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quinta-feira, 6 de maio de 2021

ERVILHAS E ATUM

 

            Aquele rosto morto, ensacado pelo inverno do ano mais triste e doído de sua vida, acordou juntamente com ela para mais uma quarta-feira. E todos os dias da semana se pareciam iguais. Domingo à tarde e uns dois dias por mês é que era diferente. Mas tempo apenas para descansar e organizar as coisinhas em casa.
            O supermercado com suas prateleiras cheias de produtos necessários a todos os padrões de consumo na cidade engaiolada pela pressa e falta de poesia da mulher e do homem que traz atravancado em seus tornozelos os grilhões da sobrevivência, a esperava para engoli-la por uma longa jornada de trabalho, e depois vomitá-la, expelindo-a através dos logradouros do bairro operário para dentro da sua caixinha de alvenaria para a qual dão o nome de casa.
            R$ 53,00. Ele lhe entregou R$ 60,00. Ela lhe devolveu R$ 7,00 enquanto que a empacotadeira colocava num misto de pressa e cuidado os pacotes de cereais e latas de conservas em sacolas de materiais nada degradáveis. A matemática naquele instante foi simples demais. Mas na quinta cavidade do seu coração, aquela invisível a qualquer raio-x, faltava algo. O troco que a vida havia lhe dado não era o suficiente diante da perda que teve. Tinha sido deixada por aquele homem que a havia preenchido de carinho e decepções nos seus últimos sete anos de sobrevivência.
            Desde então a jornada, para a sua sensação, havia se tornado o dobro mais árdua. E ele, aquele desgraçado, estava comprando aqueles cereais para quem? E aquela latinha de ervilha?
            Era a primeira vez depois da separação que ele entrava no supermercado e passava diante dos seus olhos. Tanto ele, como ela, agiram com naturalidade, a mesma de quando estavam juntos e ele ia lá, comprar o que ele tinha vontade. O homem durante sete anos gostava de atum e detestava ervilhas.
            A empacotadeira sorriu com o canto da boca quando ela abaixou a cabeça para respirar fundo. Pensava qual seria a reação da caixa quando soubesse para onde estava indo aquela mercadoria. Nesse mundo sem poesia, sobrava drama mesmo no recheio da dureza operária.
            Fim da jornada. As duas almas femininas e famintas tomaram o rumo de suas casas. A empacotadeira subiu a ladeira feliz. Iria desfrutar de sua conquista e discutir com ele como contaria para a colega de trabalho. Não poderia segurar tamanho segredo por tanto tempo.


            Ela caminhou cabisbaixa, derrotada, pela avenida até entrar na ruela em que morava. Abriu a porta e sentiu o cheiro de comida sendo preparada. Era ele ao fogão. No jantar haveria atum para ele e ervilha para ela em celebração ao seu retorno inesperado.
            A empacotadeira chorou diante do bilhete de despedida sem ter forças para encarar a colega de trabalho no dia seguinte. Resolveu não ir mais.


CONTO DA QUINTA PASSADA




domingo, 11 de abril de 2021

NOITE, DIA E TANGO: PENTALOGIA DAS MINHAS PÉTALAS SEMANAIS - XI

 

    Faz de conta que ainda é cedo
    Tudo vai ficar por conta da emoção
    Faz de conta que ainda é cedo
    E deixar falar a voz do coração
    (Um dia de domingo – Gal Costa e Tim Maia)
 
    Quando se deixa falar a voz do coração pode-se ouvir uma voz suave, romântica, falando do encontro, ou uma voz lacrimejante, falando dos desencontros. Um poema nasce assim, desta voz que vem de dentro, mas todo poeta precisa estar atento aos sinais dos tempos.
            Na realidade nem tudo que um poeta escreve vem de dentro de si, mas de dentro de alguém. Como somos seres diversos, temos vários universos. A dor presente no poema pode ser a dor de alguém que o poeta sequer conhece. Mas ele sabe, ouvindo a voz do seu coração, que aquela dor é humanamente possível, ou desastrosamente uma consequência do desamor que nos impingimos sempre.
            Neste domingo, onze de abril, trago três poetrix intercalados por dois indrisos.  Vamos aos poemas (pétalas).
 
 *****

PÉTALA I
NA TELA DO COMPUTADOR
 
Teu NOME em caixa alta
Como extensão de mim
O meu teclado te exalta

    O nome da pessoa amada é exaltada até pelos equipamentos de trabalhos, e na pandemia, em home office, o teclado passou a ser extensão do nosso próprio corpo.
 

PÉTALA II
NOITES LONGAS E DIAS CURTOS
 
Em um lugar de noites longas e sol raro
Perco-me na selva silenciosa e sombria
Eu rastejo sem teu abraço, meu amparo
 
Em tempos de dias curtos e lua opaca
Afundo-me na areia movediça da agonia
Eu não sei se sou o caçador ou a caça
 
Um medo uiva dentro de mim e me acua
 
Eu te amo na cama que a mente insinua

    Em um ambiente que se aproxima do gótico, onde a natureza em nada favorece o homem preso na lembrança de um amor, a insanidade começa a beliscar suas certezas. 

 *****

PÉTALA III
RESSONAR DE UM MOMENTO
 
Ouço roncar em mim
A voracidade do verme
Ela disse que era amor
 
    A solidão rói por dentro como um verme depois de uma desilusão amorosa.

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PÉTALA IV
O DIA QUE EU POSSO TER
 
Com meu corpo sovado por pesadelos
Eu abro meus braços para acolher o sol
A magia da manhã cura minhas feridas
 
Enquanto busco uma fenda qualquer
Na muralha que encastela meu viver
Eu arranho as lembranças pungentes
 
Sei que o dia tem pouco a me oferecer
 
Mas hoje este é o dia que eu posso ter

    Viver cada dia como se fosse o único. Uma pétala de alento em meio a outras que sangram com os espinhos da vida.
 
 

PÉTALA V
COM(PASSOS)
 
Enquanto eu sangro
A Minha vida segue
No ritmo de um tango

    A vida precisa seguir ainda que seja em ritmo de tragédia, típica de um tango invisível nos conduzindo pelo destino.
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Leia indrisos de minha autoria em

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O HOMEM & SUAS PERDAS



OUTRAS PÉTALAS SEMANAIS



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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

LIVROS À VENDA

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