terça-feira, 9 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO - CAPÍTULO 02

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO

CAPÍTULO II
Aos treze anos a vida de Marli era sem Nivaldo. Morava em outro bairro com seus pais, uma irmã mais velha e um irmão que era o caçula da casa.
Despertada para o encanto de ser mulher, acolheu sua primeira menstruação com ânsia e curiosidade. Chegou a achar que estava passando da hora. A de sua amiga, Celina, chegou aos doze. Sentiu-se feliz e não se conteve. Contou para sua mãe e para sua irmã. Da sua irmã recebeu orientação prática de como conviver com esse fenômeno biológico para que não se torne algo incômodo. Da mãe ouviu conselhos de como se comportar nos futuros namorinhos.
Namorinhos ainda não tinha tido. Nem paquera. Achava bonito o mesmo rapaz que todas as demais adolescentes da rua achavam. Contentava-se só de vê-lo passar em frente à sua casa, sobretudo de bermudas estampadas.
Aos catorze anos precisou procurar um emprego para ajudar em casa. Encontrou uma proposta logo na primeira semana de tentativa. Todo dia, exceto domingo, fazia faxina na casa de uma família nobre na cidade. Eram donos do maior supermercado. O trabalho era cansativo. Desistiu dos estudos para sobrar mais tempo e assim assistir as novelas e conversar com suas amigas sobre rapazes.
Não demorou muito para começar a ouvir a sinfonia de assovios pelas costas na ida e na volta do emprego. Não demorou também a primeira paquera. Foi no casamento de sua prima na roça. Estava caminhando de volta da igreja junto com um expressivo grupo de pessoas e instintivamente foram se afastando dos demais. Foi se isolando com seu primo do resto do pessoal.
Não disseram nada quando praticamente estavam um para o outro. Ficaram alguns minutos sem iniciativa. Os que percebiam o isolamento dos dois adolescentes nada comentavam por que eles também, par a par, procuravam o mesmo.
O destino do grupo caminhando por uma estradinha na boca da noite era a casa da prima de Marli que se aproximava. Alguma coisa entre ela e seu primo precisava acontecer. Marli não conseguia definir o que realmente seria: Um abraço? Vários beijos e vários abraços? Beijos como nas novelas? Decidiu deixar a iniciativa para o primo.
Na cabeça do rapaz passava os mesmos questionamentos. Sentia que a iniciativa teria que ser dele. Aproximou-se mais da mocinha, esticou o braço direito e a envolveu, puxando-a para perto do seu corpo. Virou um pouco de lado o pescoço e seus lábios deram de encontro com os lábios dela que estavam esperando por isso.
Foi aventuroso e emocionante. Seu coração pedia mais. Marli olhou em volta para ver se teriam chamado atenção dos demais caminhantes. Bem a frente viu um casal de namorados se beijando discretamente para não escandalizar os velhos, adultos e crianças que caminhavam adiante. Marli também presenciou outros casais fazendo naturalmente o ela tinha acabado de fazer pela primeira vez.
O vulto do último velhinho estava um pouco aquém. Ele não estava conseguindo acompanhar o resto do povo que tagarelava com veemência. Parecia um carnavalesco perdido na avenida. Marli voltou a olhar para seu primo, inibida com a presença do ancião, e sabia que o tempo estava ficando escasso. Atreveu dessa vez, ainda inibida, tomar a iniciativa. Beijos e beijos sucederam-se.
Daí a vinte e cinco minutos, o pessoal todo estava chegando ao terreiro da casa da nubente. Marli e seu primo tiveram que se separarem por alguns instantes apenas. A menina-moça já havia matutado um jeito de dar prosseguimento aos fatos acontecidos durante a caminhada.
Marli e sua prima, irmã do seu primo-príncipe encantado, foram se arredando de mansinho para trás de uma tulha. O único na multidão que acompanhava a retirada estratégica das duas moças era o rapaz que parecia muito feliz. Logo deu jeito de chegar ao local mais escuro de toda borda do terreiro com um amigo que era esperado pela irmã dele.
Agora, atrás da tulha, Marli foi mais ousada que na estrada. Abraçava com mais tenacidade e beijava com mais voracidade, acariciava com mais afabilidade. Ficou tranquila e permitia ser acariciada nos pontos erógenos. O que mais a excitou foi ter a língua dele dentro da sua orelha. Arrepiava-se toda. Gemia baixinho de prazer. Reparou que sua prima estava sendo tão ousada como ela e teve razões para ser mais ousada ainda.
Aquele momento foi inesquecível. Demorou dormir relembrando cada gesto, cada carícia, cada beijo. Reviveu em sua mente todas as cenas. Procurou não fantasiar. Não ficar imaginando o que de fato não aconteceu. Começou a repensar pela terceira vez desde a primeira troca de olhares entre eles. Antes de chegar ao escurinho da tulha, foi roubada pelo sono.
Na manhã seguinte foi despertada pela tia. Levantou-se, vestiu-se e depois de penteada, lavou o rosto no banheiro. Bochechou apenas uma água fria para limpar os dentes e chegou à cozinha da casa. Sentou-se numa cadeira rústica para tomar o café que acabara de passar pelo coador de flanela. Tomou o café da manhã às pressas para não perder o “caminhão de leite”, única condução para a cidade.
Marli não via a hora de encontrar sua amiga para falar sobre a sua primeira paquera com direito a beijos e excitações.
O caminhão foi fazendo ziguezague em torno da estrada principal. Parecia que nunca iria chegar à cidade. Seu primo não saia do seu pensamento. Não estava nem um pouco interessada no que as mulheres sentadas ao seu redor estavam falando. Os homens concentravam-se na parte de trás da carroceria enquanto as mulheres acomodavam-se na parte dianteira sobre tábuas felpudas.
Demorou, mas chegou. Abraçou a mochila e só de um salto bateu com os pés firmes sobre o calçamento cinzento. Torceu o corpo e começou a andar em direção a sua casa. Chegando a sua casa, foi recebida com manifestação de carinho e de saudade pelos demais componentes da família. Até Chiquitita, a cadelinha magra, parecia ter se alegrado com a chegada da mocinha.

