calcinha branca, Lauciene, sobre a de calcinha laranja e de tecido mais pobre, Marli.
As mãos de Marli descobriram as nádegas de Lauciene e consequentemente o sexo da que estava por cima já se encontrava descoberto e com a calcinha na altura dos joelhos. Levantou-se e se livrou da calcinha branca e tirou a de Marli. Amaram excitadamente e a falta de um pênis foi resolvida com os dedos de ambas.
Os dias se sucediam. A vida de Marli virou uma monotonia. Trabalho e novela durante a semana. No final de semana grupo de adolescentes depois da missa das 17h30. Praça e raramente uma paquerinha nada interessante ou que Marli se interessasse. Tanto Guido como Lauciene não a procurou mais. 
-Ainda bem. Pensava ela. Com Guido não queria, achava que jamais superaria o trauma do sexo feito a força, ainda mais sendo a primeira vez. Com Lauciene fazia força para não querer. Se já aconteceu uma vez não quer dizer que sempre vai acontecer. Com mulher não se pode.
Entrou no quarto da moça para mais uma faxina de rotina e desta vez Lauciene não a assustou com a sua nudez completa sobre a cama. A calcinha estava junto com a calça jeans jogada no chão.
-Tá afim, Marli? Perguntou.
-Não. Respondeu meio soluçado.
-Está bem, meu amor. Faço sozinha.
Marli reparou um objeto na mão de Lauciene. Um pênis de plástico imitando um membro de verdade. Marli ficou reparando de soslaio o que a moça faria com tal objeto.
Como se Marli não estivesse ali, Lauciene introduziu o objeto entre as pernas e fazia um vai-e-vem entoado com gemidos de prazer. Gozou. Riu para Marli e continuou deitada até que a faxina fosse concluída.

Passado algum tempo, Lauciene foi morar em Belo Horizonte para se preparar para o vestibular e Guido foi morar em outra casa com a loura que se engravidou. Assim Marli estava livre de possíveis assédios do rapaz e da moça bissexual. Quanto a Geovane, estava cada vez mais tendo trejeitos femininos.

sábado, 17 de setembro de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 08

