sábado, 24 de junho de 2017

O PREÇO PELA PRIMEIRA VEZ - CAPÍTULO V


Essa história começa aqui:AFONSINHO: O GALÃ DA MERCEARIA

CAPÍTULO V
A mãe de Meire teve que arranjar uma folguinha no emprego para dar uma chegadinha até a escola dela sem entender o porquê da solicitação tão urgente.
         — A senhora sabia que sua filha tem faltado frequentemente às aulas? — perguntou a supervisora em tom autoritário.
         — Faltando? — surpreendeu-se — Mais como? Todos os dias ela sai de cada para vir à escola.
         — Mas não vem. Está com um número excessivo de faltas. Na certa vai ficar reprovada.
         — Vou procurar saber o que está acontecendo.
         Despediu humildemente da supervisora e voltou para o trabalho
         Ao chegar a sua casa, saindo mais cedo, foi logo querendo passar a limpo a afirmação da escola. Porém Meire achou uma saída. Disse que muitas vezes chegava atrasada. O portão já estava fechado e com medo que a mãe soubesse, esperava as colegas na volta. Disse que também estava preocupada com a situação.
         Numa noite o azar bateu na porta de Meire. Sua mãe estava indo ao aniversário de uma colega. Ao passar em frente a um bar, resolveu dar uma espiada por curiosidade. Ficou atônita. Viu sua filha como jamais imaginara. Em mesa de bar sendo cortejada por rapazes desclassificados. — Não, não era verdade. — pensou.
         A reação foi instantânea:
         — Para casa, sua vagabunda, antes que eu te dê uma surra aqui mesmo.
         Saíram mãe e filha sem dizer nada uma para a outra e seguiram para casa.
         Surrada, Meire não voltou mais às aulas e foi proibida por tempo ilimitado de sair de casa, a não ser na companhia da mãe. Desviciou-se do cigarro, da bebida e do sexo fácil.
         Pouco a pouco a poeira foi abaixando e ela reconquistou a confiança em casa.
         Talvez pudesse voltar a estudar, mas não teve coragem.

         Depois de algum tempo mudou com toda família, mãe e irmão, para a pequena casa ao lado do estabelecimento comercial.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

PÃO, VINHO E ESTRICNINA

PRIMEIRA
ESTOCADA
MICHEL FOUCAULT
Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta... Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la.

PÃO, VINHO E ESTRICNINA
 O novo sacristão prestava atenção no sermão sobre confissões. Talvez um dia ele confesse seu mais novo segredo. Só ele sabia naquela catedral superlotada que a comunhão seria sob três espécies: pão, vinho e estricnina.


 
CENÁRIO

 Antes de usar a velha catedral como locação do seu filme de terror, o diretor de cena precisou do sangue do bispo.


 
O BISTURI DO CIRURGIÃO 

— Ei doutor, passa o seu bisturi em mim. — falou toda sinuosa para o jovem cirurgião que foi fazer uma palestra na escola. No dia seguinte ela estava morta, toda retalhada. Ele havia realizado seu desejo.

 
NA CARNE DO CORVO

 Enquanto o corvo beliscava seu corpo, sua alma apossou-se do animal asqueroso. Só agora percebe como o mundo é lindo e as pessoas são doces.
  
CHURRASQUINHO UNIVERSITÁRIO

 Ele vendia churrasquinhos em frente à faculdade de medicina. Todos compravam seu petisco para aplacar a fome após longas aulas. Era de um sabor diferente. A cada semana ele tinha um freguês a menos. Ainda assim seu negócio rendia. Coisas de ex-universitário frustrado.


 
ENXADADA INCISIVA

Estressado com sua profissão, cirurgião renomado abandonou sua brilhante carreira. Comprou um sítio longe da grande cidade. Pensou consigo: Mexer com plantas é bem melhor que com ser humano. Na primeira enxadada fez uma incisão bem no peito do cadáver mal enterrado.