Banhou-se e colocou roupas frescas. Almoçou e voltou a deitar-se na sua cama comum. Não conseguia esquecer o prazer daqueles beijos na estrada enluarada e no escuro da tulha. Sentia-se mais mulher. Agora sabia por que a irmã ficava alegre depois do encontro com seu namorado. Dormiu voando num cavalo alado sobre oceanos de florestas verdejantes. Dormiu para acordar às três da tarde de domingo em Mutum.
Pegou a toalha listrada e banhou-se novamente. Assim que estava saindo do banho, ouviu a voz da amiga que chegava a sua casa.
_Agora posso contar para alguém. Pensou consigo.
Chamou a amiga para o quarto ocupado por duas camas e uma cômoda que também servia de penteadeira.
_E aí? Como foi lá no casamento? Qual a novidade? Quis saber a amiga curiosa, certa de que havia alguma novidade. Estava estampado no sorriso largo de Marli.
Marli firmou os olhos em algum ponto misterioso do quarto e falou como se quisesse e ao mesmo tempo não quisesse contar sobre os fatos de ontem.
_Fiquei com meu primo. Você precisava ver. Foi o maior barato.
_Beijaram?
Marli esticou o braço e ligou o toca-fitas num volume suportável.
_Vários beijos. Nossa! Foi sensacional.
_Até que enfim você conseguiu.
­_Não te falei que alguma coisa me dizia que eu ia ficar com alguém naquele casamento. Ele disse que passando esse final de semana que vem, no outro, ele vai vir aqui na cidade para ficar comigo. Não vejo a hora de vê-lo novamente.
_Mas ele é seu primo.
_E o quê que tem? Só por que a gente é primo? Será que a gente não tem o direito de ser feliz?
_Vai sair hoje?
_Só vou sair no dia em que ele vier aqui.
_Ih! Já tô vendo. Agora vai ser Deus no céu e esse seu primo na terra. Só falta dizer que só vai a missa ou no grupo de jovens no dia em que ele for.
_Acho que estou apaixonada.

Celine sorriu despretensiosamente, despediu da amiga e voltou para sua casa.

LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A ÚLTIMA RECONCILIAÇÃO – CAPÍTULO 01




As lágrimas... Tristes lágrimas que lhe faziam arder os olhos. Lindos olhos azuis como o céu. Agora como um céu nublado.
O seu rosto ainda doía só de se lembrar daquelas mãos brutas e cruéis. Mãos que ora lhe acariciavam, ora lhe surravam. E ali jogada na cama sobre as flores desbotadas de um surrado lençol, testemunhas das noites de falta de amor, chorava com mais profundidade tentando fazer com que todo seu ódio saísse pelos olhos.
Marli olhou para o espelho empoeirado da penteadeira e descobriu seu rosto entre os frascos semivazios de perfumes.
Era a terceira vez nesta semana que levava uma surra do seu cônjuge. Dias turbulentos pairavam sobre o destino desta pobre mulher. Engoliu seco. Sentou na cama e se mirou novamente no espelho revendo o seu rosto. Passou a mão nos olhos para secá-los. Esfregou ela as duas mãos no rosto para descaracterizar as marcas dos dedos do seu carrasco e começou a pensa no passado.

Passado. Agora o que tinha era uma casa de apenas dois cômodos: quarto e cozinha e um banheiro adjacente. Na realidade o pequeno banheiro é um espaço tão reduzido que mal dá para se virar dentro dele. Se a gente entrar de frente tem que sair de costa. Se entrar de costas tem que sair de frente.
Era preciso se levantar para preparar o almoço senão corre o risco de levar outra surra quando Nivaldo chegar com seu estômago vazio e aquele hálito de cana azeda. Pensou mais uma vez no hálito de Nivaldo quando lhe forçava um beijo:
­_Que nojo!
Levantou-se agora para valer. Procurou o par de havaianas, pois o piso estava frio para os seus pés suados. Passou a mão pelo vestido para desamarrotá-lo um pouco. Deu mais uma olhada no espelho confirmando o que já desconfiava. O rosto marcado de roxo ainda estava. O roxo da violência ainda persistia em morar na sua linda face arredondada.
Caminho cambaleando até a cozinha, o outro cômodo do pequeno barraco, e começou a preparar o almoço. Depois de afogar o arroz e o feijão, pôs se a descascar os quatro pepinos dentro de um escorredor de macarrão amarelo. De vez em quando engolia seco lembrando-se da surra que levou.
Enquanto descascava o penúltimo pepino, deu-lhe uma louca vontade de trair o esposo como vingança. Queria desforrar. Não tinha força física para retribuir com a mesma moeda. Mas, mesmo surrada, tinha beleza suficiente para chamar a atenção de qualquer homem. Ontem mesmo foi cantada pelo dono da mercearia quando foi comprar um quilo de sal. Não, com o dono da mercearia não queria. Seria apenas uma a mais. Ele a possuiria como qualquer uma. Conhecia a fama dele na cidade. Não valorizava as mulheres.
Foi até o armário e pegou a carteira de cigarros. Precisava fumar. Estava nervosa e não via a hora de cortar o dedo picando os pepinos. Já bastava a dor das pancadas. Acendeu o cigarro e recolocou a carteira sobre a caixa de anticoncepcional. Pensou em Nivaldo que chegaria dai a pouco com sua carroça e com seu azedume no bafo. Certamente entraria pela porta com muita pressa e ficaria em silêncio.
Acertou. Tal como pensara há alguns minutos atrás. Ele entrou pela porta e foi logo sentando na cadeira mais próxima que, como Marli, parecia estar esperando por ele.
O silêncio reinou absoluto no recinto. Quebrado de vez em quando pelo tilintar do alumínio das vasilhas e dos talheres.
Os olhos de Nivaldo acompanhavam de soslaio as carnudas pernas de Marli sustentando o resto daquele corpo espancado pela brutalidade de um homem sem domínio de si.