CAPITULO VIII

NOTA DO BLOG: APROPRIADO PARA MAIORES DE 16 ANOS
SUGESTÃO: LEIA OS CAPÍTULOS EM SEQUÊNCIA: CAPÍTULO 01

O domingo amanheceu meio emarasmado. Marli se espichou na cama, sentou, fez o sinal da cruz com tanta pressa que seu gesto parecia mais um círculo que uma cruz. Trocou o baby doll por uma bermuda de jeans batido e uma camiseta azul lisa. Depois de fazer o toalete e tomar seu café, começou a varrer a casa.
Estava varrendo a calçada quando Carlinhos passou de bicicleta. Olhou para ela e sorriu.
-Engraçado. Riu por dentro lembrando-se de Juninho. Não soube por que murmurou aquele “engraçado”. Talvez quisesse dizer coitado. Sentia pena. Não devia ter traído Carlinhos. E se ele ficasse sabendo?
À tarde Celina apareceu em sua casa com uma fita cassete para as duas ouvirem. Era uma coletânea de músicas lentas internacionais.
A certa altura, Celina perguntou séria para Marli.
-Você terminou com Carlinhos?
-Não. Por quê?
-Ontem vi só ele na praça.
-Ah! Fui a um aniversário.
-Pensei que vocês tinham terminado porque vi ele... Ah. Deixa pra lá. Falou Celina confusamente.
-O que Celina? Agora fala que você me deixou curiosa. Interessou se Marli.
-Como foi lá no aniversário? Tentou desviar o assunto.
Marli mesmo interessada em saber o que Celina tinha visto na praça, não quis encher a amiga de perguntas secas e diretas. Mais tarde Celina acabaria contando. Por isso resolveu responder.
-Foi legal. Se eu te contar uma coisa, jura que vai ficar só entre nós duas?
-Claro que juro.
-Conheci no aniversário um cara lá do Rio. Ele é primo da Deyse.
-Bonito? Perguntou Celina.
-Gatinho.
Perguntou de novo Celina.
-Ele ficou com alguém? Celina ainda não havia entendido nas entrelinhas aonde Marli pretendia chegar.
-Ficou. Advinha com quem?
-Não faço a menor ideia.
-Comigo. Marli ficou séria e prestou atenção na reação da amiga. Celina reagiu surpresa.
-É verdade? Então você terminou com Carlinhos? Celina ainda não estava entendendo nada.
-Não Celina. E aí é que tem uma coisa. Eu não devia ter ficado com ele. E se agora Carlinhos ficar sabendo é capaz de terminar comigo. Eu não queria que fosse assim. Marli viu que havia algo de estranho em Celina que abriu um imenso sorriso e anunciou que ira contar o que tinha visto na praça.
-Marli, já que você contou o que você fez, eu vou te contar o que eu vi ontem. Carlinhos ficou com uma garota morena, aquela que anda com a Juliana que trabalha no caixa do supermercado. Então ele também te traiu. Ficou pau a pau.
Marli ficou confusa. Não soube o que dizer. Parecia que tinha levado uma bofetada na cara.
Passaram a prestar atenção no ritmo da música e daí a pouco tempo Celina foi embora.
À noite Marli estava ansiosa pra ver o que ia acontecer.
Aconteceu que Carlinhos estava com a tal garota que Celina falou. Marli teve uma vontade louca de encontrar Juninho. Queria que Carlinhos a visse com o carioca. Ficou dando voltas sozinha. Celina estava de paquera nova.
Encontrou Juninho já na companhia de uma garota do grupo de adolescentes. Marli começou a sentir no coração as surras que se leva no amor. Sentiu o gosto desagradável da rejeição e pensou que era a pessoa mais infeliz do mundo. Foi embora mais cedo e quis dormir para esquecer aquele dia.
Três meses se passaram. Marli continuava trabalhando no mesmo lugar. Às vezes achava seu trabalho inútil. Todo dia limpava a casa e todo dia a mesma casa precisava ser limpa novamente.
Marli olhava com certo desprezo para Lauciene, filha da patroa. Moça grossa e um tanto rude essa tal de Lauciene. Acordava sempre tarde, ouvia muito rock, pintava uns quadros num ateliê improvisado em um cômodo nos fundos do quintal. Era bem desorganizada. Roupas pelo chão, cadernos abertos em cima da cama, até absorventes usados misturados com o resto da bagunça. Marli quase fazia vômito ao entrar no quarto para fazer a faxina.
Os quartos dos irmãos de Lauciene eram mais bem organizados. Destes Marli não tinha nenhuma repulsa. Mantinha certa distância dos rapazes bem como de Lauciene.
Guido, o mais velho, estava para se formar na faculdade de administração no fim do ano. Dizia as más línguas que ele já era papai. Namorava uma moça loura, que quase todos os dias, ia a casa dele pela tarde. Trancavam-se no quarto. Algumas vezes Marli ouvia alguma coisa que a levava a imaginar que estavam transando. Mas não arriscava a fazer tal afirmação.
Geovane era caçula. Dezessete anos. Cursava o ensino médio de técnico em contabilidade. Era um rapazinho meio esquisitinho. Tinha um amigo chamado Tony e os dois só andavam juntos.
Era por volta das duas da tarde e Marli faltava apenas fazer a limpeza dos três quartos ocupados pelos jovens da família. Agora já fazia cinco meses que tinha rompido com Carlinhos e daí até esse dia apenas uma paquerinha com um rapaz chamado Genivaldo que não lhe agradou.
Marli foi se aproximando do quarto e ouviu algo parecido com o que ouvia quando Guido e sua namorada se trancavam. Uns gemidos de dor misturado com prazer. Uns gemidos que a fazia ficar excitada e louca de vontade de ser possuída por um homem. Ela nunca havia transado. Apenas se masturbado de leve. Ainda conservava o hímen que não rompera com as excitações clitorianas. Permitia carícias nos seios e não mais nada que isso. Sua cabeça encheu-se de curiosidade.
Os gemidos estavam vindos do quarto de Geovane. Mas com quem? Não se lembrava dele entrando com nenhuma garota em casa. Será que ele estava se masturbando ou vendo filme pornográfico? Não resistiu. Olhou pelo buraco da fechadura. Quase não acreditou na cena diante dos seus olhos. Não era masturbação e nem cenas de vídeos pornográficos. Bem que ela no fundo sempre desconfiara de Geovane, agora estava vendo com seus olhos azuis. Geovane e Tony estavam transando. O filho de sua patroa era o passivo. Ali, nus, estavam os dois. Marli ficou atônita. Não sabia o que fazer. Decidiu guardar segredo. Toda vez que via Geovane lembrava-se do fato que vira.

