sexta-feira, 20 de julho de 2018

O DIA IGUAL (MINICONTO)




Quando acordei percebi que hoje está tudo igual a ontem pela manhã. Todas as coisas na mesma disposição e quando me dei conta estava vestido com as mesmas roupas de um dia atrás, algo que não tenho o hábito. Esquisito. Mas é assim que está começando meu dia. Na rua os mesmos carros passando por mim no mesmo local e na mesma hora. Incrível, mas o dia está se repetindo. Algo dentro de mim começa a se questionar se não é loucura. Mas penso que não. Deve ser apenas coincidência.
E está tudo no mesmo lugar, as mesmas pessoas e as mesmas palavras que ouvi a vinte e quatro horas, e eu continuo achando que é coincidência até me dar conta que ontem pela tarde eu fui assassinado. Tento fugir, mas minhas pernas me traem. Estou, enfim, no mesmo ponto que levei o tiro fatal e o meu executor está do outro lado da rua levando a mão para pegar sua arma. Eu apenas respiro fundo e abraço definitivamente a morte, mais uma vez.

terça-feira, 19 de junho de 2018

INTERVENÇÃO CIVIL


Mutum, 19 de junho de 2018.

Camarada Olev,

Os dias, esses dias em que a gente não sabe para onde vai. Dias de copa do mundo em que o Brasil parece ser o porão, onde tudo o que não presta, fica aqui. O político corrupto, a estatal que opera como se fosse uma empresa privada, a empresa privada que precisa de ajuda do estado.
Seu país não está na copa e você ainda continua gostando de ciclismo. Daqui alguns dias o Tour de France. Sim, você se lembra, foi nele que nos conhecemos. Conversamos e descobrimos que temos ideais em comum. Aqui no sul estamos começando a perder a fé na democracia.
A sua consanguínea, depois de apeada do poder, veio para Minas e parece querer ir para o senado. Torço por ela e até voto nela. Eu continuo no PT, não é hora de sair. Não penso que o barco está afundando. Um pouco a deriva, sim.
Mas o partido ainda está em Minas. Salário pouco atrasado para nós da educação. Mas o governador é herói por nos pagar até mês passado.
No município, o ódio espalhado pela grande mídia chegou. Tentaram acertar o prefeito, foi o que me contaram, e acertaram a esposa dele que raramente o acompanha. E, acredite, o cara está fazendo uma puta administração. Ele consegue em meio a essa crise toda, tocar a vida do município. Tiro o chapéu para ele.
Como anda a sua Bulgária? No vôlei tudo bem, né. Você então tira onda por ter derrotado o Brasil. Justamente no dia que estávamos estreando na copa do mundo, aí pertinho, na sua velha Rússia. O fato passou despercebido por aqui.
O Temer já terminou seu governo. Acho que ele nem começou. No Brasil, os dias se arrastam até chegar o dia desse homem cadavérico passar a faixa.
Muitos falam em intervenção militar. Eu pensando aqui em intervenção civil. Penso que podia ser a CNBB, alguém ligado à cultura e a OAB. Talvez um evangélico, Silas Malafaia, por exemplo. Alguns vão dizer que ele é homofóbico. Que seja. Ele representa a parte do Brasil que também é. Gente séria. Também tenho dito que a gente precisava reunir umas quarenta mil pessoas em Brasília, e exigir a renúncia de todo executivo atual e de todo legislativo, bem como do tal Supremo. Todos estão falhando e todos perderam o fio da meada. Sei que tem lá os 5% que é diferente. O pouco que honra o voto. Em um deles eu votei, para ser deputado. Mas acho que ele não se importaria de se sacrificar para o Brasil ser passado a limpo.
Intervenção Civil, preciso avançar e falar mais disso. Não só para você, mas para os poucos que ainda me ouvem na República temerativa do Brasil.

Fraternalmente, um abraço.


Cláudio Antonio Mendes

O VENENO



Temos o direito
De pensar
De pescar
No leito do rio
Que havia
Quando chovia

Temos só o dever
De não dever ninguém
Nem grana, nem explicação
E sempre ter a solução
Do problema
Quando o cinema
Não traz diversão

Temos o caminho
Que passa pela rosa
Que passa pelo espinho
Mas que leva
Para a terra
Sem trevas

Ninguém tem nada
Na sua bagagem
Além da bobagem
Que cometemos
Quando nos metemos
A colocar no poema
O pão, o veneno, o dilema

domingo, 3 de junho de 2018

CINZA




Assim que tudo se transformar em cinzas
Vou encher meus pulmões de gases tóxicos
Mas a lembrança que lateja em meu cérebro
Dá-me a certeza de que nem sempre foi assim

As manhãs de sol preguiçoso no lado leste
E a feira nos vendendo frutas e convivências
Tangendo um viver tão simples e tão sincero
Fragmentos de um céu possível entre os montes

As tardes de trabalhos e observações quando eu
Esse eu que talhou madeiras e palavras em versos
Para construir o mundo objetivo e subjetivo
Para amparar corpos e almas da minha espécie

E as noites que chegavam sem nos amedrontar
Sem precisarmos lutar contra nossas sombras
Ou então viajar pelo portal de um copo de veneno
Em bares ou em lugares nada recomendáveis