Nivaldo lembrava-se agora de uma reza que fizeram há dias atrás em sua casa. Leram e falaram coisas bonitas a respeito da família. Como colocar em prática o que foi falado naquela reza? Não, não devia ter surrado Marli mais uma vez naquela semana.
_É que na hora a gente perde o controle. Não pensa. Falou ele para si mesmo em silêncio.
Quando Nivaldo percebeu que o almoço estava pronto tomou a iniciativa. Encheu seu prato, tinha bom apetite, e acomodou-se no mesmo lugar onde apreciara por alguns minutos as pernas carnudas de sua esposa enquanto se arrependia do ato feito.
Marli o olhava no rosto com ódio. As lágrimas não foram suficientes para subtrair todo esse sentimento que faz azedar o estômago. Engolia com certa dificuldade os grãos de arroz cozidos e molhados no caldo de feijão.
_O arroz ficou salgado. Pensou consigo e abafou a própria voz quando, num segundo de distração, ia perguntando qual o julgamento que ele fazia do tempero de seu arroz. Suspirou um ar nicotinado pelo último cigarro que fumou. Não cederia, bateu o pé. Pegou mais duas tainhas de pepino deixando sobrar mesma quantidade para o marido. Pegar as quatro poderia ser um pretexto para iniciar um diálogo. Pegou apenas duas e repicou-as com a lateral do garfo. Engoliu-as pouco a pouco como se estivesse concorrendo com Nivaldo quem terminaria de almoçar por último.
Agora era ela que estava se lembrando da novena da Campanha da Fraternidade em Família. Foi dona Alzira, boa mulher, que a procurou. Acompanhou a novena todos os dias. Quis continuar a participar do Grupo de Reflexão. Foi duas vezes e depois desanimou. Nivaldo não a estimulou. Participou da novena apenas no dia em que rezaram na sua casa. Outras vizinhas, por diversas vezes, a chamava para participar de outras igrejas. Mas ela achava que se voltasse a participar tinha que ser na católica. Tem muito tempo que ela não vai à igreja. Tem missa todos os domingos pela manhã em seu bairro. A última vez que foi teve a impressão que todos ali a olhavam. Até mesmo o jovem padre que certamente não a conhecia ficou olhando para ela durante a missa. Tinha certeza que a maioria das pessoas na igreja sabia das surras que levava do marido. Sentiu-se envergonhada e inferior às outras mulheres.
Nivaldo seguia almoçando e a olhando. Ela agora tenta fingir que não o percebe e fingiu muito bem. Talvez não fosse o ódio que lhe azedava o estômago, não teria conseguido disfarçar. Passou o garfo no fundo do prato para ajuntar os grãos de arroz que ainda estavam lá manchados de caldo de feijão como seu rosto pelo caldo da brutalidade do machismo idiota. Arriscou a olhar para Nivaldo que ao sentir a presença dos olhos dela abaixou a cabeça.
Nivaldo começou a pensar nos carretos que pegou para fazer à tarde, levantou-se. Foi até ao pequeno banheiro, gargarejou morna na boca e saiu do mesmo jeito que entrou deixando sua esposa sentada na cadeira como permanecera todo tempo do almoço.
_Melhor não falar nada. Deixo para ele puxar o assunto. A língua até coçou para falar lhe umas poucas e boas. Mas é ele que tem que puxar assunto. Miserável.
Marli deixou-se ficar mais cinco minutos sentada. Levantou-se já recolhendo os dois pratos esmaltados com cuidado para não descasca-los mais ainda. Guardou as panelas dentro do forno simples do fogão branco e lavou as conchas, os garfos e os pratos na pia próxima ao velho fogão onde acabou de guardar as panelas.