 
COMEMORAÇÃO NO TREVO

 — Oi amor, estou te ligando para sairmos hoje, vamos comemorar a noite toda.
— Comemorar o que?
— Você não se lembrar? Vem que eu te conto. Encontre-se comigo no trevo depois das 10.
Ele havia esquecido que hoje faz um ano que sua namorada morreu atropelada no mesmo trevo que sempre a encontrava.
O VILAREJO

Quando chegou ao vilarejo, não encontrou uma viva alma sequer. O lugar era realmente sinistro. Mal sabia ele que também sairia dali sem a sua.

 
PENA!

 O estripador ao retalhar o corpo de mais uma vítima, depara com uma cicatriz que ela trazia de um grave acidente automobilístico. Sentiu pena!


O MEL DA SUA LUA

Foi durante a recepção do casamento que ele passou para ela o veneno dentro de uma pequena ampola. O noivo ao lado sorriu inocente, nem percebeu que o mel de sua lua estava sendo temperado com estricnina.


FUGINDO DO PERSONAGEM

Entrou na loja e todas as balconistas se esconderam. Ninguém queria virar personagem nos contos do escritor. Isso sim é um terror para ele.

 
EU SANGUE FERVE

De seus olhos gotejam sangue. Seus passos são cambaleantes pela trilha estreita, cabelos desalinhados e um corpo frágil fora do prumo. Disseram-me que essa montanha é amaldiçoada. Não acredito, pois meu sangue ferve por essa mulher caminhando em minha direção.



NÃO HAVIA COMIDA


A chuva e a fome eram as duas companhias do andarilho. Ele avistou uma casa solitária. Julgou haver abrigo e comida. Enganou-se. Não havia nenhuma comida na casa antes dele se abrigar nela.

terça-feira, 20 de junho de 2017

UM INSETO PRESO EM TEIAS

CARTAS AO CAMARADA OLEV, CARTA Nº 04


Mutum, 04 de junho de 2017
 Caro Camarada Olev

Você pode não acreditar, mas há dias eu tento te escrever. Tenho estado acumulado de tarefas. Provas para corrigir e me enveredei pela literatura. Talvez seja a literatura meu refúgio. Sim, eu ando precisando de um refúgio. Decepcionado com o meu país. É uma tragédia que nós aqui no Brasil já sentíamos ao menos o cheiro de pólvora. Mas quando tudo explode a gente ainda lamenta. Meu país não tinha como escapar desse enredo. O partido da presidenta eleita em 2014 envolvido. O vice, envolvido, e o adversário também. Não tinha com sair dessa. Meu país é um inseto preso em teias cada vez mais pegajosas. Sofro muito. Ser esquerda no Brasil é ser humilhado com os fatos. É ter que renovar a esperança a cada dia. Você sabe que eu ando afastado da política. Não sou mais tão militante com outrora fui. Na minha cidade, o partido a qual pertenço governa bem. Em Minas Gerais, meu estado, faz o que pode, mas, a nível nacional, não tem como exaltar e nem tem como criticar. 
E quanto a você, o que anda fazendo em Burgas? A Bulgária anda fora do noticiário daqui. Não vejo mais nem a seleção de futebol e nem a seleção de vôlei do seu país. O que me despertou a retomar o contato com você foi uma menção feita à Bulgária no filme “Doce Vingança 2” que assisti ontem pelo telecine na TV paga.
Quando você virá ao Brasil me visitar? Parece-me que você falou de uma palestra que terá em Buenos Aires no mês de agosto. Argentina é aqui do lado. Organize aí e depois de passar pela cidade portenha, dê um chego aqui no leste de Minas Gerais. Vai ser interessante para você, como professor universitário saber o que é viver nesse meu país.
Se você vier aqui, quero discutir com você a ideia que tem se formado em minha mente. Penso que o capitalismo não dá mesmo. Então, aqui no Brasil, temos espaço para o surgimento de um novo tipo de socialismo. Eu primeiramente estou denominando essa ideia de Socialismo Orgânico. O adjetivo não te deve ser estranho. Temos muitas coisas orgânicas pelo mundo com a produção de alimento. Seria um socialismo baseado na organicidade de qualquer sociedade. Onde cada parte está ligada ao todo. Não parti de uma ideia fechada para depois dar um titulo, na verdade parti do título para ir fechando as ideias.
Mas penso que tudo precisa ser repensando, talvez seja uma evolução do que chamo Democracia de Projetos.
Mais uma renovo minha intenção de lhe escrever em espaços mais curtos.