-Pior que o peste é até bonitão. Quem diria que ele é gay? Mas quem disse que gay tem que ser feio? Pensava enquanto espanava os livros na estante.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 07

ATENÇÃO: IMPRÓPRIO PARA MENORES DE 18 ANOS.

Se você não leu ainda, sugerimos que você leia os capítulos em sequência a partir do primeiro: CAPÍTULO 01
O domingo amanheceu meio emarasmado. Marli espichou-se na cama, sentou, fez o sinal da cruz com tanta pressa que seu gesto parecia mais um círculo que uma cruz. Trocou o baby-doll por uma bermuda de jeans batido e uma camiseta azul lisa. Depois de fazer o toalete e tomar seu café, começou a varrer a casa.
Estava varrendo a calçada quando Carlinhos passou de bicicleta. Olhou para ela e sorriu.
-Engraçado. Riu por dentro lembrando-se de Juninho. Não soube por que murmurou aquele “engraçado”. Talvez quisesse dizer coitado. Sentia pena. Não devia ter traído Carlinhos. E se ele ficasse sabendo?
À tarde Celina apareceu em sua casa com uma fita cassete para as duas ouvirem. Era uma coletânea de músicas lentas internacionais.
A certa altura, Celina perguntou séria para Marli.
-Você terminou com Carlinhos?
-Não. Por quê?
-Ontem vi só ele na praça.
-Ah! Fui a um aniversário.
-Pensei que vocês tinham terminado porque vi ele... Ah. Deixa pra lá. Falou Celina confusamente.
-O que Celina? Agora fala que você me deixou curiosa. Interessou se Marli.
-Como foi lá no aniversário? Tentou desviar o assunto.
Marli mesmo interessada em saber o que Celina tinha visto na praça, não quis encher a amiga de perguntas secas e diretas. Mais tarde Celina acabaria contando. Por isso resolveu responder.
-Foi legal. Se eu te contar uma coisa, jura que vai ficar só entre nós duas?
-Claro que juro.
-Conheci no aniversário um cara lá do Rio. Ele é primo da Deyse.
-Bonito? Perguntou Celina.
-Gatinho.
Perguntou de novo Celina.
-Ele ficou com alguém? Celina ainda não havia entendido nas entrelinhas aonde Marli pretendia chegar.
-Ficou. Advinha com quem?
-Não faço a menor ideia.
-Comigo. Marli ficou séria e prestou atenção na reação da amiga. Celina reagiu surpresa.
-É verdade? Então você terminou com Carlinhos? Celina ainda não estava entendendo nada.
-Não Celina. E aí é que tem uma coisa. Eu não devia ter ficado com ele. E se agora Carlinhos ficar sabendo é capaz de terminar comigo. Eu não queria que fosse assim. Marli viu que havia algo de estranho em Celina que abriu um imenso sorriso e anunciou que ira contar o que tinha visto na praça.
-Marli, já que você contou o que você fez, eu vou te contar o que eu vi ontem. Carlinhos ficou com uma garota morena, aquela que anda com a Juliana que trabalha no caixa do supermercado. Então ele também te traiu. Ficou pau a pau.
Marli ficou confusa. Não soube o que dizer. Parecia que tinha levado uma bofetada na cara.
Passaram a prestar atenção no ritmo da música e daí a pouco tempo Celina foi embora.
À noite Marli estava ansiosa pra ver o que ia acontecer.
Aconteceu que Carlinhos estava com a tal garota que Celina falou. Marli teve uma vontade louca de encontrar Juninho. Queria que Carlinhos a visse com o carioca. Ficou dando volta sozinha. Celina estava de paquera nova.