_Que bom que seria a vida sem Nivaldo. Pode falar em voz sussurrante.

LEIA A SEGUIR:
CAPÍTULO II

domingo, 7 de agosto de 2016

ETERNO BREVE MOMENTO


PARTE I
Sei lá o que me levou a envolver tanto com os trabalhos pastorais da Igreja. Primeiro foi coordenação do meu grupo de jovens. Depois, mais e mais compromissos.
Quando dei por mim, estava envolvido até a cabeça. Minha agenda sempre se encontra farta de reuniões. No fundo é gostoso. Você conhece pessoas e pessoas te conhecem.
Epa! Tenho que desligar a televisão. Daqui a pouco terei um encontro para planejar o mês que vem da Pastoral da Juventude. Acho que estamos precisando de mais pessoas envolvidas em nossos trabalhos pastorais. Quem sabe se uma das irmãs de caridade não seria o ideal. Outro dia eu ouvi o nosso pároco comentar qualquer coisa nesse sentido. Creio que não está muito longe de uma congregação feminina abrir uma casa aqui em Mutum.
Bem, sei que se eu ficar preso aqui, com esse meu “filosofar de guaxima”, acabarei chegando muito atrasado ao encontro.
Ah, uma calça jeans! Oh, como é difícil achar uma calça jeans para vestir quando se está com pressa. Minha mãe precisa colocar essas calças passadas no calceiro do guarda roupa. Lá sim é o lugar delas, e não aqui em cima da cama.
E por falar em cama, que rima com ama, de amar, hoje faz um ano que Magali terminou comigo. E já faz mais de um mês que não pinta nem uma paquera sequer. Essas pastorais costumam deixar a gente sem tempo para outras coisas como paquerar.
Acho que esta calça aqui está boa, vou vesti-la. Estou emagrecendo. É esse negócio da gente ficar almoçando e jantando sem hora certa e sempre às pressas.
A camisa que eu vou vestir. Deixa-me ver aqui. Aquela que Magali me deu de presente serve. Eu gosto dela e acho que de Magali também, ainda. Saudades de Magali. Será por que ela terminou comigo?
Bem da verdade, ela não chegou a terminar. Ela só pediu um tempo, e eu não dei. Aí ela não me procurou mais.
Sete horas. Nunca cheguei adiantado ou mesmo na hora. Não é hoje que isso vai acontecer. Agora são os sapatos. Onde estão? Ali. Descobri pelo cheiro leve de couro sujo. E lá vou eu para a reunião.
_Tchau, mãe. Eu tô indo.
_Tchau, vê se não volta tarde.
Eu já estou no portão.


PARTE II
Esse meu filosofar de guaxima ainda me levará a ser um gênio do tipo Espinoza, Schopenhauer, ou então a ser mais um habitante do sanatório. Certo, eu não sou mais que um cidadão comum, anônimo na multidão, banal, que fica preso dentro das obrigações cotidianas. Acordar, escovar os dentes, café da manhã e assim vai até dormir. Eu penso, fico tenso, eu tenho meu filosofar, guaximamente.
Meu último beijo, na boca, pra valer, foi em Magali. É outra Magali. Não aquela que me pediu um tempo. Eu não dei e tudo terminou. Esse beijo foi a mais de um mês.
A matriz está bem decorada. Se a burguesia não aceita a interpretação revolucionária da Bíblia e o espírito de compromisso social do cristianismo, ao menos contribui para enfeitar com seu eterno bom mau-gosto os nossos templos de Jerusalém.
Críticas à parte, o fato é que as irmãs de caridade vão ser recebidas pela nossa aburguesada comunidade paroquial.
Elas são três: Irmã Glória, supervisora da casa recém-fundada em Mutum, ar sério e autoritário; Irmã Consolação, a mais idosa, parece ser uma pessoa resignada; Irmã Cristiny, a mais nova, rosto cálido e postura cauta. Belo trio.
Fiquei sabendo no dia seguinte que as três irmãs de hábito branco vão atuar em várias frentes pastorais. Irmã Cristiny, a cauta, vai nos ajudar na Pastoral da Juventude.
“Bem-vinda, Irmã Cristiny!”. Um coro uníssono na sua apresentação ao grupo de jovem. “Essa me parece ser das nossas”, Filosofei intimamente com os meus... bem, com a estampa da minha camisa que lembra o DNJ (Dia Nacional da Juventude) do ano passado.
Sua apresentação somente confirmou o que nós esperávamos. Pelo menos eu. Não sei por que. Escondi meus tênis sujos jogando-os para debaixo da cadeira quando notei que Irmã Cristiny olhava para eles.
Ela ficou esperando que eu me apresentasse. Desmanchei o embaraço inicial e uma salada de palavras foi se desembuchando de dentro da minha boca. Ela me ouvia atentamente, parecia encantada com o que eu falei.
Neste dia conheci formalmente Irmã Cristiny. Ela é natural de Caputira, cidade relativamente perto. De lá conheço Áurea. Sua tez cálida traz dois verdes olhares e um sorriso puro. Angelical.
Voltei para minha casa com a fisionomia de Irmã Cristiny na cabeça. Linda, bela, cauta, menina-moça.
Todo dia reunião. Quase todo dia vejo irmã Cristiny.
Aonde vou achar uma calça jeans para vestir? Onde estão os meus sapatos? Já sei. Depois de uma farejada, localizei-os debaixo da penteadeira. Minha mãe deveria colocar as roupas no guarda roupa assim que ela terminasse de passar.
Ah! Também por que tanta pressa? Hoje não tem reunião. Até que enfim. Bem, eu poderia estar saindo para paquerar, mas estou sozinho. Eu poderia ficar em casa e ver televisão, mas já me desacostumei da TV. Nem se qual a programação de hoje. Vou sair por sair. Hoje estou calmo. Vou procurar uma calça, como sempre, sobre a cama, e como sempre, amarrotada.
Calmo estou, mas ouvi palmas suavemente agressivas. Ouvi alguém chamando:
_Fausto!
Fechei rapidamente o zíper e sai tropeçando na bainha da calça.
_Irmã Cristiny? Entre.
Ela entrou, sentou-se no sofá, começou a conversar comigo e eu com os olhos verdes dela.
Ameacei de ir colocar uma camisa. Ela me segurou pelo braço e disse que não tinha importância. Foi aí que notei que estávamos a sós. Eu e ela e minha casa.
Vieram em minha cabeça maus pensamentos. Deu em mim uma louca vontade de beijar seus lábios, abraçá-la apertadamente. Sentei bem próximo ao eu hábito branco, bem alvo. Senti o seu cheiro de mulher.
Irmã Cristiny parece ter notado nos meus olhos o desejo de tê-la. Tocou em assuntos variados com certa cautela. Mas algo me dizia que ela não era tão cauta assim.
Arranjou uma desculpa e levantou-se para ir embora.
_Cedo, Irmã.
_Não, Fausto. Não posso demorar. Só vim mesmo fazer uma visita de beija-flor. Arrematou ela harmoniosamente.
_Então, finge que sou uma flor e me beija. Quase falei, mas deu para segurar.
_Até mais, Fausto.
_Então até, Irmã.
Um beijo na bochecha, outro na outra bochecha, e no terceiro, num eterno breve momento, nossos lábios se tocaram.
Irmã Cristiny se foi. Fiquei com a dúvida. O beijo nos lábios, fruto da minha intenção, teria sido também da intenção dela?