Fraternalmente, um abraço
Camarada Mendes


O PREÇO PELA PRIMEIRA VEZ - CAPÍTULO IV




COMECE DO COMEÇO: Se você vai ler pela primeira vez, comece do CAPÍTULO I

Depois de um dia cansativo, lutando com as panelas contra o fogo, manejando o cozimento, a fritura e o tempero, a mãe de Meire estava dormindo como nunca. Um sono pesado, profundo, melodiado com um estridente roncar.
         Meire entrou pé por pé. Deitou-se em sua dura cama com um colchão tão magro como o rapaz que há pouco instantes a possuíra. Sentia a rigidez das ripas em suas costas. Algo lhe parecia sujo, levantou-se e foi ao banheiro. Despiu-se rapidamente e lavou o sangue coagulado que ficou escorrido perna abaixo. — Até que não sangrou tanto. Com tanta dor até achei que meu sangue iria sair todo por entre as pernas. — pensou.
         Enxugou as pernas e voltou para cama. Puxou para cima de si uma desbotada colcha de retalhos. Não tinha sono. Não tinha mais hímen.
         Começou a pensar na sua primeira vez, no seu primeiro beijo, na sua primeira transa e até os copos de cerveja tomados assim num bar eram os primeiros. Sentiu que agora sua vida ia mudar. Ia ser diferente. Descobriu finalmente a função de suas curvas bem definidas e das partes íntimas, aquelas que a educação rígida e tradicional lhe dissera que eram proibidas. Intocável vulva, nádegas e seios.

         Os dias passaram. Luzia e Meire se tornaram agora mais amigas, inseparáveis. Viviam de segredos pelos cantos da escola. Onde uma estava outra também. Combinavam aventuras, provocavam os rapazes e fingiam estarem sempre felizes. Matavam com mais frequência os dias letivos.
         Primeiro uma rodada de cerveja, alguns cigarros divididos entre cinzas no chão e nicotina nos pulmões. Depois de escolhido os parceiros, lá se iam para um canto qualquer. Bom é quando o parceiro tinha um carro, ainda que fosse um Chevette velho. Não tendo, fosse onde pudesse.

         Meira sentia grande prazer em ficar com um em cada noite. Julgava ser isso a única diversão que a vida oferecia a uma pobre garota de quatorze anos.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

