terça-feira, 10 de outubro de 2017

O PREÇO PELA PRIMEIRA VEZ - CAPÍTULO VIII

                 Meire estava feliz e só não percebia que não a notasse ou não a mirasse como a sua mãe.
        
Meire se felicitava consigo mesmo, conseguira o que queria. Nem que fosse um só momento, amara e fora amada.
         No dia seguinte os olhos de Meire começaram a perder o brilho. Arrependeu-se de ter se entregado logo no primeiro encontro. Ele poderia julgá-la vadia que se entregava a todos que encontrasse. Mas agora nada poderia fazer. Fora a primeira para ele e disso ele jamais esqueceria. Sabia disso. Foi ele mesmo que disse e pareceu ser realmente principiante na arte do amor. Poderia estar mentido e fingindo. Mas não teria necessidade disso.
         Relembrava com emoção cada gesto, cada abraço, cada beijo e cada detalhe. Mas a indecisão sempre entrava sem bater à porta. O que ele estaria sentindo em relação a ela?
         Dois dias se passaram e ele não a procurou nem para dizer que foi bom. Não tinha coragem de ir à mercearia. Quando precisava mandava seu irmão.
         As dúvidas foram brotando com ervas daninhas no meio de uma lavoura.
         Sábado a tarde ela estava no portão quando ele surgiu e já ia passando sem dizer nada.
         — Afonsinho. — chamou quase gritando.
         — Oi Meire, como vai você? Hoje você está linda. — tentou ser agradável.
         — Afonsinho, tudo aquilo que aconteceu entre nós foi maravilhoso para mim. Eu só... — as palavras começaram a faltar — Eu só queria que você não pensasse mal de mim. Eu não sou vadia como você deve estar pensando. Eu só me entreguei por que eu sou apaixonada por você.
         — Olha Meire. — disse Afonsinho depois de um longo suspiro. — eu te acho legal.
         — Então por que você não paquera comigo?
         — Porque eu não estou a fim de ficar com ninguém. Foi bom ter ficado com você. Foi minha primeira experiência e isso deve ser nosso segredo. Mas eu não posso te namorar.
         Mal Afonsinho terminou a última frase, Meire deu de costas e entrou na pequena casa com os olhos cheios de lágrimas.
         Sua paixão por Afonsinho continuou mesmo depois de três meses tentado esquecê-lo.
         Depois de um tempo, mudou para outro bairro onde conheceu Carlos com quem começou a ter um relacionamento.



domingo, 8 de outubro de 2017

AS FRASES


As frases soltas pela folha em branco
Histórias que não rompem o círculo do óbvio
Eu me esqueci de te dizer que nem todo traço
É um divisor de águas no plano das tolerâncias

Amanhã eu posso ver como a vida funciona
Por hoje eu ficarei vendo o mundo balançar
Pela tela do meu smartphone acesso as frases
Que se deixaram ficar soltas pela folha em branco

O que me entala no meio da noite pode passar despercebido
As marcas da angústia não contam na bolsa de valores
Em celulares há mais informação que em latas de sardinha
Mas eu prefiro não expressar o que está no porão da alma

O silêncio cortante em teus lábios fere minha curiosidade
Enquanto passos espalham histórias pelas calçadas do bairro
Vejo as flores que abafam as segundas intenções
Como cortinas surradas em janelas abertas às frases
Que bailam pelo céu da cidade feito vagalumes
Atraídos pelas luzes cintilantes de olhos transeuntes
Eu decifro o silêncio da noite antes que o amanhã apareça



terça-feira, 12 de setembro de 2017

CARÊNCIA DE POESIA



Enquanto eu te faço carinho
O mundo taca fogo na floresta
Enquanto colho flor sem espinho
Solitários se embriagam em festa
Enquanto contigo sigo o caminho
E amanheço sem estar sozinho
Quando quase nada me resta

Enquanto me sacio com teu beijo
O mundo esmorece de tão faminto
Enquanto pelo teu corpo eu velejo
O mundo ainda se move por absinto
Mesmo sem ter a faca e ter o queijo
Eu nutro-me do teu louco desejo
O meu amor é mais que instinto

Enquanto componho os meus versos
O mundo agoniza carente de poesia
Enquanto viajo em outros universos
O mundo sequer foge da hipocrisia
Alheio aos sentimentos perversos
Eu batalho com meus reversos
Tendo você, eterna companhia


terça-feira, 5 de setembro de 2017

ÁRVORES SOLITÁRIAS - 001










A CHEGADA DA MORTE

04. A CHEGADA DA MORTE

Aquele apito de início de turno
Aqueles portões enormes
Aquela tez de cimento
Aquele vociferar dantesco
Aqueles uniformes fétidos
Aqueles cumprimentos gélidos
Aqueles burgueses de ternos e gravatas
Aquelas chaminés pintando na tela
Uma gravura infernal
Aqueles produtos de belas embalagens
Aquele enfeiamento de pessoas
Era a morte que havia chegado
E eu não sabia


MUTUM, 18.12.1996

LEIA MAIS EM:

DENTRO DE MIM



Falar com as palavras
Brincar com as palavras
Prosear com os verbos
Aquecer-se nas noites de invernos
Com poesia da boa

Falar sobre o mundo
Faltar da escola na segunda
Fechar a porta e ir acordar
Para a fantasia mais sincera

Quem me dera ser a palavra
Na garganta seca do oprimido
Na garrucha velha do velho poeta
Alvejando o papel de vida

Rolar no tapete com os livros
Rosnar alto diante dos livros
Livrar-se das vestes e se acariciar
Exibir-se diante dos grilos da cabeça
Viver a beira do abismo da alma

Respingar-se pelas horas do dia escuro
Buscando um furo na parede do tempo
Entre páginas secretas e segredos desvendados
De mãos dadas com a dúvida mais cruel
Meu céu, meu sol
Um som florescendo no silêncio do jardim

Dentro de mim, bem dentro de mim!