Encontrou Juninho já na companhia de uma garota do grupo de adolescentes. Marli começou a sentir no coração as surras que a gente leva no amor. Sentiu-se sozinha e a pessoa mais infeliz do mundo. Foi embora mais cedo e quis dormir para esquecer aquele dia.
Três meses se passaram. Marli continuava trabalhando no mesmo lugar. Às vezes achava seu trabalho inútil. Todo dia limpava a casa e todo dia a mesma casa precisava ser limpa novamente.
Marli olhava com certo desprezo para Lauciene, filha da patroa. Moça grossa e um tanto rude essa tal de Lauciene. Acordava sempre tarde, ouvia muito rock, pintava uns quadros num ateliê improvisado em um cômodo nos fundos do quintal. Era bem desorganizada. Roupas pelo chão, cadernos abertos em cima da cama, até absorventes usados misturados com o resto da bagunça. Marli quase fazia vômito ao entrar no quarto para fazer a faxina.
Os quartos dos irmãos de Lauciene eram mais bem organizados. Destes Marli não tinha nenhuma repulsa. Mantinha certa distância dos rapazes bem como de Lauciene.
Guido, o mais velho, estava para se formar na faculdade de administração no fim do ano. Dizia as más línguas que ele já era papai. Namorava uma moça loura, que quase todos os dias, ia a casa dele pela tarde. Trancavam-se no quarto. Algumas vezes Marli ouvia alguma coisa que a levava a imaginar que estavam transando. Mas não arriscava a fazer tal afirmação.
Geovane era caçula. Dezessete anos. Cursava o ensino médio de técnico em contabilidade. Era um rapazinho meio esquisitinho. Tinha um amigo chamado Tony e os dois só andavam juntos.
Era por volta das duas da tarde e Marli faltava apenas fazer a limpeza dos três quartos ocupados pelos jovens da família. Agora já fazia cinco meses que tinha rompido com Carlinhos e daí até esse dia apenas uma paquerinha com um rapaz chamado Genivaldo que não lhe agradou.
Marli foi se aproximando do quarto e ouviu algo parecido com o que ouvia quando Guido e sua namorada se trancavam. Uns gemidos de dor misturado com prazer. Uns gemidos que a fazia ficar excitada e louca de vontade de ser possuída por um homem. Ela nunca havia transado. Apenas se masturbado de leve. Ainda conservava o hímen que não rompera com as excitações clitorianas. Permitia carícias nos seios e não mais nada que isso. Sua cabeça encheu-se de curiosidade.
Os gemidos estavam vindos do quarto de Geovane. Mas com quem? Não se lembrava dele entrando com nenhuma garota em casa. Será que ele estava se masturbando ou vendo filme pornográfico? Não resistiu. Olhou pelo buraco da fechadura. Quase não acreditou na cena diante dos seus olhos. Não era masturbação e nem cenas de vídeos pornográficos. Bem que ela no fundo sempre desconfiara de Geovane, agora estava vendo com seus olhos azuis. Geovane e Tony estavam transando. O filho de sua patroa era o passivo. Ali, nus, estavam os dois. Marli ficou atônita. Não sabia o que fazer. Decidiu guardar segredo. Toda vez que via Geovane lembrava-se do fato que vira.