JOIO & TRIGO



CARTAS AO CAMARADA OLEV - III


Mutum, 19 de janeiro de 2016

Caro camarada Olev

Começo essa missiva que vos envio com uma daquelas frases de efeito que costumo formular, e que venho guardando em uma pastinha no meu computador com o título de Clauditos & Claudices. Quem sabe um dia eu publico essa coletânea de aforismos com o título da pasta. Bem, esse é mais um dos tantos projetos literários que tenho.
Minha frase é:  “Todos os politiqueiros, do congresso nacional às câmaras municipais, são responsáveis pela chacina dos nossos sonhos”. Ou seja, “Всички политици, Националния конгрес на общинските съвети са отговорни за избиването на нашите мечти”.
Sei que você, cientista político aí em Burgas, vai me perguntar pelos projetos políticos. Não sou mais assim tão militante de rua, como você sabe. Ora, caro amigo Dimitri, digamos que faço política com as letras, apesar das dificuldades. Você sabe que sou formado em Ciências Biológicas. Logo, tenho dificuldades com a gramática. Essa última flor de Lácio que tanto me embriaga, às vezes me deixa de porre.
Agradeço pelos livros que você me enviou. São três excelentes livros. Espero que já tenha, pelo menos, folheado os que eu te enviei.
Mas caro amigo, não poderia eu deixar de falar da política em si, ou melhor, da politicagem que toma conta do Brasil. Percebe-se que a lama da mineradora no Rio Doce é um desastre literal que serve de metáfora para o que temos na política do Brasil. Dizia Renato Russo em uma das músicas da Legião Urbana: É sujeira para todo lado.
Pelo que você me relata, aí na Bulgária não é diferente. Então como vamos formatar um sistema político que seja imune à corrupção, suborno, nepotismo e outras patologias da política?
Deve haver algum jeito. Não podemos admitir estarmos condenados ao nosso próprio egoísmo, egocentrismo, que somos eternos assassinos de sonhos coletivos. Não podemos aceitar que somos isso, que o joio sempre vai crescer mais que o trigo.
Seja em religiosos, seja em ateus, a fé no ser humano tem que existir. Eu sigo aqui, nos sertões do leste, a viver em meu lar minha doce utopia de pensar que um dia, um belo dia, nós vamos acertar. Vamos encontrar um meio de educar, desde o útero, nossas crianças para viverem em um mundo diferente. Um mundo onde a política goze de perfeita saúde e seja cercada de pessoas que estão vigilantes para não deixar que nenhuma patologia avance pelas células do sistema.
Sei que tanto eu, quanto você, acreditamos que o mundo caminha, ainda que capenga, para o socialismo. O reino de liberdade se traduz em uma sociedade socialista, e jamais em uma sociedade capitalista. No entanto, atores sociais vão fazendo o papel que lhes cabe esse teatro da pós-modernidade.
Dimitri, leia meus escritos, se puder, no site Recanto das Letras. Tenho flertado com os chamados contos de terror para exercitar um pouco a maldade humana em forma de literatura. E aí eu penso que o joio, só para usar a metáfora de Jesus, deveria ser sublimado em arte. A literatura de Terror, que jamais chamarei de literatura negra, e a música como Death Metal, que eu curto, são apenas expressões artísticas que sublimam esse lado da alma, para que, nas ações concretas, aflore o trigo. O que há de bondade em cada mulher e em cada homem.
A um tempo atrás, eu terminaria essa carta dizendo, saudações petistas. Hoje eu prefiro terminar dizendo, saudações utópicas.
Fraternalmente, um abraço,

Camarada Mendes

sábado, 17 de junho de 2017

O PREÇO PELA PRIMEIRA VEZ - CAP III


NOTA: Se for a primeira vez que ler a nossa novela, não pague o preço, volte ao CAPÍTULO I

         Ao passar por uma rua escura, Meire sentiu o braço do rapaz envolvendo seu corpo. Parou sem saber por que. Parou sem dizer nada. Havia quinze minutos que estava calada. Pensou em fugir. Sabia que não era apenas o abraço que ele queria. Sabia que iria ser difícil dizer não, ou melhor, fazê-lo entender o não. Não adiantaria muito tentar resistir o que o seu próprio corpo queria. Já ia dize que hoje não, mas sentia os lábios de João Carlos tocando nos seus. Fechou os olhos e deixou acontecer.
         Era o seu primeiro beijo. Depois quis mais e mais. Mesmo não sendo João Carlos o rapaz da sua preferencia. Ainda, é bem verdade, não preferia ninguém. Com seus problemas familiares e a péssima condição financeira, não lhe restava tempo para os primeiros namorinhos comuns na adolescência.
         De repente sem saber o que fazer, perguntou:
         — Porque você me beijou?
         — É por que eu te acho uma gracinha. — respondeu o rapaz convicto de si.
         — É que eu nunca beijei antes.
         — Relaxa, tudo tem a primeira vez. – rebateu.
         Na segunda rodada de beijos, a mão do rapaz roçou-lhe as coxas em direção às suas partes mais íntimas. Ela tentou se defender. Mas a insistência venceu a resistência.
         Seguindo com os beijos, as mesmas mãos que roçavam suas coxas, contraia seus seios.
         Meire sentia-se suspensa e sem perceber foi puxada um pouco para o canto onde o escuro era mais forte que o resto da rua. Poucos minutos depois, Meire sentia, pela primeira vez, um corpo estranho em suas entranhas.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A 3ª GUERRA MUNDIAL JÁ ACONTECEU