O cinza da aridez de uma paisagem que morreu
É tudo que tenho além das doces lembranças
Em dias que o pão não passa de uma saliva seca
Engolida junto com a lágrima que desceu ao acaso
Pelo sulco no rosto que já recebeu carícias de tuas mãos

sexta-feira, 1 de junho de 2018

OS DRAGÕES QUE DEVORAM ROTAS





(TRINCA DE POEMAS CURTOS)
A HONRA

Minhas princesas se descabelaram
Diante das batalhas perdidas
E do reino afogado em sangue

Derrotado, ainda assim eu sigo
Alimento-me do gosto do perigo

Meus castelos se desmoronaram
Diante dos ataques inimigos
Mas a honra permanece comigo



*****


A LUTA

Vou correr para abraçar meu amor pela última vez
A vida é frágil
A morte é ágil
As flores são serenas em seu fenecer no verão

Vou curtir o único e último adeus a mim dispensado
Pelos olhos fixos
Pela fêmea forte
Que foi a mulher me defendendo em batalhas inóspitas

Sigo a luta firme
Os dragões que devoram rotas moram na próxima esquina

*****
A NOITE

Saindo de casa
Enfrentando a solidão
O sereno e a noite

Deixo a porta fechada
Nada me conforta

Sei de tudo que dói
E de heróis que morrem
Quando o amor se esvai

quinta-feira, 31 de maio de 2018

CORPUS CHRISTI & HABEAS CORPUS




         A turma do “quero-mandato” anda apreensiva, exceto os caras-de-pau, ou ao menos, veem suas rotas alteradas com os fatos no Brasil.

        O presidente fez da República Federativa a sua república temerativa. Dentro desse propósito, transformou o planalto central em uma república estudantil, abrigando fanfarrões e catedráticos num mesmo recinto.
         Penso nessa quinta-feira, dia de Corpus Christi, onde lembramos da doação do Verbo Feito Carne para que a humanidade soubesse que através da entrega pudéssemos, amando o inimigo, dando a outra face, construir realidades onde possa haver libertação de todos os homens e do homem no todo, que a vida poderia ser melhor de fato e não apenas melhor de foto.
         A realidade está latente nas ruas, nas filas no posto de gasolina como foi ano passado nos postos de vacinação aqui em Minas Gerais por causa do temor da febre amarela. A realidade grita por melhores condições de vida, mas o Brasil não é um Estado de Direito, e sim, um Estado de Desejo. Peço que nenhum de nós, pindoramenses, queremos direito, por ter direito, ou viver em um Estado de Direito significa também ter deveres. E como detestemos deveres, e como somos preguiçosos, somos todos Macunaímas, não queremos também direitos. Queremos sim, o que desejamos.
         Entendo que a humanidade evoluiu. As pessoas estão cada vez menos sendo objetos, e sujeitos de suas condutas. No entanto, com nosso espírito de Macunaíma, nós não queremos pensar. Então preferimos as interdições militares sem ao menos pensar no que isso significa de fato, para além das fotos. Quando penso, existo, segundo René Descartes. Existir em um Estado de Direito é estar constantemente pensando na economia, na política, na cultura e sobretudo na ascensão social. Não pensar, ainda que seja não existir, é melhor. Ficar transferindo reponsabilidades é melhor também. Só que a liberdade está em seguir um caminho, falar sempre a verdade e viver, isto é, existir.
         Há um Jesus histórico, mencionado nos escritos de Flávio Josefo. Ele que hoje é homenageado em forma de tapetes diversos nos diversos lugares existiu, pois pensou nos humildes, nos oprimidos, agrupou homens e mulheres, fez a distribuição do pão e como pão, distribuiu sua própria carne. Ele não só teve um caminho a seguir, como se fez caminho. Ele não só falava as verdades, independente do que seus seguidores queriam ouvir, pois Ele é a verdade.
         Quem pensa, existe. E quem existe é mencionado na história, seja de forma individual ou grupal.
         O Corpus Christi celebrado hoje por uma parte dos cristãos, nos liberta de todos os males. Mas quem não segue seus ensinamentos e se envereda pelas teias da politicagem, atendendo a turma do “quero-mandato”, para ficar livre das simples grades de ferro, precisa de outro tipo de corpus, o habeas corpus do Gilmar Mendes.
         Comungar o corpo de Cristo não converge com ser corporativo quando o objetivo é transformar nosso Estado de Direito em Estado do Desejo. E o desejo não liberta. Assim penso.

        
         quinta-feira, 31 de maio de 2018

O CÃO DO FOCINHO VERMELHO


Carimbando meu passaporte
Eu penso que o céu pode se desesperar
Minha mãe pegou-me pela mão enquanto eu bebia leite de uma vaca
Que pastava
Que pastava
Enquanto a saudade de tudo martelava o mourão da cerca

A chuva que molha o terreiro
Despertando o aroma de solo fértil
Cio da terra?
Algo parecido
                                      Algo impensado
O cio da terra e aquela porca presa por uma corda velha

O terreiro está perdido em sua missão secular
Corto estradinhas para meu novo carrinho de brinquedo
Eu, menino
O terreiro tem a missão de ser vigiado pelo Tenente, 
O cão do focinho vermelho

Mas a tarde vai se acomodando sobre o pasto
No sítio que vive em minhas doces lembranças