-Pior que o peste é até bonitão. Quem diria que ele é gay? Mas quem disse que gay tem que ser feio? Pensava enquanto espanava os livros na estante.

domingo, 21 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 06


CAPÍTULO VI
SUGESTÃO: Se você está começando a ler agora nossa novela, vá ao capítulo 01.


Três meses se passaram. Marli e Carlinhos estavam se gostando cada vez mais. A canção que havia nos sussurros de amor e nas palavras ditas pelos olhos estava cada vez mais afinada. Encontravam-se todos os finais de semana. Marli voltou a participar mais frequentemente das missas aos domingos e do grupo de adolescentes. Algumas vezes Carlinhos, com dezoito anos, foi ao grupo de adolescentes a convite dela. Não se sentia bem, pensou em entrar em um grupo de jovens.
Os encontros entre eles eram sempre iguais. Começavam com um oi, ficavam a sós, beijavam-se, abraçavam-se, despediam-se e ia cada um para a sua casa. Porém, de vez em quando, ela tentava quebrar a monotonia, desafiava a comodidade e arriscava uma carícia mais ousada. Nem o beijo no pescoço ele dava. Ela sim, cansada de esperar pela iniciativa dele, agia. Se a canção ficava cada vez mais afinada, era a ousadia de Marli que ditava o ritmo. Da parte dele só um brilho nos olhos e a presença perfumada.
Mais três meses se passaram. Marli já começava a ficar cansada da monotonia. Era legal ficar com Carlinhos. Mas dele não vinha nenhuma novidade. Ele sempre era o mesmo. Ela gostava de acariciar seu peito peludo, de beijar seus lábios carnudos. Mas ele parecia não gostar e recusava terminantemente acariciar os seus palpitantes de Marli, roçar suas coxas. Era só alguns beijos e abraços e nada mais.
Em certo sábado, Marli foi a um aniversário com o grupo de adolescentes. Carlinhos não foi.
Depois da celebração, o costumeiro comes-e-bebes e o bate-papo para passar o tempo.
Marli reparou que dois olhos estranhos a ela a acompanhava por onde ela fosse. Tentou fingir que não tinha percebido. Tentou discretamente estudar o rapaz que não tirava seus olhos feitos duas jabuticabas de cima dela.
_Até que é bonitinho. Falou silenciosamente consigo.
_Quem é aquele cara ali? Perguntou para uma colega do grupo.
_É o primo de Deyse.
Marli chegou a pensar que era alguma paquerinha de Deyse, pois estava com ela. Agora sabia por quê.
_Já que era só primo, bem, Flávia não disse que era só primo, mas deve ser só isso pelo jeito. Se fosse paquera de Deyse não estaria me olhando assim tão descaradamente. Continuou falando consigo.
Cinco minutos depois se aproximou de Deyse. Sabia que seria bem acolhida pela moça de blazer vermelho. Ela sempre fora muito afetuosa e legal. Nas reuniões do grupo era sempre a mais loquaz.
Chegou deixando um sorriso aflorar nos lábios. Deyse acolheu-a com um “oi Marli” que saiu macio, deslizando no seu batom. Os olhos de jabuticabas do rapaz ao lado arregalaram-se.
Ele disse implorando:
_Prima, apresente-me sua amiguinha.
_Marli, este é o meu primo. Falou Deyse estendendo o braço em direção ao rapaz.
_Marli, muito prazer. Falou a recém-chegada esticando o pescoço para receber os lábios do rapaz que tocaram de leve.
_O meu nome é Juninho. Falou o de olhos de jabuticabas com calma.
Marli nem percebeu a retirada de Deyse, deixou-se envolver pelo encantamento dos olhos negros.
_Você mora aqui perto? Procurou o rapaz esticar assunto.
_Moro, quer dizer, não é tão perto assim. Uns vinte minutos a pé. E você, onde mora?
_Eu moro no Rio e estou a passeio aqui em Mutum.
_Já conhecia a nossa cidade?
_Não. Mamãe é que é daqui. Ela é irmã da mãe de Deyse.
_Está gostando do passeio? Perguntou. Marli, antes de ele dizer que era do Rio, já tinha notado seu sotaque acariocado.
_Poxa, aqui é tranquilo. Estou gostando a bessa.
Sorriram juntos.
Marli sentiu os dedos do rapaz preenchendo os espaços vazios entre os seus dedos da mão esquerda. Puxou sua mão para cima e o rapaz entendeu que aquilo era um “não posso”. Talvez um “aqui não”.
Cruzou os braços e olhou nos olhos de Marli que baixou seus olhos para fugir dele. Não resistiu muito tempo olhando o par de Nike do rapaz. Preferia o seu rosto. Mirou-o bem nas sobrancelhas e constatou que ele ainda a olhava nos olhos. Olhou para dentro da sala. Estavam na varandinha que também servia de garagem e viu um pequeno grupo de colegas seus dançarem ao som de uma música pop. Olhou para a rua e viu um homem que caminhava cambaleando. Estava bêbado na certa. Olhou para o rapaz e constatou que ele, Juninho, do Rio de Janeiro, ainda estava fitando seu rosto redondo. Teve vontade de abraça-lo e beija-lo. Sabia que ali não. O grupo todo sabia que ela namorava o Carlinhos. Teve vontade de explicar isso para Juninho, mas faltava ainda um pouco de certeza de saber que realmente ele estava afim dele, se era verdade aquilo que seus olhos diziam. Podia ser só impressão dela.
Marli resolveu ir embora. Não exitou em convidar Juninho para lhe acompanhar. Ele não exitou em aceitar o convite. Saíram os dois. Ela disse que gostava do Roupa Nova. Ele disse que gostava do Kid Abelha e dos Paralamas.
Ao passarem perto de uma árvore, foram envolvidos pela sombra. Pararam, olharam um para o outro. Entenderam-se. Aproximaram-se. Abraçaram-se e se beijaram.
Afastaram um pouco e suspiraram. Voltaram a se abraçar e a se beijar. Entregaram-se aos desejos do coração.
Marli reconheceu que não ficava bem ser vista ali por um conhecido. Agora tinha certeza de que ele estava afim dela e resolveu falar da existência de Carlinhos.
_Deixe me ir. Falou mansamente.
_Fica mais. Está legal aqui cm você.
_Não posso. Tenho namorado.
_Ah! Entendi. E tinha entendido mesmo.
Só mais um beijinho de leve e se separaram.