A 3ª Guerra Mundial já aconteceu. Foi uma guerra lenta, cautelosa, sem estardalhaço. Não foi uma guerra entre países, entre a aliança e o eixo. Foi uma guerra contra o humano e seus sentimentos. Foi uma guerra contra a identidade pessoal, contra a esperança e a nossa capacidade de sonhar. Decidiu-se destruir nossa mais poderosa arma, a utopia. Essa vontade de realizar algo que caiba em qualquer lugar, em qualquer cidade, em qualquer nação.
Você não viu bombardeiros no céu. Apenas aviões comerciais darem o beijo da morte em torres de babel. Os satélites de comunicação ficam mais alto que nossas vistas não os alcançam
 Você não viu trincheiras no chão. O asfalto é duro para se cavar. Não precisou de muitos soldados, mas técnicos necessitando vender seus trabalhos.
Não houve nenhum Pearl Jarbor, não houve cogumelo gigante em Hiroshima e Nagasaki. Não houve tentativa de paz. Não houve nada. Apenas a guerra silenciosa, cega e surda.
A guerra foi surda. Os fones em nossos ouvidos não nos deixaram ouvir os pedidos de socorro. Os senhores da Guerra não ouviram as jornadas de junho, a primavera árabe, o Green Peace, as mães da praça, de qualquer praça, e ninguém ouviu ninguém. No mar Egeu morre-se em silêncio. Apenas um corpo pequeno na praia pela manhã indica que a morte também sabe andar sobre as águas.
A guerra foi cega. Não viram nada. Nem os seios do Femen, nem as burcas das afegãs. Não viram a paulista lotada, não viram o Estado Islâmico avançar, não viram os escombros de Aleppo.
A guerra foi silenciosa. Não se fala mais. Em frente à Tevê, ao Netflix, ao tablet, i-phone, i-pad, i-qualquer coisa, a gente não se fala mais, o diálogo é uma exceção, um oásis no deserto das relações excessivamente áridas. Envia-se um “zap” como um míssil. Na calada da noite eles agem. Medidas provisórias, bolsas na Ásia, paraísos ficais. Tudo em silêncio. A suprema corte sem nenhuma cortesia. Direitos trabalhistas sendo esquartejados pelos açougueiros da democracia representativa. Eles trabalham em silêncio. Nós, em silêncio, morremos. Nem a canção nada questiona.
Nós perdemos essa guerra. Quem ganhou?
Ganhou o “hitler” que há dentro de cada um de nós. Nossos preconceitos, nossa ideia que somos os melhores. Nossa apropriação de símbolos que antes eram de paz. Nosso anseio de aprisionar o próximo em uma câmara de gás. Hitler venceu a Terceira Guerra Mundial.
Ganhou o “mussolini” que há dentro de cada um de nós. Nossa oportuna usurpação de pequenos poderes. O poder de ser aprovado na escola sem ter aprendido nada. O poder de contrair viroses na ânsia de ser superpotente.
Ganhou o “stálin” dentro das organizações com princípios socializantes, mas que agiu com mão de ferro. Endureceu-se tanto que perdeu-se a ternura.
Ganhou nossas viagens kamikazes sem combustível para a volta. Ganhou nossas drogas e nossas aventuras suicidas.
Ganhou o extremismo em todas as religiões e ganhou o outro lado da mesma moeda, nossa passividade, nossa falta de radicalidade, nosso excesso de radicalismo.
Ganhou nossas bombas nucleares que trazemos dentro do peito e detonamos sobre as pessoas que apenas buscam o pão de cada dia, sob qualquer pressão.
Ganhou a canalhice que usurpou da política, e a política que usurpou o Estado que agora diz não poder fazer nada por nós. Chauvinistas de si mesmos e de grandes corporações entrincheirados na cidade planejada. Os três poderes é o Reich
Nós perdemos. Estamos assinando nosso Versalhes de morte e não temos mais o carvão e o ferro de Álsacia-Lorena.  Mas nem tudo está perdido.
Precisamos nos reerguer das cinzas. O Estado não pode fazer mais nada por nós. Mas nós podemos fazer outro Estado. Um Estado composto por três poderes. O poder da partilha, o poder da justiça social e, sobretudo, o poder da solidariedade. Se assim fizermos, venceremos a Quarta Guerra Mundial.