PARTE III
Se não foi da intenção dela, certamente me perdoou. O nosso relacionamento continuou sendo o mesmo depois daquele nosso encontro lá em casa.
E se tiver sido da intenção dela? Bem, acho que venceu a vontade ou teria me beijado só por curiosidade.
Confesso que me apaixonei por Irmã Cristiny. Não consigo esquecê-la. Aqueles olhos verdes e aquele rosto cálido, eu os amo.
Faço questão de ir a todas as reuniões em que ela está.
_Poxa mãe. Onde está a calça jeans? Não posso chegar atrasado.
Falei um pouco irritado com minha mãe que não tem culpa da minha ansiedade para chegar cedo à reunião só para conversar amistosamente com Irmã Cristiny.
Às vezes me pergunto se ela não já percebeu essa minha paixão. Eu jamais lhe revelaria como algumas moças que ficam a fim de seminaristas e padres lhes revelam.
Interessante é que sempre se escrevem, nos romances, casos de moças, ou mulheres, com padres. Lembro-me agora de “O Crime do Padre Amaro” do Eça de Queirós, que eu pensava que fosse mulher por causa do Eça. Ainda que eu saiba não escreveram nenhum caso de um rapaz com uma freira. Se eu fosse escritor teria argumentos suficientes para colocar e colorir o meu romance. Argumentos que vão de engraçados a eróticos.
Daria um romance sim. Meu caso é trágico. Fiquei com a dúvida. O beijo dela foi intencional ou não?
Irmã Cristiny foi embora da paróquia de Mutum. Fui com o coração em prantos despedir-me dela. Tive vontade de pedir desculpas pelo beijo sem saber se ele foi roubado, imprevisto ou consentido. Abracei-a fortemente e lhe desejei boa sorte.
_Qualquer dia, Fausto, a gente se encontra. Não permitirei que seja este o último dia que nos veremos face a face.
Fiquei sem fôlego diante da profundidade das palavras dela. Creio que ela falou por falar.