Marli chegou a sua casa um pouco tarde. Já eram dez e meia e sua mãe a esperava vendo filme. O namorado da irmã já tinha ido embora. Entrou pela sala e antes que a mãe falasse alguma coisa, beijou-a no rosto.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 05


(SUGESTÃO: Se você ainda não leu os capítulos anteriores, leia a partir dos links: 01,02,03 e 04.



Sexta-feira. Marli adiava o máximo que podia o fim da felicidade do dia anterior. Não ficou presa nos momentos desagradáveis daquele dia. Voltou alegre para casa e não achou a faina pesada.
Chegando a sua casa, tomou suco de abacaxi e procurou logo o chuveiro. Sentada na calçada, ficou esperando Carlinhos passar a qualquer momento. Esperou um bom tempo e ele não passou. Voltou para ver a novela.
Seus pais saíram e ela ficou apenas com a irmã que puxou assunto.
_Hoje a tia Joana esteve aqui em casa.
_Sozinha? Perguntou Marli.
_Sim. Eu perguntei pelo José Roberto e pelo jeito ele te enrolou. Tia Joana disse ele está paquerando uma moça de lá mesmo.
Marli recebeu a informação surpresa. Um nó desceu-lhe pela garganta. Engoliu seco. Recompôs-se logo em seguida lembrando-se de Carlinhos.
O fim de semana chegou e um fato alegrou Marli. Seus pais iram passar o domingo na roça. Vão ficar as duas moças em sozinhas. O irmão caçula também vai passear com os pais.
Sábado à noite, pracinha. Era a chance, a grande chance de Carlinhos. Só se Carlinhos não quisesse. Ela sabia que ele não tinha nenhum caso, a não ser que fosse muito secreto. Secreto demais. Ela ainda não tinha digerido bem o golpe dado pelo José Roberto.
Não foi difícil localizá-lo. Ele sempre fica no mesmo lugar com mais dois amigos. Marli sentiu uma tremedeira nas pernas quando ia passando perto dele. Controlou-se. Olhou para ele e sorriu. Sorriso correspondido. Era a senha. Deu mais uma volta para ver no que daria. Deu certo. Ele desacompanhou-se dos amigos e ficou só. Ela aproximou. Deram-se as mãos. Não precisou preocupar-se com Celina. Ela já estava preparada e soube o que fazer.
Daí a alguns instantes parecia existir um mundo único, exclusivo, para Carlinhos e Marli. Beijaram-se, abraçaram-se, beijaram-se, abraçaram-se...
Conversaram um pouco, coisas banais. O que de sincero tinham para revelar um para o outro, não era preciso ser dito. Estava tudo escrito nos olhos como propagandas em um outdoor.
As mãos pequenas de Carlinhos explorou cada detalhe do rosto de Marli e ela conteve-se só com os beijos e abraços. Não tentou nenhuma carícia mais ousada. Deixou a iniciativa para ele que em nada ousou. Talvez tenha sido pelo fato de estarem na pracinha. Foram embora juntos e a única coisa que Marli precisou dizer, pois não coube escrito em seus olhos, foi sobre a ausência dos pais em casa no dia seguinte. Isto é, no dia seguinte também. Combinaram de se encontrar às duas as tarde, na casa dela.
Domingo, quando Marli acordou os pais já haviam saído. Espreguiçou na cama. A irmã havia se levantado. Abraçou o ursinho que ganhou da madrinha quando completou doze anos. Lembrou-se que daí a alguns dias completaria seus quinze.
Encostou o ursinho de pelúcia de lado. Descobriu-se e nem preocupou em vestir-se. Foi para o banheiro trajando o mesmo vestuário que passou a noite dormindo: Apenas uma calcinha creme e um sutiã branco que cobria o par redondo de seios, também brancos.