PARTE IV
Irmã Margareth é totalmente adversa de Irmã Cristiny. Vermelha, bochechuda e tímida.
_Mãe, cadê as calças? Preciso arrumar a mochila.
_Vou pegar. Se não for eu você não arranjar nada. Cuidado com esse negócio de política. Já te falei para não ficar envolvido com isso.
Peguei o ônibus que passou atrasado por aqui. Não cochilei nem um minuto sequer. Fui filosofando guaximamente até a capital mineira. Belo Horizonte de mais de cem anos acolheu-me friamente com seu abraço de concreto. Meus companheiros de partido parecem mais ansiosos que eu.
Essa convenção estadual promete muito debate. Eu vou ficar com a atual direção. Entrando no mineirinho, ouvi:
_Fausto! Fausto!
Olhei para trás e quase não acreditei. Irmã Cristiny veio ao meu encontro e me abraçou.
­_Você por aqui, Irmã Cristiny?
_Irmã não mais, agora só Cristiny. Nem reparou que estou sem hábito.
Sinceramente eu não havia reparado mesmo tamanha emoção de revê-la.
Abraçamos novamente e este nosso eterno momento, desta vez, não se limitou na brevidade do tempo.
Certo dia depois que nos casamos, pergunto para Cristiny:
_Lembra-se daquele beijo quando você foi à minha casa pela primeira vez?
-Lembro.
_Foi incidente ou você quis?

_Você não sabe? Nem eu...

ENXERTIAS 03

ENXERTIAS 03

















T.E.021
Reutilizei toda postagem
................compostagem

T.E.022
Salva-te-ei de onde arde
........................aguarde

T.E. 023
Maquiada, mesmo já sendo idosa
........................................vaidosa

T.E. 024
A criança pensa que é avião
.................................gavião

T.E.025
Olhar sempre mirado nela
..........................sentinela

T.E.026
Razão de ser tão passivo
.....................compassivo

T.E.027
Meus pés sempre agem
.........................viagem

T.E.028
Para se eleger, falsifica a ata
................pseudo-democrata

T.E.029
Um monstro em tua frente
...........................enfrente


T.E.030
De dinheiro eu tô liso
...................socializo

TIQUIM ENXERTADO É UM ESTILO POÉTICO 
CRIADO POR:
CLÁUDIO ANTONIO MENDES & MARLI CALDEIRA

LEIA TAMBÉM:

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O INIDENTIFICÁVEL



Sem identidade,
Porém idôneo
Eu sigo pela cidade
Sem saber meu nome

Sem saber a idade
De cada ruga
Sulcada pelas lágrimas
No rosto que madruga

De mim vive digitais
No que desembrulho
Durante a noite
Em meio a entulho

Rastros de uma carne
Que segue biodegradável
Enquanto sigo sendo

O inidentificável

domingo, 31 de julho de 2016

ENXERTIAS 02











T.011
É para mim a tua ação
.......................atuação

T.012
Essa solidão tão maluca
.......................machuca

T.013
Na escola decoro feito mula
..................................fórmula

T.014
Para o amor, a porta eu fecho
...................................desfecho

T.015
Para alcançar, eu remo
..........................extremo

T.016
Pensa no amor, pensa na dor
.................................pensador

T.017
Para não cair nele, eu rezo
.......................desprezo

T.018
Muitas pessoas que não se dão
...................................multidão


T.019
Julgaram-no com problema mental
.....................................sentimental

T.020
Foi acumulando propriedade

...........................prosperidade

TIQUIM ENXERTADO É UM ESTILO POÉTICO CRIADO POR:
CLÁUDIO ANTONIO MENDES & MARLI CALDEIRA

sábado, 30 de julho de 2016

ENXERTIAS I

ENXERTIAS é o título provisório do livro de TIQUINS ENXERTADOS.
Tiquins exertados são poemas minimalistas criados por mim e por Marli Caldeira, criadora do estilo Tiquim.

Postagem de 10 tiquins enxertados compostos recentemente (hoje)

T.001
Tua lágrima me rega
........................entrega

T.002
Ela não voltou depois da ida
...............................perdida

T.003
Preço do sal para o gado
..........................salgado

T.004
Poetizar, bem para a mente
............................experimente

T.005
Teu beijo feito doce de leite
........................................deleite

T.006
Teu esforço a gente sente
...................complacente

T.007
Cor da ideologia nunca velha
..............................vermelha


T.008
Só ficou um risco no espelho
.......................................coelho

T.009
Sempre pôs as cartas na mesa
.......................................firmeza

T.010
Eu conquisto a cada passo
...................................espaço


SOBRE TIQUIM ENXERTADO