A irmã mais velha quando a viu, estranhou. Mas logo passado o primeiro impacto, achou normal o que as vezes também fazia.
Depois de escovar seus dentes, banhar o rosto e pentear os cabelos, voltou para o quarto. Colocou a bermuda laranja de cotton e uma camiseta amarela com um surfista fazendo uma acrobacia na estampa e o nome surf em letras vivas. Tomou o café da manhã comodamente e começou a ajudar a irmã nas tarefas cotidianas de uma cozinha que não conhece feriados e nem domingos. Por um bom tempo esqueceu o encontro à tarde.
Só quando estava almoçando é que se lembrou. Olhou para o velho relógio de parede e constatou que faltavam apenas uma hora e meia. Apressou as garfadas e não quis ajudar a irmã na lavagem das louças. Descansou esperando o tempo passar. Cochilou e acabou adormecendo.
Acordou. Foi à sala e dessa vez somente vinte minutos a separava de Carlinhos.
Depois de um banho caprichado e de perfumar-se com uma colônia de aroma agradável, estava pronta e distante apenas dois minutos do rapaz que chamaria pelo seu nome e ela abriria a porta. Diria um oi, uma boa tarde, um não sei lá o que. Diria alguma coisa que não fosse desagradável e cairia bem. Na hora saberia o que dizer. Essas coisas a gente não precisa ficar ensaiando. Não é teatro, ficção. É verdade, a doce verdade em alguns momentos da vida.
Os dois minutos passaram como se fosse dois dias. Agora era realíssima a voz lá fora que chamava por ela. Respondeu um oi que certamente Carlinhos não ouviu do outro lado da porta.
Porta aberta, aperto de mãos e um único sorriso estendido entre as duas bocas. Sentaram-se no sofá e seus olhos se encontraram. Encontraram-se também as mãos e os lábios.
Depois de alguns beijos, Marli sentiu a mão do rapaz, que deixou de acariciar única e exclusivamente o seu rosto, na carne do seu pescoço. A suavidade de suas mãos curvou em direção à nuca. Seus lábios deixaram os lábios dela e ela ficou esperando que ele beijasse sua região auricular. Como ele não a beijou na localidade esperada, ela é que bombardeou o pescoço dele com beijos e toques de língua fazendo o rapaz sentir uma descarga de hormônios dentro de si. Ele não retribuiu esse carinho, provocando certa frustração em Marli. Então ela se aproximou mais dele e jogou-se toda sobre os seu corpo. Os dois quedaram, indo de encontro a uma almofada no canto do sofá.
Como num facho de lua cortando a escuridão, veio à memória de Marli o que dizem a respeito dos peitos peludos. Cautelou-se antes de tomar mais uma iniciativa. Mas havia um forte desejo pedindo para sair de dentro do seu coração. Enfiou suas mãos sob as listras largas nas cores azul e branca alternadas da camisa do rapaz. Seus dedos começaram a passear sobre a relva de pelos negros. Pensava ela consigo:
_Se ele quiser tocar nos meus seios, deixou ou não? Se minha irmã nos flagrar numa carícia mais íntima, o que eu vou falar?
Mas não, ele não quis tocar nos seios dela. Ficou contente só com os beijos e ela no fundo não fazia questão de tal carícia.

Cinco horas da tarde despediram-se em mais um beijo longo e ele foi embora. À noite ela não saiu. Resolveu descansar.